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Entenda a crise no Afeganistão e impactos para residentes

“Muitas liberdades serão reprimidas em prol da leitura mais radical do alcorão”, diz cientista político sobre a volta do Talibã ao poder

Entenda a crise no Afeganistão e impactos para residentes
(Crédito: Andrew Renneisen/Getty Images)

No último domingo (15), integrantes do Talibã assumiram o poder no Afeganistão após anos de controle sobre cidades interioranas, e agora a crise se instalou no país. O presidente Ashraf Ghani e seu vice decidiram deixar o país sob a justificativa de evitar um conflito ainda maior. “O Talibã venceu, e agora é responsável pela honra, propriedade e autopreservação de seus compatriotas”, publicou o presidente em sua rede social.

A guerra interna entre o grupo e o governo se alastrou por 20 anos e o fim de um acordo estabelecido, no ano passado, com os Estados Unidos foi uma das motivações do avanço do Talibã no país, o que acabou por causar pânico em toda a população, como visto em um dos vídeos mais repercutidos nos últimos dias no qual afegãos tentavam fugir num avião a decolar.

O cientista político e coordenador do curso de pós-graduação em Relações Institucionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, Márcio Coimbra, explica que houve um acordo realizado por Trump em fevereiro de 2020 com o Talibã a fim de acertar as bases de uma retirada norte-americana do Afeganistão. Em troca, o Talibã não cederia a guarida a grupos terroristas, sobretudo a Al Qaeda. “Esse acordo foi assinado no início de 2020 e previa a retirada por completo das tropas norte-americanas e da OTAN até maio. Esse prazo acabou sendo dilatado até setembro e também acreditava-se que o avanço do Talibã não ocorreria tão rapidamente, portanto, todos ficaram surpresos com esse avanço do grupo que, em dez dias, conseguiu chegar à capital do país e acabou depondo o governo”, diz Coimbra.

O coordenador cita como um dos principais objetivos do Talibã, implementar a lei islâmica como lei geral do país, o que já tinha ocorrido entre 1996 e 2001, quando o grupo dirigiu o Afeganistão e era reconhecido somente por três países. Na época, foi implementada as regras islâmicas com base numa leitura distorcida do alcorão, como explica Coimbra: “A leitura que eles fazem do alcorão é muito radical e peculiar, o que leva a uma proporção muito maior do que se conhece em regimes mais fechados de direitos de minorias e, especialmente, de violação de direitos humanos. Isso acabou levando o país, no passado, a viver um eclipse destes direitos”.

Atualmente, o grande receio dos afegãos é que o Talibã atue da mesma forma, entretanto, como Coimbra explica, o grupo diz estar mais “moderado”, mas só será possível confirmar posteriormente. O cientista diz ainda que as mulheres serão as mais afetadas com o grupo no comando, visto que não será mais permitido o uso de salto alto, a ida às faculdades, limitando as moças apenas ao ensino religioso com base no alcorão e o uso obrigatório da burca. “Em Cabul, onde se tinha salões de beleza e universidades frequentadas por mulheres, haverá uma mudança extrema. Muitas liberdades serão reprimidas em prol dessa leitura mais radical do alcorão que será levada como lei pelo Talibã”.

Para Coimbra, é possível imaginar como será o futuro do país tendo como base a direção estatal do Talibã em regiões interioranas onde o grupo já tinha controle. Já a relação do novo Afeganistão com os Estados Unidos, considerada amigável nos últimos anos, será duvidosa. “A situação do governo com os EUA era muito boa, mas o governo caiu, então precisamos ver agora como será a relação com o Talibã. Em tese, será uma boa relação entre os dois países, mediante um acordo de paz feito anteriormente, entretanto, a forma como o Talibã chegou à capital sem negociar com o governo afegão levanta dúvidas sobre como será esta relação”, afirma o cientista político.

Sobre a possibilidade de uma interferência de outros países na crise, Coimbra explica que, na grande maioria, não há o que fazer, sobretudo os vizinhos do Afeganistão, Rússia e China. O receio da China se dá pela proximidade das fronteiras dos países, o que pode causar uma exportação do extremismo islâmico para o território chinês, trazendo também os ataques terroristas.

Quanto à Rússia, que já conviveu com o terrorismo islâmico, a única ação neste momento é observar a atuação do grupo. Até o momento, os dois países mantêm as embaixadas em Cabul, assegurando estabilidade para o Talibã. “Em tese, neste momento não podem fazer nenhuma pressão internacional no Afeganistão, o que pode acontecer é o Talibã se associar à China e à Rússia e acabar sendo tutelado pelos dois. Poderemos ver como a comunidade internacional começará a se relacionar com o Talibã, lembrando que o grupo não pode cortar linhas de comércio internacional por serem importantes para a entrada de recursos no país”, afirma Coimbra.

*Por Faculdade Presbiteriana Mackenzie.

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