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“A sustentabilidade da agricultura só é possível quando as dimensões humana e social são colocadas em primeiro plano”, diz Rattan Lal em conferência internacional sobre os solos

O cientista, considerado a maior autoridade mundial em ciências do solo, estabeleceu uma relação direta entre degradação ambiental, deterioração das condições de vida e pobreza crônica

Conferência Rattan Lal
Conferência Rattan Lal (YouTube)

A degradação do solo, a contaminação ambiental e a mudança do clima levam muitas pessoas ao desespero e constituem uma grave ameaça à segurança e à estabilidade política globais. O aspecto crítico da sustentabilidade ambiental, em consequência, é a sua dimensão humana e social.

Assim o afirmou o laureado cientista Rattan Lal em uma conferência magistral para o Paraguai organizada pela Universidade Nacional de Assunção (UNA) e o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) que atraiu o interesse de mais de 3.000 espectadores, entre eles, formuladores de políticas, pesquisadores, especialistas de instituições públicas e privadas, docentes e estudantes de universidades da Argentina, do Brasil, da Bolívia, do Canadá, da Colômbia, do Japão, do Peru e da Venezuela, conectados de forma virtual.

O cientista, considerado a maior autoridade mundial em ciências do solo, estabeleceu uma relação direta entre degradação ambiental, deterioração das condições de vida e pobreza crônica. E advertiu que, se os temas humanos e sociais da atividade agrícola não forem abordados, não há possibilidade de sustentabilidade econômica nem política.

“O desenvolvimento sustentável implica que as pessoas estejam melhor, por um ponto de vista ético e moral. A estabilidade política e a sustentabilidade ambiental andam de mãos dadas. É por isso que devemos assistir e cuidar dos nossos recursos naturais”, afirmou o professor da Universidade do Estado de Ohio.

Lal foi colaureado, em 2007, com o Nobel da Paz e, em 2020, recebeu o Prêmio Mundial da Alimentação. Em dezembro passado se uniu ao IICA no lançamento da iniciativa “Solos vivos das Américas”, com o objetivo de articular esforços públicos e privados no combate à degradação dos solos, fenômeno que coloca a produção de alimentos em risco e, por extensão, a segurança alimentar.

O professor Lal fez uma exposição de forte teor social em sua apresentação sobre os desafios da sustentabilidade ambiental do solo e da mudança do clima para a América Latina e o Caribe.

A atividade contou com a participação da reitora da Universidade Nacional de Assunção, Zully Vera; o Ministro da Agricultura e Pecuária do Paraguai, Moisés Santiago Bertoni; o Diretor Geral do IICA, Manuel Otero; e o Representante do IICA no Paraguai, Gabriel Rodríguez. O presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, enviou uma mensagem em que ressaltou o valor da atividade.

“O Paraguai conta com grandes riquezas naturais, de modo que somos capazes de produzir alimentos para a nossa população, mas também, em determinados itens, estamos produzindo alimentos para o mundo. Por isso, na Universidade Nacional de Assunção, como universidade pública do Paraguai, estamos comprometidos em reunir esforços para fortalecer a resiliência e a capacidade de adaptação aos riscos relacionados ao clima, dando ênfase aos nossos jovens e comunidades locais”, disse a Reitora, Vera.

Por sua vez, o Ministro Bertoni sustentou que “desde os anos 90, o Paraguai tem incorporado, à sua agricultura, políticas de conservação que permitiram às regiões produtoras do país melhorar suas condições e sua produtividade, convertendo-nos em um país bem-sucedido sob o ponto de vista da produção agrícola. Estamos convencidos de que nossos sistemas produtivos são absolutamente sustentáveis. Temos leis que protegem as florestas nativas, e os agricultores não só são produtores, mas também são responsáveis pela conservação”.

Lal começou a sua exposição com um conjunto de citações da “Laudato si’”, a elogiada encíclica “sobre o cuidado da casa comum” que o Papa Francisco apresentou em 2015. E concordou que cuidar do ambiente é parte integrante de qualquer processo de desenvolvimento econômico e social.

“A proteção ambiental não pode ser assegurada só com base no cálculo financeiro de custos e benefícios. O ambiente é um desses bens que os mecanismos do mercado não são capazes de defender ou de promover adequadamente”, este foi um dos ensinamentos do Pontífice que o perito colocou em primeiro plano.

O professor Lal também se referiu à necessidade de prosseguir com políticas públicas que recompensem aos agricultores familiares, verdadeiros pilares da segurança alimentar na América Latina e no Caribe, pelos serviços ambientais que prestam com a sua atividade. Nesse sentido, citou outra passagem da Laudato: “A estratégia de compra e venda de créditos de carbono pode dar lugar a uma nova forma de especulação e não servir para reduzir a emissão global de gases poluentes”.

O cientista sustentou que o sistema de oferta e demanda não é a melhor opção para fixar a retribuição pela captura de carbono realizada nos campos dos pequenos agricultores. “Os formuladores de políticas precisam ver qual é o seu valor para a sociedade e estabelecer medidas a favor da natureza e dos pobres”, afirmou.

“Existem 1 bilhão de propriedades rurais de 2 a 2,5 hectares — acrescentou — cujos donos são pequenos agricultores que não têm recursos suficientes. Esse é o principal obstáculo para proteger os solos. Muitas vezes eles estão desesperados e tomam tudo da terra. A escassez de recursos e o desespero levam os agricultores a fazer coisas que não contribuem para a saúde dos solos”.

O perito considerou que “deve ser pago aos pequenos agricultores 120 dólares por cada hectare em que se retém uma tonelada de carbono. Esse número não se baseia nos preços de mercado, mas na contribuição social feita pelo solo. Os agricultores familiares não podem continuar sendo de segunda categoria. É muito importante que os recursos cheguem às mãos dos pequenos agricultores, para que saiam da pobreza e sejam empoderados. Deve-se tratar os agricultores familiares da maneira justa e transparente que merecem”.

Em sua conferência, Lal colocou a agricultura do Paraguai como “exemplo de uma história de êxito” e valorizou que, apesar de ser uma nação pequena, seja autossuficiente com respeito à alimentação. “Precisamos que assim o sejam todos os países do mundo”, disse.

“A saúde dos solos é o coração da agricultura; sem saúde de solos, a agricultura não pode florescer. E a agricultura, certamente, é o coração do bem-estar humano em todos os aspectos. Quando se melhora a qualidade do solo, isso automaticamente leva a uma melhoria da saúde dos animais, das pessoas, dos ecossistemas e dos processos planetários”, concluiu Lal.

Manuel Otero, por seu lado, referiu-se à importância do programa “Solos vivos das Américas”, liderado pelo IICA e pelo Centro de Gestão e Sequestro de Carbono (C-MASC), dirigido por Rattan Lal na Universidade do Estado de Ohio. A iniciativa atua como ponte entre a ciência, o âmbito das políticas públicas e o trabalho de desenvolvimento na restauração da saúde do solo nas Américas.

O Diretor Geral do IICA enfatizou que a transformação da agricultura em uma atividade que se desenvolve em plena harmonia com o ambiente é um caminho já iniciado e que se mostra irreversível.

“É preciso frear a deterioração do recurso solo, que já afeta seriamente a produtividade de nossas principais cadeias produtivas. Sem solos vivos e saudáveis, será utópico pensar nos saltos de produtividade que são necessários quando se olha para 2050. É imprescindível uma relação muito mais harmoniosa e sinérgica com o meio ambiente; esse tema já não é mais negociável. O objetivo, então, é produzir mais com menos. E a gestão sustentável do solo implica no uso de conhecimentos ancestrais combinados com a mais moderna tecnologia”, indicou.