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México e a Grande Pátria

Na América Latina, quase todo mundo ignora o que acontece com os seus vizinhos. Nossos líderes de esquerda sonham com os países que odeiam. Eles falam da “Pátria Grande”, mas desconhecem os nomes dos candidatos nas últimas eleições peruanas, brasileiras, chilenas, colombianas ou mexicanas. Sabem mais sobre as eleições americanas ou francesas

México e a Grande Pátria
(Crédito: Hector Vivas/Getty Images)

O Grupo de Lima ficou sem Lima e o Grupo de Puebla sem Puebla. No Peru, venceu as eleições Pedro Castillo, um líder de extrema qualquer coisa, que luta contra os direitos das mulheres e das minorias, aceitos por todo o Ocidente. Puebla é um dos poucos estados mexicanos em que o PAN venceu, apesar de que a esquerda tenha triunfado em 11 dos 15 estados em jogo. Suas autoridades não darão as bem-vindas ao coro de intelectuais aposentados do século passado, menos ainda se for organizado por um presidente que disse que os mexicanos vêm dos índios.

No México, a “Grande Pátria” não havia “índios”. As culturas mesoamericanas instaladas em seu território foram as únicas na América que desenvolveram sistemas sofisticados de escrito, como aqueles dos maias e dos astecas. Tenochtitlán foi fundada em uma ilha no Lago Texcoco, onde os astecas encontraram uma planta de pera espinhosa na qual se havia empoleirado uma águia que devorava uma cobra. Era o sinal da terra prometida que suas lendas anunciavam. Até 1500, transformou-se em uma das maiores e mais belas cidades do mundo.

Perto dali ficava a colina de Tepeyac, onde, desde o século XIV, milhares de fiéis iam adorar Tonanzin, uma deusa negra da fertilidade. Hernán Cortés tinha no seu estandarte a imagem da Virgem de Guadalupe, uma dedicatória pouco conhecida da Extremadura. Os indígenas protegeram Tonanzin fundindo-o com a Guadalupana, dando origem ao culto católico mais difundido na América.

A tilma (poncho) de Juan Diego era grande demais para ser de uma criança indígena, Frei Servando Teresa de Mier deduziu que se tratava do manto do São Tomé Apóstolo, que viera para a Mesoamérica na época de Cristo, personificado no deus Quetzalcóatl. O mito da viagem de São Tomé foi muito difundido.

Os espanhóis encontraram centenas de culturas sofisticadas, relacionadas entre si. Algumas de suas criações estão expostas no Museu Antropológico do México, que demanda pelo menos um dia para percorrer e refletir sobre o nosso passado. As últimas declarações de Alberto Fernández sobre o país e os índios foram particularmente irritantes para uma nação tão orgulhosa do seu passado.

“A mexicana foi uma revolução secular, comprometida com os pobres”

A revolução mexicana

No alvorecer do século XX, duas revoluções comoveram o mundo: a de outubro na Rússia e a grande pátria mexicana. Foram contemporâneas, mas não tinham nenhuma conexão. O primeiro instalou na Rússia a União Soviética, inaugurando o curto século da história ocidental.

O mexicano começou em 1910, quando o partido anti-reeleicionista derrubou Porfirio Díaz e se consolidou ao longo de um longo processo que culminou no assassinato de seus líderes, como Emiliano Zapata em 1919, Francisco Villa em 1923 e Álvaro Obregón em 1928.

Inaugurou-se assim a segunda democracia presidencial mais antiga do mundo. Por mais de um século, os mexicanos elegeram o novo presidente no dia em que foi designado pela constituição, um presidente que sempre cumpriu seu mandato e entregou o poder a um sucessor escolhido pelo povo.

Nenhum presidente pretendeu entregar o poder ao seu cônjuge ou a um parente. Tampouco houve golpe militar ou “pronunciamento” dos uniformados que tenha se imposto ao poder civil. Os últimos religiosos que quiseram que Cristo Rei governasse o país foram devidamente atendidos na Guerra Cristera. Os eclesiásticos não fazem política, cuidam só dos seus assuntos, o poder é estritamente civil.

A mexicana foi uma revolução secular, comprometida com os pobres e com as causas progressistas, e nunca foi uma colônia da União Soviética, da China, da Coreia ou dos socialismos macumbeiros dos últimos anos.

A esquerda mexicana

Em setembro de 1985, a Associação Internacional de Historiadores do Movimento Trabalhista lançou o livro “O Primeiro de Maio no Mundo”. A reunião foi encerrada pelo Ministro do Trabalho do Governo de Miguel de la Madrid, com um discurso revolucionário no qual mencionou Marx com frequência. Participamos do evento autores de vários países, cantando no final do evento a Internacional Comunista, a mesma melodia cantada em setenta línguas. Eu estava entre um japonês e um vietnamita, que a cantaram em suas línguas. O discurso do ministro, os nomes épicos das avenidas da cidade, Insurgentes, Revolução, e outros desse naipe, nos fizeram sentir que estávamos no epicentro da revolução mundial.

Poucas horas após o emocionante evento, ocorreu o maior terremoto já registrado na cidade. No meio da convulsão, descobrimos que Miguel de la Madrid não era um líder da revolução proletária internacional, mas um presidente da linha mais capitalista do PRI. Felizmente estávamos no México e não no Grande Salto para Frente.

O México tinha uma posição independente em relação a Cuba e outros problemas mundiais. Não obedeceu aos Estados Unidos em nada, nem mesmo no bloqueio, mas não foi uma colônia cubana como a Venezuela de Maduro.

México é México

Seu presidente não costuma participar de coros ideológicos que causem problemas aos mexicanos. AMLO jamais se tornará acólito do renovado falangismo sul-americano, nem convidará Cristina para a festa do Grito de Dolores, para que José e algumas freirinhas do claustro possam arremessar bolsas cheias de dólares.

Na América Latina, quase todo mundo ignora o que acontece com seus vizinhos. Nossos líderes de esquerda sonham com os países que odeiam. O méxico fala da “Grande Pátria, mas desconhecem os nomes dos candidatos nas últimas eleições peruanas, brasileiras, chilenas, colombianas ou mexicanas. Sabem mais sobre as eleições americanas ou francesas. Eles não entendem de política além de alguns folhetins anacrônicos. Tampouco mandam seus filhos estudar nas importantes universidades de Caracas, Manágua ou Havana, mas sim em medíocres universidades americanas.

As eleições mexicanas

O resultado das últimas eleições indica que o governo de AMLO se consolidou na metade do seu mandato em um mundo que se tornou ingovernável. Seu partido ganhou 11 governos estaduais dos 15 que estavam em jogo e 185 das 300 cadeiras de deputados.

Para a Câmara dos Deputados os resultados foram bons. AMLO e seus aliados manterão a maioria absoluta, embora não tenham obtido os dois terços que lhes teriam permitido reformar a constituição. Alguns opositores dizem que foi ruim para eles, porque “eles apenas têm a maioria”, mas normalmente todos os políticos do mundo aspiram a isso.

Nas eleições pós-Internet, não poderia faltar uma surpresa. A oposição conquistou algumas prefeituras da capital que haviam estado em mãos da esquerda desde 2003. Será preciso estudar se as pessoas se cansaram de seu prolongado reinado ou simplesmente chamaram a atenção pedindo uma renovação, como já aconteceu em outros países.

AMLO tem conseguido uma comunicação extremamente próxima com as pessoas, simples. Ele dá uma coletiva de imprensa todos os dias às sete da manhã que dura muito tempo, sem solenidade ou arrogância.

O México foi um grande império, e preservou ritos que afastaram os líderes do povo, como se viu com aqueles praticados por Enrique Peña Nieto, sempre encerrado em Los Pinos, símbolo do poder. AMLO desde o primeiro dia abriu Los Pinos ao povo, raramente protagoniza cerimônias grandiosas, com roupas espalhafatosas. Sempre dizemos que a política é vista e ele é visto apenas como mais um tabasquenho, um mexicano que quer servir aos outros.

Durante anos, advertimos nesta coluna sobre a fraqueza dos governos na terceira revolução industrial e especialmente após a pandemia. Em países com instituições fracas como Argentina, Peru, Equador, Venezuela, Bolívia, a instabilidade política é extrema, tudo pode acontecer, a qualquer momento. Mas também em países com institucionalidade consolidada, como Chile, Colômbia, Brasil, Uruguai, Paraguai, ocorreram eventos que colocaram em risco a democracia representativa.

Nos últimos anos conversamos sobre isso com lideranças que nos primeiros meses de governo obtiveram uma excelente avaliação para depois derrapar por um tobogã do qual não conseguiram voltar.

Alguns desistiram, outros ficaram como patos mancos boiando na água, contando os dias até o final dos seus mandatos.

A grande pátria e as vacinas

Alguns legisladores argentinos se sentiram marinheiros do encouraçado Potemkim. Emplacaram uma cláusula que impedia que a vacina da Pfizer fosse vendida na Argentina. Desferiam um golpe letal no capitalismo. Não importava que alguns milhares de argentinos morressem por isso. Afinal, também houve mortes no Palácio de Inverno.

Embora parecesse difícil, emergiu um país mais revolucionário. O Haiti é uma das nações mais pobres e também a única do hemisfério que não vacinou nenhum de seus habitantes. Viva uma emergência de saúde terminal.

O problema não era a falta de dinheiro, mas os princípios incorruptíveis de seus governantes. Foram feitas várias ofertas de doação de vacinas, principalmente da Covax Facility, mas foram rejeitadas porque, segundo o governo, 80% ou 90% das pessoas não queriam ser vacinadas com a vacina que lhes iam doar, que era a AstraZeneca.

Este sim é um governo soberano: se não lhes derem a vacina que seus políticos gostam, é melhor que as pessoas morram defendendo uma bandeira. Isso pode ser explicado por uma atitude ideológica heroica, ou simplesmente por um enorme grau de tolice e ignorância de seus líderes.

O bloco internacional aliado da Argentina, principal adversário dos Estados Unidos, formado por Venezuela, Nicarágua, Cuba e Haiti, não informa a situação da COVID. Médicos independentes dizem que um genocídio está sendo encoberto.

Mas o Haiti pode ficar calmo.

Na medida em que se identifica mais com o absurdo, pode aspirar a que Rosario Murillo lhe envie ametistas, ou Maduro passarinhos de plástico, como os que usou em sua campanha eleitoral. Talvez Alberto possa enviar algumas imagens de San Gauchito. Por que se preocupar com bobagens científicas se no país de Duvalier funciona a magia?

*Por Jaime Duran Barba – Professor da GWU. Membro do Club Político Argentino.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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