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O complexo xadrez da Ásia Central após o retorno do Talibã

Incógnita. Ainda há dúvidas sobre o que o Talibã fará. A Al Qaeda já se transformou em grupos ativos na África e, até onde se sabe, os talibãs não são expansionistas, embora possam desestabilizar o Paquistão

O complexo xadrez da Ásia Central após o retorno do Talibã
Militares jogam uma partida de xadre em Bagdá, Iraque (Crédito: Chris Hondros/ Getty Images)

Neste século, os EUA estiveram diretamente envolvidos em conflitos na Síria, no Iraque e no Afeganistão, agora com o retorno do Talibã. Empregou lá tropas e recursos abundantes. Está se retirando de todos esses palcos, e não exatamente com glória. Nesse quadro, muitos se perguntam se os Estados Unidos terão o consenso interno para se envolver em outro conflito externo, pelo menos no futuro imediato. Grande incógnita.

Cabul caiu

Em poucos dias, uma ofensiva fulminante do Talibã desintegrou o exército afegão que os Estados Unidos e seus aliados haviam formado ao longo de mais de 20 anos, desperdiçando recursos e equipamentos.

“Estima-se que as forças do agora extinto governo afegão somavam mais de 300.000 homens bem equipados, mais do que o suficiente para manter sob controle pouco mais de 70.000 milicianos jihadistas.”

A presença de tropas ocidentais no Afeganistão durou duas décadas. Quando eles partiram, o governo entrou em colapso e as suas tropas se renderam sem lutar, entregando o seu equipamento ao Talibã. Era possível outro resultado? Qual era o objetivo político da ocupação? Quanto isso afetará a política externa dos EUA? Como fica o xadrez da Ásia Central?

Os EUA são a principal potência envolvida neste resultado. Isso nos obriga a rever por que ele se lançou no que acabou sendo a guerra mais longa de sua história, onde milhares perderam as suas vidas e milhões de dólares foram gastos todos os dias.

Do Vietnã ao 11 de setembro

A longa história de intervenção estrangeira dos Estados Unidos teve um ponto de inflexão no Vietnã. Foi a guerra mais resistida por sua população, a mais impopular, usaram-se nela mais bombas do que na Segunda Guerra e, no final, foram derrotadas. Seus aliados do então Vietnã do Sul colapsaram em poucos dias, e toneladas de armas, aviões, blindados e helicópteros passaram às mãos das tropas do general Giap e do Viet Cong.

Dentro da sociedade norte-americana, o descontentamento explodiu. Coincidiu com as revelações do escândalo Watergate, a espionagem do Partido Democrata por agentes cubanos anticastristas (treinados pela CIA). O presidente Richard Nixon renunciou. E isso não foi tudo: nesse mesmo ano, o Congresso dos Estados Unidos tomou conhecimento do relatório da Commissão Church, que revelou como a inteligência dos Estados Unidos financiou jornalistas, partidos e sindicatos para derrubar Salvador Allende. O que incluiu armar o comando de direita que assassinou o Comandante-em-Chefe do Exército do Chile, o General René Schneider, naquela época. Ficou claro que as autoridades norte-americanas nem sempre atuavam defendendo a democracia e os direitos humanos, como proclamavam. A deslegitimação do sistema foi profunda.

Era 1975 e um consenso se instalou tanto na sociedade quanto entre os estrategistas americanos: nunca mais participar de uma guerra distante. Nunca mais mandar os seus garotos morrerem ou serem mutilados em conflitos desse tipo. Isso não significava que os Estados Unidos estivessem renunciando a exercer sua influência, apenas que privilegiariam o uso de medidas diplomáticas, econômicas ou de operações encobertas. Mas sem enviar tropas. Foi o que aconteceu em vários dos conflitos que abalaram as últimas décadas do século XX: as guerras na África, onde as tropas cubanas deram uma dura derrota ao então racista exército sul-africano; o mesmo aconteceu na América Central, onde os americanos treinaram, armaram e financiaram os exércitos locais que enfrentaram os guerrilheiros na Nicarágua, El Salvador e Guatemala. Aliás, naqueles anos, os EUA desdobraram um ataque fulminante à pequena ilha de Granada e invadiram o Panamá para prender o general Noriega, mas com tal desequilíbrio de poder que alcançaram o seu objetivo em poucos dias. Não houve operações grandes e longas. Até o ataque da Al Qaeda às Torres Gêmeas e ao Pentágono no início do século.

O golpe no coração do poder político, econômico e militar dos EUA provocou uma reação furiosa na sociedade americana. Ao contrário da síndrome do Vietnã, desta vez a esmagadora maioria da sociedade exigiu das suas autoridades uma ação imediata, onde quer que fosse necessário, para exterminar os seus agressores.

E o governo Bush não exigiu que insistissem. Aliás, ele não apenas atacou o Afeganistão em busca de Bin Laden e do conselho que o protegia, mas também aproveitou para derrubar Saddam Hussein no Iraque. A superioridade estratégica da máquina de guerra dos EUA esmagou o regime iraquiano e expulsou o Talibã das cidades. Já sabemos que algum tempo depois encontrou Bin Laden em uma cidade do Paquistão, e a versão oficial é que ele morreu ali.

Os Estados Unidos alcançaram os seus objetivos na Ásia Central?

A vitória rápida e esmagadora dos Estados Unidos e os seus aliados ocidentais permitiu que Bush ganhasse a reeleição. Pouca preocupação havia com a destruição do Estado iraquiano e menos ainda com a precária governança que se instalou no Afeganistão, onde os ocidentais ocuparam as principais cidades, mas nunca puderam exercer, nessas duas décadas, o controle de todo o território. Aliás, as autoridades locais que surgiram demoraram a democratizar o país, mas foram hábeis em aproveitar os abundantes recursos proporcionados pelos Estados Unidos e, embora constituíssem novas forças armadas, estas careciam de objetivos comuns, de vontade de lutar, de coesão, enfim, daquilo chamado de forças morais, que todo exército precisa.

Essas ações acabaram com o terrorismo global?

Não. A Al Qaeda se transformou em várias organizações afiliadas, como Boko Haram, Al Shabab e outras, que levaram o terrorismo para a África, especialmente na chamada área do Daesh. Na Ásia, surgiu a Al Nusrah, uma afiliada síria da Al Qaeda. E surgiu também o ISIS, o califado instalado entre a Síria e o Iraque. Periodicamente, células desse tipo de organização atacam a Europa Ocidental.

Assim, neste século, os EUA estiveram diretamente envolvidos em conflitos na Síria, Iraque e Afeganistão. Empregaram lá tropas e meios abundantes. Estão se retirando de todos esses palcos, não exatamente com glória. Acrescentemos que na região também mantém uma forte tensão com o Irã, que entre outras disputas se expressa no apoio dos aiatolás ao Hezbollah no Líbano, ao regime sírio de Assad, aos rebeldes no Iêmen e à resistência do Hamas em Gaza, na Palestina. Os EUA continuam contando, naquela região, com o apoio da monarquia saudita (onde a condição da mulher deixa muito a desejar) e, claro, com o apoio eficiente de Israel.

Todo esse xadrez complexo vai ser afetado pela retirada americana do Afeganistão. Bin Laden não está mais lá, mas o terrorismo está longe de desaparecer, não é possível dizer que a democracia reina e, pelo contrário, os xeques continuam imutáveis. Não falemos do petróleo, que para muitos é o principal atrativo das potências. É evidente que a condição das mulheres e dos direitos humanos continua no mínimo precária. Em soma, temos mais conflitos armados neste século do que na Guerra Fria, apesar da ilusão idealista de alguns que proclamam que estamos em uma época de cooperação. É perigoso confundir as ideias com a realidade e se apaixonar por elas.

Quem paga a conta?

Assim como o republicano Bush promoveu a invasão do Iraque e do Afeganistão, anos depois Trump apoiou decididamente a retirada e o seu governo negociou com o Talibã no Catar. Ele ainda questionou por que as tropas americanas ainda estavam na Coreia se a guerra lá acabou há décadas e por que tanto estava sendo gasto na defesa da Europa. Em outras palavras, a retirada americana do Afeganistão já era cantada há muito tempo, mas o que ninguém previa em Washington era que os seus aliados afegãos iriam capitular em questão de dias. Alguns culparão os serviços de inteligência, mas em última instância as decisões são políticas. Mais uma vez, fica clara a velha máxima prussiana de que a guerra nada mais é do que a continuação da política por outros meios. Se você não tiver certeza de quais são os seus objetivos numa guerra, você estará entrando em um pântano.

O presidente Joe Biden recebeu um país polarizado, onde milhares de fanáticos invadiram o Congresso e o discurso da supremacia branca permeou até a própria Casa Branca. Como estamos tentando apontar, ele também herdou uma agenda internacional com muitos problemas pendentes. O seu antecessor não limpou a casa antes de partir, pelo contrário.

Nesse quadro, muitos se perguntam se os EUA terão o consenso interno para se envolver em outro conflito externo, pelo menos no futuro imediato. Grande incógnita. A Al Qaeda se transformou e – até onde se sabe – os talibãs não são expansionistas. Eles anunciaram uma anistia e mais tolerância com as mulheres. São muitos os conflitos naquela região, onde se cruzam os interesses das potências, o petróleo e as diferenças religiosas e culturais. Nem todos pensam da mesma forma e já vemos os perigos da intolerância.

Uma nova onda de migração é previsível, mas para onde irão? Nós, sul-americanos, sabemos o que causa uma migração em massa. A resposta óbvia é que, assim como na saúde, é melhor prevenir do que remediar. A diplomacia serve para construir pontes; a política internacional quando colocada a serviço dos interesses políticos dos governantes não ajuda, como acabamos de ver.

Finalmente, a queda de Cabul também reitera mais uma vez que, no final, o poder é detido por quem controla o território. Para isso, são necessárias leis justas, pois isso gera uma população coesa. Mas também requer instituições que façam cumprir essa lei.

*Por Gaspar Gabriel – Cientista político chileno; ex-subsecretário das Forças Armadas e ex-embaixador em Cuba. Publicado originalmente em www.elmostrador.cl

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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