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Guerras de livros e Salman Rushdie

Muito em sintonia com as demandas da época, o candidato ao Prêmio Nobel publicará o seu próximo livro em capítulos, online, para trabalhar o texto com os seus leitores

Guerras de livros e Salman Rushdie
Escritor Salman Rushdie (Crédito: Thomas Lohnes/Getty Images)

No livro Book Wars: The Digital Revolution in Publishing (Polity Books, “Guerras de livros: A revolução digital na publicação”, em tradução livre), publicado em maio deste ano, John B. Thompson, professor emérito de Sociologia na Universidade de Cambridge, desenha um mapa do fenômeno da invasão do mercado editorial em língua inglesa por um acumulador de informações do consumidor: Amazon.

A empresa “representa cerca de 45% de todas as vendas de livros impressos nos Estados Unidos e mais de 75% de todas as vendas unitárias de e-books”. Trata-se da maior distribuidora de livros e nexo com os leitores.

Mas o importante é que Thompson expõe dados de vendas digitais e livros físicos, informações fornecidas pela Olympic e pela Associação de Editoras do Reino Unidos. Para os e-books, no primeiro caso, “a receita total em ficção adulta aumentou de 1% em 2008 para 43,4% em 2014, antes de cair novamente para 37,4% em 2015 e depois se recuperar ligeiramente para 38,9% em 2016”. Já em não ficção para adultos, “a receita total aumentou de 0,4% em 2008 para 16,6% em 2015, antes de cair novamente para 13,2% em 2016″. Nas obras juvenis e infantis, a tendência é a compra do livro físico.

No limite da pandemia, os dados da Associação revelam que a venda de e-books passou de 0% em 2008 para um pico de 18,3% sobre o total faturado no Reino Unido (1,7 bilhões de libras), caindo gradativamente para 13,1% em 2018. O livro físico retoma a iniciativa. A intrusão digital modifica o papel dos atores. Assim, os agentes literários e editores enfrentam a autoedição e as críticas dos influenciadores em Instagram, TikTok e YouTube, que rivalizam com as da mídia tradicional.

O caso modelo, para Thompson, é o do programador Andy Weir, que em 2011 publicou em um blog The Martian, um romance de ficção científica que em 2015 chegaria ao cinema pelas mãos de Ridley Scott (com Matt Damon como protagonista) e as livrarias, com a venda de direitos para 30 idiomas. Ou seja, do anonimato ao estrelato. Talvez seja por isso que o Scribd, uma plataforma digital paga para e-books, audiobooks, PDFs e podcasts que sobreviveu à Amazon, se tornaria pública em breve por US$ 1 bilhão.

É aqui que aparece Salman Rushdie, que acaba de anunciar que publicará o seu próximo livro na plataforma Substack, em capítulos. Eles serão gratuitos no início e, em seguida, uma assinatura mensal de US$ 5 será cobrada de cada leitor. A iniciativa veio de seu agente, Andrew Wylie (o Chacal, que enfrentou o Google quando tentou digitalizar todos os livros ao seu alcance), e Rushdie cobrou por adiantado um ano de trabalho na plataforma.

O candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, que conta com uma fatwa (condenação islâmica) em sua contra e uma infinidade de ações de ajuda humanitária, tenta aproximar a sua escrita dos leitores para solicitar opiniões e trabalhar o texto em consonância com elas (salmanrushdie.substack.com). Em si, revive a forma de publicação semanal como acontecia, entre outros, com Dickens, Conrad e Flaubert, só que digitalmente, em um blog pago. Também publicam ali Patti Smith e vários jornalistas. Tal como acontece com a música, os produtos literários também entram no sistema “pagar para ver”.

Rushdie quer escrever crítica de cinema, uma dívida de sua juventude, e neste novo site ele se refere em um artigo a Luis Buñuel, Jeanne Moreau e Charles Chaplin. Caminho inverso ao do cubano Guillermo Cabrera Infante: do cinema ao romance.

*Por Omar Genovese.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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