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Caça à oposição na Nicarágua

A onda de prisões naquele país mostra Daniel Ortega agindo como um criminoso que ataca sem qualquer pudor

Caça à oposição na Nicarágua
Daniel Ortega, presidente da Nicarágua (Crédito: Spencer Platt/Getty Images)

Daniel Ortega não se incomoda com o que dirão dele e vai a caça à oposição na Nicarágua. A maioria dos ditadores tenta dar a seus crimes algum verniz democrático. Nunca é suficiente para disfarçar a sua verdadeira natureza, mas eles tentam cuidar das aparências. Ortega, por outro lado, comete seus crimes sem qualquer pudor. Como um criminoso roubando um banco sem máscara ou capuz.

Sua última afronta foi prender líderes da oposição, incluindo Hugo Torres, o guerrilheiro que em 1974 arriscou a vida para ajudar Ortega a escapar da prisão onde Anastasio Somoza o teve trancado por sete anos.

Hoje faz 73 anos o integrante do grupo de comando que tomou como reféns funcionários da ditadura na residência do ministro Castillo Quant, para trocá-los pela libertação de Ortega e de outros sandinistas presos. E o camarada que ele libertou há quase meio século agora o prende por chamá-lo de ditador.

A onda de prisões começou pelos líderes da oposição que registraram suas candidaturas e pré-candidaturas para desafiá-lo à presidência. Ele saiu para caçá-los num mesmo punhado de dias, logo depois que se alistaram para competir nas eleições de novembro.

A primeira vítima da caça foi Cristiana Chamorro. Dezenas de policiais armados até os dentes entraram em sua casa e a detiveram quinze minutos antes da entrevista coletiva convocada pela líder opositora. Acusada de “gestão abusiva, falsidade ideológica em concorrência com o crime de lavagem de dinheiro, bens e ativos em prejuízo do Estado da Nicarágua e da sociedade nicaraguense”, foi desqualificada como candidata e a colocada em prisão domiciliar.

Ortega poderia transformar Cristiana Chamorro na versão centro-americana de Aung San Suu Kyi, a líder democrata de Mianmar que viveu anos em prisão domiciliar por se opor à ditadura militar e, após uma breve experiência quase-democrática que terminou com um golpe de Estado como aquele que assassinou seu pai, o general Aung San, foi novamente presa sob acusações fabricadas.

Provavelmente, o presidente começou a caça a Cristiana Chamorro porque, ao vê-la tornar-se oficialmente candidata à presidência da Nicarágua, teve um “déjá vu” com sabor de pesadelo. Ele se lembrou daquela noite de 1990 em que a mãe de Cristiana lhe presenteou uma derrota humilhante.

No bunker da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), estavam pasmos e perplexos. Ninguém previu que a viúva de Pedro Joaquín Chamorro pudesse ganhar as eleições. Parecia impossível.

Violeta Barrios havia conseguido substituir o marido, assassinado pela ditadura de Somoza, na direção do jornal La Prensa. Também soube desafiar Anastasio Somoza ao integrar a diretoria da FSLN, mas, como muitos outros, havia acaba na dissidência.

A União Nacional Opositora (UNO) era um aparato político diminuto em comparação com a poderosa máquina da FSLN, que dirigia o Estado e o Exército como se lhe pertencessem. O grupo dissidente que indicou Violeta Barrios de Chamorro parecia condenado à derrota. A FSLN dirigia tudo e nunca passou pela cabeça de ninguém do regime, ou dos seus braços político ou militar, que a viúva que propunha a democracia pluralista e o Estado de Direito pudesse derrotar Daniel Ortega. Nas urnas, no entanto, o inesperado aconteceu. A noite da contagem fez-se interminável porque os números iam contra a certeza prevalecente na FSLN. A rádio deixou de transmitir a contagem dos votos e a cúpula dirigente fechou-se para debater se reconheceria a derrota e entregaria o poder, ou abortaria o jogo democrático com o qual Ortega havia se comprometido para acabar com a guerra dos “contras” e as sanções econômicas .

Barricadas em chamas começaram a ser acesas nas ruas de Manágua exigindo a anulação da eleição, quando o presidente resolveu fazer o que lhe aconselharam umas poucas figuras do seu entorno, entre as quais se destacava o seu vice-presidente e companheiro de chapa, Sergio Ramírez, o escritor que mais tarde se tornaria mundialmente famoso na literatura e defenderia a democracia liberal contra a ditadura matrimonial Ortega-Murillo.

Ao impor duras condições, como a manutenção de Humberto Ortega à frente do exército, por exemplo, o regime sandinista admitiu a derrota e entregou a presidência a “Dona Violeta”. Aquela mulher transformou em pesadelo a noite em que Ortega esperava legitimar nas urnas o que ele havia conquistado com as armas.

Depois, vieram mais derrotas eleitorais. Foi derrotado por Arnoldo Alemán e, na eleição seguinte, por Enrique Bolaño. É por isso que lhe causou um arrepiante déjá vu a aparição da filha de Violeta Barrios, fisicamente idêntica a ela e com a mesma determinação: lutar pela presidência para acabar com uma ditadura de Ortega.

O líder sandinista conseguiu voltar ao poder porque fez um pacto com o corrupto Arnoldo Alemán, garantindo-lhe a impunidade se dividisse o Partido Liberal para que o FSLN pudesse derrotá-lo nas próximas eleições. E desde que ele recuperou o comando, ele rapidamente construiu um regime familiar como o da dinastia Somoza.

Esse regime virou criminoso de vez em 2018, quando eclodiu uma onda de protestos aos quais respondeu com uma violenta repressão que deixou centenas de mortos, prisões transbordando de presos políticos e a Costa Rica inundada de exilados nicaraguenses.

Ortega havia se escondido em Cuba e foi sua esposa e vice-presidente quem se encarregou de esmagar a rebelião pró-democracia com sangue e fogo. Foi a segunda vez que Rosario Murillo salvou seu marido. A primeira foi quando ela traiu a própria filha, Zoilamérica, declarando-a “louca” por denunciar que seu padrasto a estuprava desde que ela era uma criança. É provável que essa onda de prisões – que demonstra agudamente, mais uma vez, a natureza ditatorial do casal Ortega-Murillo – também tenha sido impulsionada por aquela mulher proveniente de uma família tradicional e que, apesar de ter estudado na Europa, misturou esquerdismo com religião e esoterismo para disfarçar seu regime de inquisidor.

Quando voltou à presidência, Ortega promoveu medidas ultraconservadoras exigidas pelo Monsenhor Obando y Bravo, fazendo com que o cardeal que havia enfrentado o regime revolucionário dos anos 80 agora apoiasse o novo regime chefiado por Ortega. Mas a brutalidade da repressão em 2018 e a desfaçatez da atual perseguição lançada contra críticos e dissidentes colocaram a Igreja Católica novamente contra ele.

A rigor, exceto em Havana e Caracas, a ditadura matrimonial que reina na Nicarágua quase não tem quem a defenda. Menos ainda depois dessa onda de prisões de candidatos e líderes da oposição, o último dos crimes cometidos abertamente por Daniel Ortega.

*Por Claudio Fantini.

*Texto publicado originalmente no site Notícias, da PERFIL Argentina.

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