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Não é Marx, é o Coringa!

A política está atrasada, confundida por velhas ideologias, superstições e delírios de grandeza de seus dirigentes. Como visto durante a pandemia, muitos líderes não estão preparados para atuar no novo mundo. É hora de pensar, de investigar, de montar estratégias rigorosas. É preciso trabalhar com a mente aberta, sabendo que a lógica política de cinco anos atrás é coisa do passado

Não é Marx, é o Coringa
Ator Heath Ledger interpretando Coringa, no filme "Batman - O Cavaleiro das Trevas" (Crédito: Paul Kane/Getty Images)

Por Jaime Duran Barba – Professor da GWU e Membro do Club Político Argentino

Já faz um tempo que antecipamos nesta coluna que, após a pandemia, haverá um caos geral na América Latina. A terceira revolução industrial transformou radicalmente a forma em que os seres humanos se relacionam entre si, com os objetos, com seus valores. Nada é como era há dez anos.

Líderes políticos e analistas precisam repensar seu trabalho. Eles não podem continuar com o paradigma do século XX. A cada dez meses, tanto conhecimento é produzido quanto a humanidade gerou desde suas origens. Marx e Weber servem para compreender a sociedade atual tanto quanto São Tomás.

Nos acostumamos com os avanços tecnológicos, temos a impressão de que “sempre foi assim”. Esquecemos das máquinas de escrever, câmeras fotográficas, mapas em papel. Temos tudo no nosso celular, que além disso é o nosso assistente, nosso guia e nosso psicólogo.

Atraso

Eu morava no Equador numa casa velasquista. Nos anos 70 vim para a Argentina e fiquei entusiasmado com o peronismo. Os líderes daquela época eram sagrados, ninguém imaginava questionar os seus discursos. Os partidos tinham aparatos, pirâmides de clientelismo que organizavam as lealdades políticas ao misturar entusiasmo ideológico, regalias e presentes. Em alguns países como o nosso, alguns líderes organizaram a pobreza como um negócio que ainda garantia o controle dos eleitores.

Essa política estava desaparecendo no final do século XX e agora está tão distante para as pessoas quanto a sociedade medieval. Em determinados países, gerou-se, com a terceira revolução industrial, uma nova sociedade imensamente rica, baseada na globalização, na meritocracia e no desenvolvimento da ciência. Seu coração está no conhecimento científico que se generaliza como ferramenta.

“Líderes políticos e analistas não podem insistir no paradigma do século XX

Só a política está atrasada, confundida por velhas ideologias, superstições e delírios de grandeza de seus dirigentes. Como foi visto durante a pandemia, muitos líderes não estão preparados para atuar no novo mundo.

Por sua vez, as pessoas comuns passaram por cima dos partidos e demais instituições da democracia representativa. Comunicam-se diretamente, formam sociedades horizontais irreverentes que exigem tudo o que querem, cada uma delas o que lhe vier à cabeça. Existem outros terraplanistas, comunistas, liberais ultrapassados e pessoas que se reúnem porque defendem a vida das focas, o retorno ao primitivismo, fingem conversar com alienígenas ou mantêm ideias de qualquer tipo.

A terceira revolução industrial que se aprofundou com a pandemia é contraditória. Os países mais racionais darão um salto econômico e científico para longe dos mágicos. Enquanto empresários norte-americanos como Elon Musk se preparam para colonizar Marte, Pedro Castillo no Peru, Rosario Murillo na Nicarágua e Nicolás Maduro na Venezuela se dedicam à magia e se aconselham com pássaros de plástico.

No auge da revolução da inteligência, pessoas cobertas com peles de bisão invadem o Capitólio porque acreditam em superstições conspiratórias ridículas.

Coquetel explosivo

Líderes despreparados de um lado e maiorias anárquicas do outro formam um coquetel explosivo. Vêm logo mais tempos de enormes conflitos sociais na região. Em todos lados exigem-se mudanças. Para onde? Não importa, mas é urgente, em qualquer direção, e agora.

Os líderes devem saber que é inútil correr sem direção, e acreditar em superstições. É preciso pensar, planejar, ter estratégias elaboradas.

Nesta semana, eclodiu na Colômbia um conflito de importantes proporções, semelhante aos que abalaram Chile, Equador e outros países recentemente.

Alguns partidários da ditadura militar venezuelana, que matou centenas de jovens e mandou ao exílio quatro milhões de venezuelanos desesperados pela fome, exigiram “que cesse a violenta repressão do governo Duque”. Confundidos pelas suas superstições, eles não sabem do que estão falando.

Iván Duque é provavelmente o presidente mais preparado do continente. A reforma tributária que ele propôs tinha como objetivo financiar planos para ajudar os mais afetados pela pandemia. A Colômbia é um país com muitos problemas, onde se desmobilizaram dezenas de milhares de guerrilheiros e contras, nascidos em muitos casos nas repúblicas guerrilheiras de Marquetália, El Pato e outras, que ao longo de suas vidas só souberam matar e sequestrar. É mais fácil para eles trabalhar para os traficantes do que se integrar à sociedade.

Foi em resposta à proposta de reforma que o conflito eclodiu. Como aconteceu com o aumento do preço do metrô no Chile ou da gasolina no Equador, essas rebeliões são desencadeadas por um incidente, ganham autonomia e têm seu próprio desenvolvimento. Duque retirou o projeto, mas a rebelião continua.

Nessas mobilizações não há lideranças definidas, nem partidos, nem sindicatos, nem ideologias como acontecia nos tempos antigos. Para tomar o Capitólio, concorreram os Proud Boys, os Q, um homem disfarçado de Batman e uma pessoa distraída que tinha uma placa que dizia que “vidas negras importam”. As mobilizações desta etapa são amontoamentos de pessoas que comparecem por diferentes motivos, aos que se juntam anarquistas, pessoas sem noção, criminosos que saqueiam, todos os tipos de marginais ou pistoleiros que trabalham para grupos ilegais. No sul da Colômbia, onde a violência foi mais grave, três cartéis de narcotraficantes tentaram controlar o maior corredor de tráfico de drogas do país.

“As pessoas se mobilizam de forma anárquica, motivadas por diversos impulsos”

Mas seria superficial dizer que o que acontece é culpa dos criminosos, da esquerda, da direita ou de qualquer outro fantasma do passado. A essência é que as pessoas se mobilizam de forma anárquica, motivadas por diversos impulsos que precisam ser estudados e compreendidos. As sociedades interconectadas são uma caixa de pólvora que pode explodir a qualquer momento, por qualquer causa.

A rejeição do sistema se expressa de diferentes maneiras. O resultado das eleições peruanas é uma delas: o fato de serem encabeçadas por um personagem como Pedro Castillo, que atualmente conta com o apoio de algumas pessoas preparadas, é um sintoma da decomposição em que estamos imersos. Nunca houve, na América Latina, propostas tão primitivas e absurdas como as de Castillo. Acreditar que ajudá-lo pode tornar seu governo menos prejudicial é supor que um macaco poderia ser um bom administrador de uma vidraria se lhe derem uma banana.

Eu conheço muitos peruanos preparados. Há empresários eficientes, modernos, que desenvolveram a economia do país sem perceber que a política os pode levar a uma catástrofe.

Ainda existe a esperança de que Castillo perca. A maior parte da mídia comete o erro de não lhe dar espaço, mas é certo que a maioria dos peruanos não é insensata. Se eles sabem o que ele está propondo, é difícil que o apoiem.

Chile

O Chile é um dos países latino-americanos mais bem-sucedidos. Durante décadas, os governos, de um tipo ou de outro, construíram uma economia estável, uma democracia alternativa ordenada. Sou inimigo das superstições, sou orientado por números. Nas estatísticas que se fazem no mundo, o Chile está nos primeiros lugares e o nosso país entre os últimos. Não porque nossos recursos naturais sejam inferiores aos chilenos, nem porque nossa população seja inferior por qualquer motivo. No Chile, as instituições têm sido respeitadas e há muito pouca corrupção.

Olhando os números, é claro que o governo de Sebastián Piñera tem sido eficiente. Se os compararmos com os do governo argentino em tudo o que tem a ver com crescimento econômico, progresso dos mais pobres, respeito pelos direitos humanos, inflação e todas as variáveis medidas por organismos internacionais especializados, não há dúvida de que foi um bom governo. No entanto, suas taxas de aceitação são tão ruins quanto as de Alberto.

Nessas décadas, o Chile teve líderes de qualidade que aparecem encurralados nas pesquisas realizadas para as eleições presidenciais de dezembro. Elas são lideradas por uma nova personagem, Pamela Jiles, do Partido Humanista, seguida por Daniel Jadue, do Partido Comunista, e Joaquín Lavín.

Os números são indicadores da demanda por mudanças, mas a bomba atômica está na abstenção massiva ocorrida nas últimas eleições, principalmente entre os jovens, o que expressa uma insatisfação mais radical.

Espanha

A necessidade de reformular a política não existe apenas na direita. Nas últimas eleições na Espanha, o golpe colossal sofrido pelo Podemos levou o seu líder, Pablo Iglesias, a se retirar da política. Ele entendeu com inteligência que é hora de profundas transformações também em seu partido.

Federico Andahazi escreveu um romance genial, “El Conquistador”, no qual imagina que Quetzal, um líder mesoamericano, descobre a Europa. Essa quimera ocorreu de fato com o Podemos. Por ser um partido de esquerda, fincou as suas raízes na direita latino-americana do século XXI. Apoiou a ditadura militar venezuelana, Evo Morales e outros líderes dessa corrente. Como no romance de Andahazi, os conquistadores não foram os espanhóis, mas sim alguns autoritários americanos que inspiraram essa esquerda espanhola.

Iglesias é um líder inteligente e preparado. Ele renunciou à vice-presidência da Espanha para trabalhar nas eleições municipais de Madri, sofrendo uma derrota apocalíptica nas mãos de Isabel Díaz Ayuso, uma política com trajetória menos importante. Fizeram campanha para o Podemos Evo Morales e Rafael Correa, com o qual colaboraram para a catástrofe da esquerda. Tomara que eles viagem agora para o Peru e apoiem Castillo. Ajudarão o país.

É hora de pensar, de investigar, de montar estratégias rigorosas. É preciso trabalhar com a mente aberta, sabendo que a lógica política de cinco anos atrás é coisa do passado.

Alguns acreditam que o culpado por essa onda revolucionária é Karl Marx, mas estão errados. Para entender o que está acontecendo é melhor assistir ao filme Coringa. Esse é o teórico que melhor explica as novas rebeliões.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina

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