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A fotografia de Claudia Andujar na história da Amazônia

Um fantasma assombra a Europa: as obras de Claudia Andujar. Ativista e artista suíça de origem brasileira, a sua exposição “The Yanomami Struggle” choca os visitantes que, com limitações, a visitam

A fotografia na história da Amazônia
Exposição “The Yanomami Struggle” (Crédito: Tristan Fewings/Getty Images for Barbican Art Gallery)

No dia 12 de junho, fez 90 anos a fotógrafa Claudia Andujar e uma retrospectiva da sua obra, considerada a maior e mais completa nesta área, percorre a Europa desde 2020, com limitações devido à pandemia global. A exposição tem como curador Thyago Nogueira, do Instituto Moreira Salles, e é organizada pela Fundação Cartier, com mais de 300 fotografias, videoinstalações, desenhos e documentos que cobrem as diferentes etapas da artista, com foco na sua relação com um dos povos indígenas da Amazônia. Seu título: “The Yanomami Struggle” (“A Luta Ianomâmi”). Inaugurada em Paris, ela passa por outros lugares como Milão, Barcelona e, a desde a última quinta-feira, Londres (Barbican Centre).

A biografia de Andujar está ligada à migração e à busca de um espaço, de um objetivo existencial, onde sua obra faz parte harmoniosa de uma determinada história. Ela nasce como o nome de Claudine Haas em Neuchâtel, Suíça, de mãe protestante e pai judeu húngaro, Siegfried Haas. O casal reside na Transilvânia, hoje Romênia, área da qual partiu com a mãe antes de fazer os 10 anos, logo após a ocupação nazista. Siegfried e toda a família paterna são removidos para o gueto de Oradea, e depois deportados para Dachau e Auschwitz, onde são assassinados. No final da guerra, Claudine viaja para Nova York, onde se casa com o exilado espanhol Julio Andujar, enquanto trabalhava como guia, incursionando na pintura abstrata. Em 1955, já divorciada, viaja para o Brasil e ali inicia seu trabalho fotográfico com o nome de Claudia.

Será o olhar da fotógrafa, os espaços que ela enquadra, que vão criar um futuro para o passado. Por isso, a partir de 1956, ele viaja por Peru, Bolívia, Argentina, Chile, e retrata os carajás no Brasil central. Os povos indígenas atraem a sua lente, mas ela também se interessa pelo fotojornalismo, retratando famílias de fazendeiros, pescadores, da classe média e colonos do Brasil. Dez anos depois, retrata o povo xikrin e na revista “Realidade” publica fotos de migrantes, viciados em drogas e homossexuais. O outro, marginalizado, de costas para a ordem e o progresso, se materializa em sua crescente relação com o povo ianomâmi desde 1971. Em suas viagens àquela região da Amazônia na fronteira entre a Venezuela e o Brasil, irá contrair doenças enquanto enfrenta as dificuldades de fotografar em um clima de calor, umidade e escuridão, onde o extremo não reconhece a tecnologia.

Para retratar a vida coletiva, Claudia não apenas teve que ser aceita, mas também superar uma tradição. Ao morrer, o espírito dos ianomâmi deve alcançar o fundo do céu, e para isso todo vestígio de sua passagem no mundo dos vivos deve ser apagado, como os pertences ou as imagens que os representam. Essa barreira foi superada pela necessidade de que as suas imagens circulassem, denunciando o assédio do mundo exterior.

A inovação da fotógrafa é definida por Fernanda Piderit em seu artigo “Claudia Andujar y los Yanomami: hacia una etnopoética de la fotografía”, publicado na revista “Transas”: “tomando emprestado o termo do antropólogo Carlos Rodríguez Brandão, podemos considerar uma espécie de etnopoética fotográfica: uma imagem de tipo etnográfico que passe da informação dura ao diálogo dissonante, da objetividade inequívoca à multiplicidade de interpretações pessoais, do registro etnográfico à sugestão mitopoética do gesto; uma fotografia que não é apenas um objeto útil (…) para a antropologia, mera ilustração, mas uma fotografia que é mais uma vez uma imagem em si mesma…”

Em 2016, foi realizada no Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires (Malba) a exposição “Marcados”. Lá, em cada uma das fotos, os membros da tribo exibem um número. A semelhança com as marcas do genocídio levou a artista a estabelecer a série, pois surgiu como a única forma de identificá-los para a vacinação contra as doenças da “invasão” extrativista. Como a selva, os nomes mudam com a idade, mudam à medida que crescem.

*Por Omar Genovese.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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