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O ano da pandemia foi o pior de todos?

A revista Time definiu 2020 como o pior ano de todos os tempos. Mas cada geração viveu momentos decisivos de tragédia

O ano da pandemia foi o pior de todos
Equipe médica, usando equipamentos de proteção, para coletar amostras de pessoas em um prédio onde 46 pessoas foram confirmadas com o coronavírus (COVID-19), em uma instalação de teste temporária em 10 de março de 2020 em Seul, na Coreia do Sul (Crédito: Chung Sung-Jun/Getty Images)

Para todos nós que o vivemos, 2020 foi um ano inesquecível para o esquecimento, uma das razões foi a pandemia, e em dezembro daquele ano, que, por precaução, é melhor não citar, a capa da histórica revista norte-americana Time definiu 2020 como o pior ano de todos os tempos.

“Essa é a história de um ano ao qual você não vai querer voltar”, inicia a reportagem semanal, que, focada na realidade dos Estados Unidos, oferece os argumentos que sustentam tal afirmação: catástrofes naturais, uma ‘vergonhosa’ eleição presidencial nos Estados Unidos, a pandemia da Covid-19 (que até agora ceifou mais de um milhão e meio de vidas), a morte de Kobe Bryant, protestos e violência nas ruas em todo o Ocidente, tédio, ansiedade, desemprego ou condições de “exploração no trabalho”, principalmente dos jovens, a morte de Diego Armando Maradona, os protestos do Black Lives Matter e, claro, os vídeos no TikTok e as aulas virtuais de absolutamente tudo.

Além do fato de ser tecnicamente quase inverificável saber qual foi o pior ano da história da humanidade – por exemplo, teríamos um longo trabalho para definir o que consideramos pior ou melhor, e com base em que o fazemos – o interessante é que a ideia de que estamos passando pelo pior período da história não soa tão absurda.

A noção de que vivemos tempos complexos e turbulentos está presente no discurso público cotidiano desde muito antes da chegada da Covid-19. E, como vimos, afeta também a forma como percebemos o mundo, reforçando distopias e visões negativas em relação ao futuro. A pandemia acabou com o futuro e transformou tudo em um presente contínuo. E a revista Time, com aquela capa, adotou a mesma postura.

Cada geração viveu momentos decisivos de tragédia que acabaram se transformando em pontos de inflexão. Para a Geração X, e provavelmente para muitos millennials, esse ponto de inflexão foram os ataques de 11 de setembro, para os Baby Boomers, o assassinato de JFK, ou a Guerra do Vietnã, e para a Geração Silenciosa definitivamente os conflitos bélicos da metade do século, com todos os horrores que trouxeram consigo.

Esses pontos de inflexão causam um efeito de desaceleração temporal. Como se o relógio tivesse parado de alguma forma e estivéssemos presos no presente, sem perspectiva para ver para trás e sem capacidade de olhar para a frente. A pandemia nos parece terrível justamente por isso, porque elimina o futuro e destrói as projeções, deixando-nos prisioneiros de um presente interminável.

No entanto, poderíamos fazer o exercício de pensar como teria acabado uma pandemia desse tipo teria dois séculos atrás, ou como teria sido uma pandemia que nos isolasse da tecnologia. Fazer este exercício nos permite verificar que, na realidade, a visão negativa e desesperada que aplicamos ao momento em que vivemos é anterior ao coronavírus.

Em 2015, o Financial Times publicou um artigo intitulado “Abalado, machucado e instável: o mundo inteiro está no limite”. Dez anos antes dessa capa, a filósofa francesa Thérèse Delpech antecipou esse “mundo no limite” em um ensaio intitulado “O Retorno à Barbárie no Século XXI”, onde alerta que o conflito e a instabilidade são inerentes à História, e que no século XXI, estamos entrando em um novo período de barbárie.

Dizer que algo está errado no mundo hoje não é nada revolucionário. Na verdade, é algo totalmente viável de se ouvir em qualquer âmbito e por diferentes motivos. E o mais curioso: em quase qualquer país do Ocidente.

Mas em 2005, quando Delpech antecipou nosso retorno à barbárie, esse ainda não era o senso comum da sociedade. O fim da guerra fria, a expansão da democracia e a incipiente revolução tecnológica derivada da Internet e da bolha das pontocom geraram no Ocidente a sensação de que O Fim da História havia chegado e que, por algum motivo, estávamos do lado certo.

Mas depois da crise das hipotecas em 2008, a balança começou a pender para o outro lado. Essa crise, totalmente inesperada, levou ao desemprego na pior das hipóteses e ao subemprego na maioria – especialmente na população jovem –, o que, por sua vez, gerou protestos, conflitos sociais e, consequentemente, instabilidade política e o surgimento de lideranças messiânicas.

O roteiro é mais ou menos semelhante em todo o Ocidente desenvolvido, e tem suas características particulares em diferentes regiões, como a América Latina ou o Oriente Médio. Mas se há algo comum em todos os casos, é, como aprofundaremos na próxima seção, o ímpeto proporcionado pelas novas tecnologias diante dessa instabilidade.

Trecho de “El Dilema Humano: Del Homo sapiens al Homo tech” – por Joan Cwaik.

*Por Maximiliano Sardi – Editor de Internacionais.

*Texto publicado originalmente no site Notícias, da PERFIL Argentina.

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