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Eurásia para os euro-asiáticos?

Diante desse cenário complexo e em evolução, a preocupação da maioria desses atores euro-asiáticos é garantir a estabilidade regional e preservar os seus interesses das ameaças terroristas

Eurásia para os euro-asiáticos
(Crédito: Pascal Le Segretain/ Getty Images)

Há mais de 100 anos, a luta pelo controle do Afeganistão deu origem ao Grande Jogo, a confrontação entre o Império Britânico e o Império Russo. A retirada dos Estados Unidos do Afeganistão parece reativá-lo com outras características, em função de um novo conjunto de interesses regionais e internacionais. Mas, para os diversos atores regionais, a celebração da saída dos Estados Unidos dos espaços euro-asiáticos está provoca crescente preocupação na Eurásia.

EUA

Os ataques da organização terrorista Estado Islâmico-K no aeroporto de Cabul, exacerbaram as tensões políticas nos Estados Unidos e causaram uma nova virada na situação geopolítica em torno da região.

A decisão do presidente Biden de acatar os acordos de Doha sobre a retirada das tropas americanas do Afeganistão já havia acarretado uma série de críticas de diversos setores de seu país. Biden se manteve firme e manteve o prazo de saída de 31 de agosto, apesar da óbvia dificuldade logística de evacuar as tropas e os aliados afegãos a tempo. Após uma ocupação americana de 20 anos, um argumento crucial para manter essa decisão era reduzir a possibilidade de que uma prorrogação produzisse baixas americanas durante a retirada.

Os ataques – com 13 vítimas militares estadunidenses e um grande número de civis afegãos – mudam a equação: as baixas já ocorreram, com uma perda significativa do capital político de Biden nos Estados Unidos e entre os seus aliados da OTAN e do G7, afetados pela caótica retirada norte-americana e por apreciações errôneas sobre a velocidade com que o Talibã poderia avançar sobre Cabul. Os ataques aumentam os custos para Biden em sua frente doméstica e aumentam as tensões – já evidentes na recente reunião do G7 – com os seus aliados europeus e asiáticos.

Mas os ataques em Cabul forçam também uma reavaliação de uma política externa que, com a retirada do Afeganistão, encerrava um capítulo em que, desde 11 de setembro de 2001, a principal ameaça à segurança dos Estados Unidos estava associada ao terrorismo islamista liderado pela Al-Qaeda, para abrir um centrado nas ameaças – de maior capacidade estratégica – representadas pela a rivalidade com a China e a Rússia.

China, Rússia e Irã

Por outro lado, os ataques em Cabul redimensionam o escopo das aspirações dessas duas potências euro-asiáticas de usar o vácuo deixado pelos Estados Unidos no Afeganistão para promover os seus próprios interesses em nível regional. Em negociações anteriores, o Talibã havia prometido a Pequim e a Moscou que garantiriam a estabilidade do país e evitariam que se tornasse um viveiro para vários grupos terroristas. Em meio à retirada dos Estados Unidos, a China e a Rússia mantiveram suas embaixadas em Cabul e seus canais de negociação com o Talibã na esperança de poder conter uma enxurrada de grupos terroristas e extremistas que poderiam afetar seus próprios territórios e áreas de influência.

Simultaneamente, promoveram em Dushanbe uma primeira reunião da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) formada sob a égide de ambas as nações em 2001 e que inclui como membros permanentes os estados da Ásia Central, Índia e Paquistão, aos quais se somam quatro países que aspiram à membresia plena, entre eles o Afeganistão e o Irã, e convocaram uma nova reunião de alto nível em setembro para abordar especificamente a situação no Afeganistão. Desde a sua criação, a SCO mantém que a principal ameaça aos seus países membros se materializava nos chamados “três males”: o separatismo, o terrorismo e o extremismo religioso. Para a China, a organização uigur que busca a criação do Estado autônomo do Turquestão Oriental na província de maioria muçulmana de Xinjiang se enquadra nesta categoria. Mas Pequim também tem interesses econômicos em jogo no Afeganistão: abundantes recursos minerais (que incluem terras raras, cobre e lítio), investimentos e a possibilidade de extensão de um corredor da Iniciativa do Cinturão e da Rota que permita o acesso aos mercados europeus e a maiores reservas de hidrocarbonetos.

Para a Rússia, as ramificações do Estado Islâmico ameaçam não apenas seu território, mas também as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central sob sua influência, em particular o Uzbequistão, o Tajiquistão e o Turquestão, que fazem fronteira com o Afeganistão.

O Irã, apesar de ser governado por xiitas, há anos mantém laços com o Talibã sunita e aumenta a sua presença no território afegão através de uma fronteira extensa e porosa. E diante desse quadro regional, o Paquistão aparece como o Estado que mais ganha com a saída dos Estados Unidos, ao fortalecer a sua influência e relações com o Talibã, enquanto a Índia é o Estado mais afetado, como aliado de Washington no âmbito do Quad Indo-Pacifico, pela possibilidade de grupos terroristas islâmicos utilizarem o Afeganistão para expandir as suas operações em território indiano, com a eventual ajuda do Paquistão, seu inimigo declarado.

Estabilidade

Diante desse cenário complexo e em evolução, a preocupação da maioria desses atores euro-asiáticos é garantir a estabilidade regional e preservar os seus interesses das ameaças terroristas. Os ataques em Cabul no contexto de um confronto entre o Talibã – com suas próprias lutas e tensões internas – e a filial afegã do Estado Islâmico, no entanto, colocam em questão muitas das previsões de um conjunto heteróclito de Estados, que na sua maioria celebraram a saída dos EUA do Afeganistão, mas que agora veem com apreensão as novas ameaças terroristas que a mudança da situação no Afeganistão pode gerar.

*Por Andrés Serbin – Presidente da CRIES e autor do livro Eurásia e América Latina em um mundo multipolar.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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