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A rivalidade entre Estados Unidos e a China

A China contemporânea não se parece em nada com a URSS e, no mundo atual, não podemos permitir outro choque de sistemas mutuamente exclusivos

A rivalidade entre Estados Unidos e a China
(Crédito: Chris Hondros/Getty Images)

A ideia de uma Segunda Guerra Fria e uma rivalidade entre o Ocidente, Estados Unidos, e a China evoluiu rapidamente de uma analogia enganosa para uma profecia autorrealizada. Mas a China contemporânea não se parece em nada com a União Soviética e, no mundo atual, simplesmente não podemos permitir outro choque de sistemas mutuamente exclusivos.

A cúpula do G7 deste mês pareceu confirmar o que tem sido evidente há um bom tempo: os Estados Unidos e a China estão entrando em uma guerra fria semelhante daquela entre os Estados Unidos e a União Soviética na segunda metade do século XX.

O Ocidente não mais vê a China apenas como um competidor, mas como um concorrente civilizacional. Mais uma vez, o conflito parece girar em torno de dois “sistemas” mutuamente exclusivos. Entre uma escalada no choque de valores e uma disputa de reivindicações por poder e liderança globais, parece que um confronto militar (ou pelo menos uma corrida armamentista) tornou-se uma clara possibilidade.

Equívocos

Mas, com um olhar mais apurado, a comparação com a Guerra Fria é enganosa. A rivalidade sistêmica entre os Estados Unidos e a URSS foi precedida por uma das guerras “quentes” mais brutais e catastróficas da história, e refletiu as linhas de frente desse conflito.

Embora os Estados Unidos e a União Soviética tenham sido os principais vencedores após as rendições alemã e japonesa, já eram inimigos ideológicos antes da guerra. Se a Alemanha de Hitler e o Japão imperial não tivessem buscado o domínio do planeta por meio da conquista armada, os Estados Unidos e a União Soviética nunca teriam sido aliados. Assim que a guerra terminou, foi retomada a disputa entre o comunismo soviético e o capitalismo democrático ocidental, agravada pela brutalidade da sovietização forçada da Europa Central e Oriental entre 1945 e 1948.

Ao mesmo tempo, o começo da era nuclear sacudiu fundamentalmente a política das potências ao tornar qualquer guerra futura pela hegemonia global impossível, por implicar também a autoaniquilação. A certeza da destruição mútua manteve “frio” o cotejo entre as superpotências, mesmo sob a ameaça de uma catástrofe nuclear que poderia exterminar toda a humanidade. Se a União Soviética e o Pacto de Varsóvia não tivessem colapsado quatro décadas depois, o conflito provavelmente teria se arrastado indefinidamente.

O “socialismo” chinês. A situação atual entre o Ocidente e a China é totalmente diferente. Embora o Partido Comunista da China chame o país de “socialista” para justificar seu monopólio político, ninguém leva esse rótulo a sério. A China não define sua diferença com o Ocidente de acordo com sua atitude a respeito da propriedade privada; em vez disso, apenas diz e faz o que for necessário para manter seu regime de partido único. Desde as reformas de Deng Xiaoping no final da década de 1970, a China criou um modelo híbrido no qual coexistem os mercados e o planejamento central, a propriedade estatal e a privada. O PCC, por si só, está no topo deste “modelo marxista-leninista de mercado”.

O caráter híbrido do sistema chinês explica o seu sucesso. A China está a caminho de superar os Estados Unidos em termos tecnológicos e econômicos por volta de 2030, uma conquista que a União Soviética nunca teve a chance de alcançar em qualquer momento dos seus 70 anos de história. Claramente, o “socialismo dos bilionários” da China é mais capaz de competir com o Ocidente do que o antigo sistema soviético em todos os seus anos de existência.

Se a rivalidade sistêmica atual não é a mesma da Guerra Fria, em torno do que deveria girar a Segunda Guerra Fria? Em forçar a China a se tornar mais ocidental e democrática? Ou simplesmente conter o poder chinês e isolá-lo tecnologicamente (ou, pelo menos, deter sua ascensão)? E se o Ocidente alcançar alguns desses objetivos, o que aconteceria?

De fato, nenhum desses objetivos poderia ser alcançado a um custo razoável para as partes envolvidas. Há 1,4 bilhão de pessoas na China que podem ver que sua oportunidade histórica de reconhecimento global chegou. Dada a escala do mercado chinês e as interdependências econômicas que gera, a ideia de que a China possa ser isolada é absurda.

Mas talvez a questão seja mais sobre poder do que economia. Qual será a potência hegemônica do século XXI? Ao unir forças com o resto do Ocidente, podem os Estados Unidos realmente mudar a trajetória histórica da ascensão da China e do declínio relativo do Ocidente? Duvido.

O reconhecimento pelo Ocidente de que a China não se tornará mais democrática com seu desenvolvimento econômico e sua integração na economia global é uma dívida há muito necessária. A ganância manteve vigente essa fantasia por muito tempo.

Nova liderança

Mas arriscarei uma previsão: o século XXI não será caracterizado principalmente por um retorno à política das potências, mesmo que as coisas pareçam estar caminhando nessa direção. A experiência da pandemia nos obriga a ter uma visão mais ampla. A Covid-19 foi um mero prelúdio para a iminente crise climática, um desafio global que forçará as grandes potências a abraçar a cooperação para o bem da humanidade, sem importar quem seja o “Número Um”.

Pela primeira vez na história, a pandemia transformou a “humanidade” em mais do que uma abstração, transformando esse conceito em um campo de ação material. Para conter o coronavírus e resguardar todos nós da ameaça das novas variantes, mais de oito bilhões de doses de vacinas serão necessárias. Supondo que o aquecimento global e a sobrecarga dos ecossistemas regionais e globais continuem no mesmo ritmo, esse mesmo campo de ação global irá predominar no século XXI.

Nesse contexto, a questão de quem está no topo será decidida não pela política das grandes potências tradicionais, mas por quais poderes fornecem a liderança e a competência que a situação exige. Ao contrário do passado, uma guerra fria iria acelerar, e não impedir, uma destruição mútua garantida.

*Por Joschka Fischer – Ex-ministro das Relações Exteriores da Alemanha, líder do Partido Verde alemão por quase 20 anos.

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*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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