Negócio global de café

Café diversifica suas opções no mercado

*Por Marcelo Raimon – Ex-correspondente de Washington, jornalista freelance que escreve sobre os EUA, Oriente Médio e tópicos de tendências.

Café diversifica suas opções no mercado
“Cada vez mais as pessoas estão determinadas a desfrutar de um excelente café em casa, feito por elas mesmas”, Agustín Quiroga (Crédito: Canva Fotos)

Se a mudança climática tem o seu caminho, é possível –  como confirmam relatórios contínuos sobre o assunto – que a infusão favorita do Ocidente se torne em poucos anos um luxo inacessível, e que chegará o tempo em que será necessário rezar ao deus de João Luis Guerra para que chova café no campo e milhões de pessoas ao redor do mundo possam tomar um café da manhã como as pessoas sem ter que hipotecar a casa.

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Ao mesmo tempo em que esses relatórios estão sendo divulgados, no entanto, outros estão afirmando que o negócio global de café continuará a produzir toneladas de dólares no futuro próximo, alimentado tanto pelos itens mais modestos (como o café solúvel desprezado pelos conhecedores) e as mais modernas tendências em máquinas domésticas com cápsulas e café gourmet.

Relatório

De fato, um relatório divulgado em abril do ano passado pela consultoria Future Market Insights estimou que o mercado mundial de cápsulas de café ultrapassará 9,8 bilhões de dólares até o final de 2032.

Os detalhes do relatório oferecem uma visão de alguns aspectos importantes desse negócio multifacetado e multijogador. Por exemplo, ele destaca que o mercado de cápsulas deve crescer graças aos “avanços tecnológicos das máquinas de café e à disponibilidade” daquelas pequenas belezas tecnológicas que antes só podiam ser admiradas, em suas versões maiores e em antigas cafeterias. Além disso, acrescenta, o boom – que não mostra sinais de abrandamento – dos negócios de “luxo” ao estilo Starbucks, onde os fãs podem ver como o seu café é preparado no momento através dos passos quase coreografados dos baristas, “o que despertou o interesse dos consumidores”, podendo fazê-lo em casa.

O relatório – segundo o qual os principais players deste segmento são Nestlé Nespresso, Starbucks Corporation, Lavazza, Gourmesso e Gloria Jean’s Coffees, com entre 25 e 30 por cento do mercado mundial – termina por apontar entre os “fatores-chave” de crescimento a “fácil disponibilidade, conforto, experiência de marca” e “posicionamento premium” do produto cápsula de café que, na Argentina, está na moda há alguns anos.

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Mas essa forte tendência, que se desenvolve principalmente nos Estados Unidos e nos países mais ricos da Europa, pode ser, justamente, uma miragem em uma ponta do “mundo cafeeiro“, enquanto na outra ponta, nos campos de produção que vão do Brasil para a Etiópia, passando por El Salvador, Colômbia, Vietnã e Honduras, os temores não são um desejo passageiro.

Entre os argumentos mais recentes nessa frente, relatos elaborados por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique, na Suíça, mostraram – em relatório publicado em janeiro deste ano – que o aquecimento global em um nível “moderado” pode resultar na perda de até metade das melhores terras de cultivo de café.

Em um cenário semelhante, o Brasil, o maior produtor mundial, pode ver uma queda de 79% na disponibilidade das melhores terras para o cultivo de café, segundo o relatório de cientistas suíços.

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O estudo, cujos resultados foram publicados na revista especializada PLOS One, levou em consideração as variações climáticas nas áreas cafeeiras do Brasil, Vietnã, Indonésia e Colômbia, atentando para todas as sutilezas das temperaturas das estações fria e quente, como bem como os níveis de chuva, entre outros fatores.

“Levando em conta os cenários de mudança climática” nessas regiões, a adequação dos campos tradicionais para o cultivo de café “diminuirá drasticamente até 2050”, alertaram os pesquisadores da Universidade de Zurique.

Em particular, eles esperam que as áreas altamente adequadas para o cultivo de café sejam reduzidas em 54 a 60%, as áreas moderadamente adequadas de 31 a 41% e as áreas marginalmente adequadas de 5 a 13%, dependendo da quantidade de gases que causam o efeito estufa que serão produzidos nos próximos anos.

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De qualquer forma, segundo este estudo, enquanto as perspectivas para as áreas cafeeiras mais produtivas da América Central e do Sul, África Central e Ocidental, Índia e Sudeste Asiático são cinzentas, por outro lado espera-se que algumas regiões ao Norte ou sul dessas áreas tornam-se mais adequadas, justamente por causa do aumento das temperaturas.

Os países e regiões favorecidos incluem os Estados Unidos, Argentina, Chile, China, África Oriental, Índia, Nova Zelândia, África do Sul e sul do Brasil e Uruguai.

Mercado

Isso significa que no Starbucks do futuro o sabor estrela será o feijão uruguaio ou chileno? Ou que o café do Brasil e da Colômbia (atualmente o terceiro maior produtor mundial) deixará seu reinado icônico nas mãos da Índia (décimo maior produtor mundial) ou da Nova Zelândia (que nem aparece entre os cinquenta primeiros)?

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Certamente o mercado e seus protagonistas encontrarão uma maneira de reciclar ou se adaptar, se levarmos em conta que estatísticas recentes – citadas em um artigo no The Conversation – estimam a receita do negócio do café em cerca de 460 bilhões de dólares neste ano de 2022.

Juntamente com esse número, compilado pelo site Statista.com, espera-se que o mercado de café cresça anualmente 5,29% no período 2022-2025.

Por enquanto, e além dos números e relatórios, as visões sobre o futuro do café parecem ser bastante diversas, dependendo do setor empresarial a partir do qual a situação é vista.

Erick Quirós, representante em El Salvador do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA, organismo que faz parte da OEA e tem sede na Costa Rica), disse para Perfil Argentina que, com efeito, “o café tende a se tornar um produto de luxo em um futuro próximo”, não apenas por causa das mudanças climáticas, mas também por outros problemas, como pragas ou a expansão de áreas urbanas que estão ocupando terras boas para a cafeicultura e empurrando os produtores para áreas menos aptas.

Pressões

Há também outras pressões sobre os produtores que são difíceis de imaginar enquanto desfrutam de um expresso ou cappuccino sem culpa em Montevidéu, Paris ou Nova York. Na América Central, especialmente no triângulo formado por El Salvador, Honduras e Guatemala, diz Quirós, muitos cafeeiros estão ficando sem mão e sem cérebro devido à emigração.

“Não há mudança geracional que possa atender à atividade cafeeira na região nos próximos anos”, alerta o economista agrícola do IICA, referindo-se aos jovens centro-americanos que preferem buscar novos horizontes longe de seus países.

Por sua vez, Agustín Quiroga, proprietário e fundador da Puerto Blest Tostadores, referência no setor de cafés especiais, compartilha com a Perfil Argentina uma avaliação que reflete preocupação, mas também otimismo. É verdade, reconhece Quiroga, que “há algum tempo se fala sobre o efeito das mudanças climáticas na produção de alimentos devido ao declínio da superfície ótima para o desenvolvimento de diferentes culturas”.

Também que “existem inúmeras investigações e projeções de diversos organismos que alertam para a incidência de fenómenos associados às alterações climáticas nas principais regiões agrícolas, afetando não só os produtores mas, consequentemente, os consumidores”.

E enquanto comenta que “o café não escapa a este cenário”, o representante da Puerto Blest assegura que, pelo menos até agora, na empresa “não sofremos desabastecimentos ou problemas associados”.

Além disso – acrescenta -, embora o café especial já possa ser considerado de certa forma “um luxo”, é o “luxo mais democrático e acessível: um produto da mais alta qualidade, cuidado em toda a cadeia de valor e que em adição a um produto é uma experiência única”.

Futuro

Talvez essas versões “high end” de café, como as cápsulas ou os “especiais” produzidos por torrefadoras como a Puerto Blest, sejam as mesas às quais os produtores podem se agarrar enquanto avança o impacto das mudanças climáticas: os consumidores desses segmentos não se assustam tão facilmente com os preços, ao contrário do “pobre” provador instantâneo, por exemplo, que tem que quebrar o cofrinho toda vez que vai ao supermercado comprar uma garrafinha “gourmet”.

Com mais ou menos chuva, ou com temperaturas subindo ou caindo, o mercado “parece próspero para o futuro”, diz Quirós, falando da região centro-americana. “O setor cafeeiro está emergindo de uma grande crise internacional de preços” e “está em andamento uma recuperação que esperamos que dure por vários anos”.

“O futuro é mutável e dinâmico”, continua o homem do IICA. “Há forte pressão comercial e midiática” de empresas que até apostam em um solúvel mais delicado feito de arábica em vez de robusta e, por outro lado, o gourmet pode ser “uma oportunidade muito importante” se a recuperação for confirmada pós-coronavírus economia econômica, tanto nos países de destino quanto nos produtores, diz o especialista.

As cápsulas, completa Quirós, também vêm em socorro, até porque “originalmente eram produzidas com café de baixíssima qualidade, mas hoje estão invadindo os lares” graças aos preços competitivos, melhores atributos e à crescente customização – impulsionada pelas restrições impostas durante a pandemia – para fazer um corte em casa.

Quiroga, por sua vez, confirma que “houve um grande aumento no consumo interno que, embora tenha sido gerado em grande parte pela quarentena, não perdeu força”.

“Cada vez mais as pessoas estão determinadas a desfrutar de um excelente café em casa, feito por elas mesmas”, ou a sair e saborear “seu café favorito onde quer que estejam”, diz ele. “Para nós é assim: oferecer e escolher produtos naturais de alta qualidade, sem aditivos, rastreáveis”, resume.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.