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Hoje, Cabul; amanhã, Bagdá

A verdade não é que os Estados Unidos estão deixando o Afeganistão cedo demais, mas que nunca deveriam ter invadido aquele país. Ninguém os chamou, a maioria dos afegãos não quer a sua democracia, eles queriam matar um terrorista que estava em outro lugar, e o executaram há doze anos. Por que eles continuavam onde não tinham o que fazer? Biden anunciou que em breve retirará as tropas americanas do Iraque e a cena de Cabul se repetirá: os que colaboraram com a invasão entrarão em pânico, vão querer fugir, alguns tomarão aviões carregados de notas e os americanos se retirarão envergonhados de um país que eles nunca deveriam invadir

Hoje, Cabul; amanhã, Bagdá
Bagdá, Iraque (Crédito: John Moore/Getty Images)

A retirada das tropas americanas de Cabul, Afeganistão tem provocado hoje em dia uma discussão em que alguns conceitos devem ser incorporados. Certas categorias desenvolvidas por Fukuyama em “O fim da história” podem nos permitir ir além do incidental.

A verdade não é que os Estados Unidos estão deixando o Afeganistão cedo demais, mas que nunca deveriam ter invadido aquele país. Ninguém os chamou, a maioria dos afegãos não quer a sua democracia, eles queriam matar um terrorista que estava em outro lugar, e o executaram há doze anos. Por que eles continuavam onde não tinham o que fazer?

Os Estados Unidos e a OTAN treinaram e equiparam colaboradores e um exército de afegãos que se dissolveu assim que soube que os americanos estavam partindo. O presidente Ashraf Ghani fugiu imediatamente com quatro carros e um helicóptero carregado de notas.

Após vinte anos de guerra, morreram 7.432 soldados invasores, 51.191 afegãos classificados como insurgentes, 71.000 civis e 73.000 membros de um exército afegão armado pelos Estados Unidos. Há 2,6 milhões de refugiados no Irã e no Paquistão e 3,5 milhões de pessoas deslocadas internamente. A guerra custou oficialmente US$ 978 bilhões aos Estados Unidos, 30 bilhões ao Reino Unido e 19 bilhões à Alemanha.

Razões

Centenas de milhares de afegãos, americanos e pessoas de outras nacionalidades vivenciaram o horror da guerra e ficaram com problemas psicológicos que causarão novas tragédias em seus países. Tudo isso por quê? Para quê?

Os Estados Unidos invadiram o Afeganistão para vingar o ataque às Torres Gêmeas orquestrado por Osama bin Laden, o líder da Al Qaeda, que vivia no Afeganistão. Eles devastaram um país para matar uma pessoa que estava em outro. E nunca entenderam o Islã.

Os islâmicos não estão interessados em pertencer a países que o Ocidente inventou quando dissolveu o califado otomano. Acima de tudo, eles se identificam com a comunidade de crentes. O ataque às Torres Gêmeas foi planejado por Bin Laden, liderado por um egípcio, participaram 15 sauditas e 2 emiratis, e a sua base era no Afeganistão. Não contam com uma autoridade religiosa que interprete o Alcorão de forma obrigatória, mas com grupos de juristas que o estudam em cada local.

“Quase todos os aliados da América se opuseram à invasão do Iraque”

Quando a União Soviética invadiu o Afeganistão em 1978, provocou uma reação de todos os muçulmanos. Os Estados Unidos os apoiaram porque lutavam contra a URSS; armaram e treinaram um grupo liderado pelo milionário saudita Osama bin Laden.

Ocorreu uma migração maciça de afegãos para o Paquistão, milhares de jovens foram educadas no Islã wahhabista ortodoxo da Arábia Saudita em madrassas paquistanesas. Eles foram chamados de “catequistas”, talibã na língua pashto. A maioria deles são pashtuns, e administram uma comunidade de 13 milhões de afegãos e 30 milhões de paquistaneses cuja identidade é pashtun.

Em 2001, após o ataque às Torres Gêmeas, os Estados Unidos desembarcaram no Afeganistão para eliminar Osama bin Laden. Eles estavam no país errado; ele viveu em duas cidades pashtuns no Paquistão, Peshawar e Abbottabad, onde se encontram as armas nucleares do Paquistão. Para um ocidental é difícil visitar o Vale do Oras, onde fica essa cidade, devido à hostilidade do povo e à rígida vigilância militar. O enorme complexo em que Bin Laden morava precisava ser protegido pelo exército paquistanês.

Em 2003, os Estados Unidos e seus aliados invadiram o Iraque sob a falsa acusação de que possuia armas de destruição em massa. Quase todos os seus aliados, França, Alemanha, Espanha, se opuseram a uma guerra na qual apenas os Estados Unidos e o Reino Unido participaram. A única explicação racional para a invasão está no livro de David Owen, “The Hubris Syndrome: Bush, Blair and the Intoxication of Power”, que a atribui à divinização de Bush e Blair.

Alguns ocidentais acreditam que outras culturas são o seu passado e que essas sociedades são ignorantes. Eles presumiram que os iraquianos aplaudiriam as tropas que traziam a “democracia” e a “estabilidade” mas encontraram apenas uma resistência quase unânime. Eles enforcaram as autoridades, provocaram 134.000 baixas civis, gastaram bilhões para instalar uma democracia que é rejeitada pela vasta maioria e que explodirá quando as tropas de ocupação forem retiradas.

Eles arrasaram um país para o qual ninguém os havia chamado. Um oficial do exército iraquiano se autoproclamou califa adotando o nome do sogro de Maomé, Abu Bakr, proclamou o Estado Islâmico e isso levou a outro massacre. A crueldade das ações do ISIS abalaram aqueles de nós que acreditamos nos direitos humanos e na paz.

Biden anunciou que em breve retirará as tropas americanas do Iraque e a cena de Cabul se repetirá: os que colaboraram com a invasão entrarão em pânico, vão querer fugir, alguns tomarão aviões carregados de notas e os americanos se retirarão envergonhados de um país que eles nunca deveriam invadir.

Islã

É difícil para os cristãos entender a natureza omniabrangente do Islã. Não é um sistema de crenças, nem uma ideologia, nem uma religião, mas um sistema que abrange todos os aspectos da vida humana, uma estrutura que determina sua vida privada, social, econômica e política.

Maomé foi o único fundador de uma religião importante que também foi guerreiro, prefeito, rei. Nessa cultura não há espaço para a separação da religião do Estado como a alcançada pela cristandade. O Alcorão é uma coleção de versos recitados diretamente por Allah através da boca do profeta. Seus textos são uma cópia de um livro que está no céu, eterno e inalterável. Não admite outra coisa senão a interpretação literal de seus textos.

Num seminário, ouvi os líderes do Tamarrud (“rebelião”), o movimento mais importante da Primavera Árabe Egípcia, dizer: “Só há uma coisa pior do que uma ditadura militar: um governo dominado por fundamentalistas religiosos”. Assim, eles explicaram por que seu líder Mohamed Abdelaziz e o vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2005, Mohamed el-Baradei, apoiaram o golpe do general al-Sisi contra Mohamed Morsi, o primeiro presidente egípcio eleito democraticamente. El-Baradei ficou no exílio trinta anos, voltou quando Mubarak caiu, mas diante do obscurantismo da Irmandade Muçulmana, foi à oposição e acabou aceitando a vice-presidência da ditadura. Morsi venceu com pouco mais de 50% dos votos e provocou uma forte reação ao tentar assumir poderes absolutos para islamizar o país. O exército tomou o poder.

“No Oriente Médio, houve governos militares mais ou menos brutais que impediram que os fundamentalistas, que muitas vezes são a maioria, impusessem a sharia.”

Na Turquia, Kemal Atatürk, herói da independência após a Primeira Guerra Mundial, quis impor os valores ocidentais, convencido de que o secularismo e a europeização da Turquia eram o caminho para transformá-la em um país moderno. Ele organizou uma república que elegeu 13 presidentes ao longo de 84 anos, tutelada pelas Forças Armadas, que mantiveram a ideologia liberal. Em 2014, foi eleito Recep Tayyip Erdogan, um muçulmano formado em uma escola de imãs, que tem voltado progressivamente a uma sociedade islâmica, acabou com a liberdade de imprensa e impôs um governo autoritário. O desejo de instaurar o Islã entra em conflito com o desejo turco de ingressar na União Europeia, mas nem mesmo quase um século de laicismo conseguiu eliminar o desejo da maioria de retornar a uma sociedade tradicional.

Mohammad Reza Pahleví foi imperador do Irã de 1941 até fevereiro de 1979. A sua ideia era semelhante à de Ataturk: ele queria impor os valores ocidentais. O “Rei dos Reis” e “Luz dos Arios” levou a cabo uma política de modernização: expropriação de latifúndios, sufrágio feminino, a chamada “revolução branca”. As reformas atingiram uma pequena parte da população e geraram descontentamento nas pequenas cidades e no setor rural, o mais religioso do país. Seu orientador foi Samuel Huntington, professor da Universidade de Harvard, autor de “O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial”.

No final de 1978, eclodiu o levante contra o governo, o Xá fugiu do país e foi estabelecido um governo de clérigos presidido pelo aiatolá Ruhollah Khomeini que dura até agora. Embora oficialmente o Irã seja uma república, na verdade é uma teocracia, todo o poder reside no Imã, eleito por uma Assembleia de Especialistas nos textos sagrados.

“É falso que o Islã seja dirigido por homens que mantêm as mulheres submetidas”

O governo iraniano tenta exportar o seu modelo com intervenções políticas diretas no Líbano e as atividades de seu braço terrorista Hezbollah. Eles têm uma atitude belicista porque acreditam que o fim do mundo está próximo, e nesse processo eles terão um papel central comandado pelo Mahdi Oculto e

Jesus, que ordenará a morte de todos os judeus e dos cristãos que não se convertam ao xiismo duzentista.

Mulheres

Existe no Ocidente a ideia de que o Islã é dirigido por homens que oprimem as mulheres que eles mantêm submetidas. Isso é falso. Quando o Xá caiu, o que havia de mais perigoso eram os grupos de mulheres vestidas com burcas pretas que percorriam as ruas em busca de ocidentais, para matá-los.

A grande maioria das mulheres nesses países apoia os movimentos islâmicos, embora muitos ocidentais fiquemos condenemos as disposições da Sharia que violam os direitos humanos. Pessoalmente, sempre defendi as mulheres desses países que estavam em apuros, coletando assinaturas e enviando petições para tentar impedir os abusos. Para tal, tenho até utilizado esta coluna.

Há outras práticas como a ablação, a remoção parcial ou total do órgão sexual feminino para evitar que as mulheres possam sentir prazer sexual, que segundo a OMS afeta entre 100 e 140 milhões de meninas e mulheres em 28 países da África e alguns da Ásia, entre os quais o Iraque. É uma versão radical da tese do Concílio de Trento, em vigor até poucos anos atrás entre nós, de que o prazer sexual feminino é um pecado.

*Por Jaime Duran Barba – Professor da GWU. Membro do Clube Político Argentino.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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