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Eleição do novo presidente do Irã não surpreende

O que causou grande surpresa foi a desaprovação de pessoas com grande experiência como Ali Lariyani, que ocupou a presidência do Parlamento por anos ou Mahmoud Ahmadinejad, presidente por dois mandatos, entre 2005 e 2013

Eleição do novo presidente do Irã não surpreende
(Crédito: Reprodução/ Instagram)

Os resultados preliminares da eleição indicam que Ebrahim Raisi, representante do setor mais conservador, obteve mais de 60% dos votos tabulados e é o novo presidente da República Islâmica do Irã. Nas semanas anteriores, as principais discussões entre cidadãos iranianos e analistas não foram sobre o ato eleitoral em si, já que ninguém duvidava da vantagem de Raisi sobre os demais candidatos, mas sobre a atuação do Conselho de Guardiões, órgão encarregado de aprovar os candidatos, e sobre as linhas gerais da nova presidência. Discutiu-se o antes e o depois das eleições.

Segundo a Constituição do Irã, o Conselho de Guardiões, um órgão colegiado composto por 12 membros, tem o poder de aprovar as candidaturas dos candidatos à Presidência ou ao Parlamento. As decisões tendem a carecer de justificativa e são mais o produto de considerações políticas do que das condições dos rejeitados.

Nessas eleições, causou grande surpresa a desaprovação de pessoas com grande experiência como Ali Lariyani (que ocupou a presidência do Parlamento por anos, foi negociador do acordo do Irã com a China, e é irmão do ex-chefe do Judiciário, Sadeq Lariyani, que, paradoxalmente, é membro do Conselho de Guardiões), ou Mahmoud Ahmadinejad (presidente por dois mandatos, entre 2005 e 2013).

Essa decisão, e as suas motivações, foram o foco das discussões após a divulgação. Tudo indica que o núcleo duro do governo não quis correr nenhum risco ao aprovar candidatos que refletissem outros pontos de vista e que, dada a opção entre garantir a continuidade ou ampliar a representatividade, optou pela primeira alternativa.

Três dos sete candidatos aprovados pelo Conselho de Guardiões para participar desistiram nos dias prévios à eleição com o intuito de polarizar e favorecer os candidatos de seu respectivo setor, embora o impacto tenha sido insignificante.

A crise econômica, em grande parte derivada das sanções internacionais impostas por causa do programa nuclear iraniano, mas também fruto de importantes erros de gestão, tem elevado o nível de descontentamento, agravado ainda pelo impacto da Covid-19 no país. Assim, uma população que não se sente representada na sua maioria pelos candidatos aprovados, em meio a uma situação econômica e social complexa, representa o principal desafio doméstico para o novo governo.

Os resultados publicados até agora indicam que pouco menos da metade dos iranianos em condições de votar, quase 60 milhões, não o fizeram e, entre os que votaram, registrou-se uma alta porcentagem de votos nulos. Raisi se torna presidente com cerca de 18 milhões de votos.

Mas nem todos os problemas do Irã são internos. Na dimensão externa, o futuro do processo de negociações com o Grupo 5+1 em torno do programa nuclear iraniano é o principal tema da agenda. Os incentivos para fechar um novo acordo devem ser vistos como uma grande oportunidade, embora esse ponto de vista não seja unânime no seio do sistema decisório iraniano, que está longe de ser monolítico.

As eleições iranianas também têm um impacto regional. O primeiro presidente a parabenizar Raisi foi o russo Vladimir Putin, demonstrando o crescente papel e influência de Moscou no Oriente Médio. Um vínculo que é para o Irã um eixo fundamental de sua política externa, não sem diferenças, mas essencial em um contexto de tensão com os Estados Unidos.

Raisi chegará ao poder com pouca representatividade entre o eleitorado, com graves problemas estruturais e com uma agenda de política externa que busca aumentar o nível das relações com Moscou e Pequim como contrapeso a Washington.

Alguns argumentam que Raisi entrará na presidência como um passo prévio a uma eventual nomeação como Líder Supremo quando Khamenei, de 82 anos, já não estiver. É o mesmo mecanismo que permitiu ao atual líder passar de Presidente a Líder em 1989.

Essa estratégia serviria muito bem aos interesses pessoais de Raisi, mas não resolveria os problemas do país. A eterna disputa política entre o pessoal e o geral não é estranha ao sistema político iraniano.

*Por Paulo Botta – Diretor do Programa Executivo sobre o Oriente Médio. Universidade Católica Argentina.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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