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Cuba, Biden e o futuro

O democrata ainda não definiu a sua política para a região, em particular para Havana. O que esperar?

Cuba, Biden e o futuro
(Crédito: Joe Raedle/Getty Images)

As revoltas sociais que eclodiram em vários pontos de Cuba no domingo, 11 de julho, provavelmente marcarão um antes e um depois no futuro da ilha. Responderam não apenas a queixas específicas sobre a escassez de alimentos e medicamentos, cortes de eletricidade e a gestão da pandemia de Covid-19 por parte do governo, mas também, fundamentalmente, à deterioração geral das condições de vida da população.

Razões

Esta deterioração é o resultado da combinação de uma década de tentativas lentas e insatisfatórias de introduzir reformas estruturais a um modelo econômico manifestamente disfuncional, da necessidade de reconfigurar um consenso social frente a elas em uma sociedade em processo de mudança e com crescentes brechas e desigualdades sociais e raciais, das pressões externas das sanções e restrições impostas pelos Estados Unidos, da redução da assistência venezuelana e da redução abrupta do fluxo de turistas – principal fonte de divisas – devido à pandemia. O recente processo de “ordenamento” monetário com a unificação das duas moedas existentes no país e a dolarização acelerada da economia, juntamente com junto às restrições externas impostas pelo governo Trump (após o “degelo” iniciado por Obama entre 2014 e 2016 ), que incluiu a redução nas viagens de estadunidenses e a redução na chegada de remessas, bem como outras sanções, levou a uma crescente dificuldade na importação de bens essenciais. Com o agravante de que o acesso a esses bens era condicionado, para a maioria da população, pelo acesso a moeda estrangeira, que permitia a compra de produtos básicos em lojas especiais.

Esse quadro complexo esteve associado a uma transição geracional que abriu possibilidades de maior protagonismo para os jovens graças à maior disponibilidade e circulação de informações com a introdução da Internet e a multiplicação dos telefones celulares na ilha. Houve também reivindicações por maior transparência e menos censura e controle por parte de artistas, como visto no final do ano passado com as ações do Movimento San Isidro e o Grupo 27 de Novembro, que aparentemente inspiraram palavras de ordem como “Pátria e vida” e “Liberdade” entre os manifestantes.

Protestos

A recente eclosão social responde, neste contexto, sobretudo às dificuldades do governo do Presidente Miguel Díaz Canel para acelerar as reformas previstas na Constituição aprovada em 2019 (que reconhece a propriedade privada) no quadro de um discurso que continua se nutrindo dos lemas da Revolução de 1959 e atribuindo a grave situação econômica ao embargo (ou bloqueio, segundo fontes governamentais) dos Estados Unidos.

É paradoxal, neste sentido, que a relação entre Havana e Washington, com seus altos e baixos históricos, continue a ser – desde que o presidente Eisenhower estabeleceu as primeiras medidas de embargo contra a ilha em 1960 – o eixo fundamental para as explicações oficiais sobre as crises vividas em Cuba.

Na esteira dos protestos, Díaz-Canel culpou os Estados Unidos por promovê-los e convocou os comunistas a “combatê-los”, em linguagem que ecoa a Revolução forjada na guerrilha da Sierra Maestra. Em troca, o presidente Joe Biden, que até a semana passada não havia modificado essencialmente as medidas tomadas por Trump em relação à ilha ou formulado uma política em relação a Cuba, apoiou em uma declaração “o clamor pela liberdade” do povo cubano e instou o Governo da ilha a “ouvir o seu povo e atender as suas necessidades neste momento vital, em vez de se enriquecer” para declarar, mais recentemente, que “o comunismo falhou e Cuba é um Estado falido”.

Biden

Para Biden, definir uma política em relação a Cuba, algo exigido em termos de abertura pela ala liberal dos democratas e de endurecimento pelos republicanos, apresenta inúmeros desafios. Por um lado, internamente, requer buscar a satisfação de ambas as posições, embora os acontecimentos recentes na ilha possam levar a maiores convergências entre os dois partidos, tendo em vista seu desempenho eleitoral decepcionante no estado da Flórida e de olho nas próximas eleições legislativas nos Estados Unidos.

Por outro lado, no plano internacional, implica dois desafios: manter a ênfase nos valores democráticos e nos direitos humanos no processo de reconstrução da liderança global de Washington e articular uma política coerente para a América Latina, ainda não claramente delineada, em um momento em que as revoltas sociais e os protestos antigovernamentais se multiplicam em toda a região e a presença e influência chinesa e russa só aumentam.

América Latina

Nesse quadro, a formulação de uma política para a América Latina esbarra, por outro lado, com os alinhamentos ideológicos que a partir dos protestos cubanos se fortaleceram entre os diferentes países. Embora vários governos tenham condenado a repressão dos protestos e as violações de direitos humanos em Cuba, como é o caso do Chile e do presidente interino do Peru, entre outros, as reações que atribuem a origem dos protestos ao bloqueio norte-americano alinham tanto os governos de México e Argentina, como os de Venezuela e Nicarágua, tradicionais aliados cubanos.

Os alinhamentos ideológicos não apenas revelam as fraturas do mapa político da região, mas também dificultam a busca por soluções para crises como a que atravessa a Venezuela. Como nota corretamente o analista norte-americano Bill LeoGrande, sem a participação de Cuba será difícil encontrar uma solução negociada para o regime de Maduro na Venezuela, sob risco de repetir os erros do governo Trump. E, provavelmente, sem o apoio da América Latina também não será fácil ajudar o governo cubano a retificar suas posições e a promover uma abertura acompanhada de reformas econômicas adequadas. A atual instabilidade regional certamente não contribui a essas perspectivas.

Rússia e China

Por outro lado, as recentes reações da Rússia e da China em apoio ao governo cubano levam Biden à necessidade de promover uma política latino-americana associada à sua estratégia global, que identifica esses dois países como as principais ameaças ao interesse estadunidense de restaurar a sua liderança mundial, em um momento em que as prioridades de Washington se concentram no Indo-Pacífico e nas áreas de influência russa na Europa e Ásia Central, como evidenciado pela saída do Afeganistão.

Obviamente, outros atores, como a União Europeia, Canadá ou Japão, parceiros comerciais e investidores da ilha, podem pesar na equação, mas a política de Biden em relação a Cuba não pode ser dissociada desse quadro global e a ilha deve necessariamente encontrar o seu lugar na dinâmica mais ampla de reconfiguração das relações de poder na nova ordem mundial emergente. Como já salientei em outro lugar e por outras razões, a excepcionalidade cubana pode ter se esgotado, mas a sua importância, – talvez em outra escala – no tabuleiro regional e global, persiste.

*Por Andrés Serbin – Analista internacional e presidente da CRIES.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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