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A escassez de recursos naturais e as revoluções tecnológicas

No livro “Por que o capitalismo pode sonhar e nós não? Um breve manual das ideias de esquerda para pensar o futuro”, Alejandro Galliano, docente na Universidade de Buenos Aires, avança propostas sobre esses dois temas que considera fundamentais

A escassez de recursos naturais e as revoluções tecnológicas
"Loja fechada, sem eletricidade, abriremos o mais rápido possível." (Crédito: Montinique Monroe/Getty Images)

Poderia nos contar um breve resumo do seu último livro?

O livro contém uma premissa, um diagnóstico e uma série de propostas. A premissa é que qualquer ação humana necessita de uma ideia ou, pelo menos, de uma imagem do futuro, ainda mais no caso das ações políticas; e que essa ideia de futuro já está contida nas condições presentes. O diagnóstico é que a esquerda, entendida em um sentido amplo e flexível, não tem uma imagem do futuro há quarenta anos: é defensiva, mesmo quando é bem-sucedida. O livro foi escrito em 2019, suponho que hoje esse diagnóstico possa se estender muito além da esquerda. As propostas são uma sistematização de ideias e projetos que estão sendo discutidos atualmente em diferentes âmbitos, ordenada por dois critérios que são também os dois grandes fatos do presente que considero uma premissa para qualquer futuro: a escassez de recursos naturais e as revoluções tecnológicas.

Alejandro Galliano, docente na Universidade de Buenos Aires (Crédito: Reprodução/ Twitter)

“O diagnóstico é que a esquerda, entendida em um sentido amplo e flexível, não tem uma imagem do futuro há quarenta anos: é defensiva, mesmo quando é bem-sucedida.”

O que mais o atrai no pensamento do pensador chinês Yuk Hui, sobre quem você escreveu um longo artigo?

O mais interessante de Hui é sua proposta de particularismo tecnológico. Nos últimos anos, consolidaram-se duas posições diante das transformações do capitalismo: há os que defendem o capitalismo global e seu paradigma tecnológico (em linhas gerais, a digitalidade e os seus efeitos) e os que rejeitam o globalismo e suas tecnologias. Ambos concordam tacitamente que o neoliberalismo e o capitalismo global são as únicas condições para a possibilidade de desenvolvimento tecnológico digital. Hui expande esse debate ao propor um recuo a um particularismo cultural que não renuncia ao desenvolvimento tecnológico. Isso, segundo Hui, permitiria integrar organicamente os três meios do homem: o cultural, o técnico e o natural, e resolver, assim, as distorções sociais e ambientais do globalismo. A proposta é atraente, mas problemática. A começar, porque esses particularismos colocam em risco critérios universais que eu não gostaria de renunciar, como os direitos humanos. Por outro lado, a mesma crise climática exige instâncias de gestão global; não será resolvida apenas a partir das nações ou comunidades. Além disso, existem os receios que uma proposta de particularismo advinda de uma potência incipiente como a China pode alimentar. Por fim, outro risco aqui na Argentina seria ler Hui como pensador de uma espécie de “terceira via”, priorizando seu particularismo sobre a proposta técnica e ecológica. O fato de Cristina Kirchner ter aparecido em público com o livro de Hui é eloquente nesse sentido.

Recentemente, você publicou um artigo contrário ao discurso dominante sobre a pandemia no qual você apontou, entre outras coisas, que, a partir de março de 2020, começamos a aceitar todos os tipos de restrições e medidas impensáveis um tempo atrás, como a inoculação massiva com vacinas que não puderam ser suficientemente testadas, etc. Por que você teve a necessidade de escrever nesse sentido?

O artigo vai antes contra o progressismo, ao qual pertenço. Fora desse espaço, vários liberais republicanos e libertários, assim como a esquerda ortodoxa, denunciaram o risco autoritário das restrições sanitárias. E às vezes fizeram isso honestamente. Mas essas reclamações se concentram no autoritarismo estatal ou institucional. E isso está bem porque é o mais sério e urgente. Eu estava mais interessado em pensar nos efeitos que essa rotina de confinamento e restrição poderia ter nos costumes e na percepção do autoritarismo por baixo, no nível da sociedade civil. E até que ponto isso poderia ser funcional para resolver um problema de governança que o mundo vinha sofrendo desde antes.

No mesmo artigo, você fala de um autoritarismo consensual, até – ou, sobretudo – entre seus antigos opositores. Pode expandir essa ideia?

Desde a transição para a democracia até não muito tempo atrás, os principais opositores à violência institucional vieram do progressismo e da esquerda. Até porque compreenderam que o autoritarismo se exercia sobre grupos subalternos (pobres, jovens, etc.) e a serviço de diferentes agendas ou modelos excludentes. As restrições sanitárias da pandemia não são apenas inevitáveis e necessárias, mas são exercidas em nome da solidariedade: um sacrifício individual pelo bem de todos, especialmente dos mais vulneráveis. Nos primeiros meses de quarentena, a impressão da mídia era de que o autoritarismo era exercido sobre indivíduos egoístas e aparentemente privilegiados que não respeitavam as restrições, como o famoso “surfista”. Nesse contexto, houve um relaxamento do alerta antiautoritário, até mesmo uma justificativa, por parte dos mesmos espaços ideológicos que até a pandemia condenavam qualquer tipo de repressão. Somente quando começaram os abusos policiais em nome da pandemia contra os grupos subalternos de sempre é que algumas dessas pessoas compreenderam o risco.

Você cunhou uma frase com muito apelo: “capitalismo subversivo”. Pode explicá-la?

O capitalismo é um sistema: um conjunto de instituições que reproduzem uma determinada ordem social. Mas também é uma dinâmica: a crescente mercantilização de aspectos da vida humana, do trabalho às imagens e aos afetos. Essa mercantilização acelera e desestabiliza cada aspecto da vida humana em função dos ciclos do mercado. Essa instabilidade corrói as instituições que garantem a ordem: a dinâmica capitalista subverte o sistema capitalista. É algo que Marx observou, que depois foi estudado por historiadores como Braudel, filósofos como Deleuze, Guattari e Lyotard, e com o qual hoje trabalham os aceleracionistas.

Qual a sua relação com, ou opinião sobre, o peronismo, além de suas variantes, como o menemismo ou o kirchnerismo?

Opino como cidadão porque não sou especialista no assunto. Não sou peronista, mas é o que mais tenho votado. Além do sistema multipartidário e do narcisismo das pequenas diferenças, nas eleições argentinas sempre se enfrentam uma grande força liberal-conservadora e outra grande força progressista, seja populista ou não. Não são identidades essenciais, são definidas pelo que têm à frente. De 1997 até agora, quase sempre votei na força progressista da vez. O voto não existe para expressar nossa profunda subjetividade política, só podemos votar no que tem ali.

Você escreve em plataformas localizadas de um lado específico da nossa polarização política. Você tem a intenção de atingir outros leitores ou prefere ter como interlocutores os leitores daqueles nichos em que você se movimenta?

Eu escrevo para ser lido. E o sonho de quem escreve é que todos o leiam. Mas é um sonho: não vai acontecer. Não existe mais um público leitor massivo e homogêneo ao qual se possa aceder. Um pouco por questões de mercado (a famosa “demanda segmentada do pós-fordismo”), outro tanto pela tribalização da opinião (fenômeno que ultrapassa a realidade local). Nesse contexto, prefiro escrever onde me sinta confortável. Conforto que inclui poder criticar o espaço a que pertenço. Gosto de ser fogo amigo. Consegui publicar no “Ñ” e em “La Agenda”, mas obviamente não sintonizei muito com o espírito dessas mídias. Admito também que não tenho muita iniciativa: não vivo da escrita nem me considero portador de uma mensagem que deva chegar a todos, por isso escrevo quando quero e quando me pedem, raramente ofereço textos e, quando o faço, o faço para mídias com as quais tenho uma relação pessoal, como a “Revista Crisis” ou o site “Panamá”. Tudo isso sem falar na incômoda questão de que a escrita é um meio de comunicação minoritário e talvez até em retração. Não temos tanta relevância.

*Por Nancy Giampaolo – Jornalista, roteirista e professor.

Trecho do livro de Galliano: “O Apocalipse já chegou”

“O capitalismo 4.0 só pode transformar o fim do mundo em um sistema. Todos estão à espera de uma Terceira Guerra Mundial, de um assalto à Bastilha ou de uma peste negra que acabe com tudo, mas essas catástrofes não vêm, ou vêm e se assentam para viver ao nosso lado. Pensar no futuro hoje exige pensar depois do fim do mundo, porque o apocalipse já chegou e nós ainda estamos aqui”.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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