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O que será do mundo após a pandemia?

Perigosos conflitos e várias situações se repetem em todo o planeta impulsionando esse questionamento

O que será do mundo após a pandemia
(Crédito: Daniel Rolider/Getty Images)

O mundo vai acabar explodindo após a pandemia? A questão parece cada vez menos absurda. Israel, uma potência governada por um neofascista corrupto apoiado por uma claque de fanáticos judeus ultraortodoxos, troca tiros de mísseis com grupos islâmicos iguais, porém apoiados por uma justa reivindicação: território e Estado próprios, um direito que a história lhes concede.

Enquanto milhões de palestinos, árabes e judeus em todo o mundo defendem a solução de dois Estados e uma Jerusalém compartilhada, Israel, que tem essa solução em suas mãos, caminha para o confronto final. Que lado escolherá cada uma das grandes potências se tudo piorar? Não se trata aqui de um “conflito regional”, mas entre duas culturas que marcaram a história da humanidade; de um rico território que vai muito além de Israel e da Cisjordânia; de duas comunidades espalhadas e influentes em muitos países.

Esta manifestação do conflito árabe-israelense é apenas a mais recente e mais perigosa das várias situações que se repetem em todo o planeta. Conflitos e confrontos de fronteira; terrorismos diversos; crescimento exponencial da extrema direita, mesmo em países desenvolvidos; o trumpismo republicano à espreita nos EUA. Em termos de protestos e graves confrontos sociais, a Colômbia é hoje o exemplo mais recente, entre muitos.

Os neokeynesianos e outras correntes progressistas do pensamento capitalista se entusiasmam com a rápida recuperação de algumas economias, particularmente a dos Estados Unidos. Supondo que a praga não desfira outro golpe, se trata de uma miragem pós-pandêmica, lógica em países ricos que mantêm um mercado interno sólido. Mas esse otimismo não leva em conta a situação de crise estrutural já existente: uma oferta que cresce exponencialmente frente a mercados em decadência, produto das rápidas mudanças tecnológicas que eliminam o trabalho humano e reduzem a renda daqueles que conseguem mantê-lo. Em poucos anos, o transporte robótico acabará com todos os motoristas de ônibus, carros e trens, até mesmo de aviões. Enquanto isso, a população mundial cresce e vive mais.

Isso tende a ser encoberto por artimanhas. Em 2011, o desemprego oficial nos Estados Unidos beirava 10% da população economicamente ativa, mas Dennis Lockhart, presidente do Federal Reserve de Atlanta, declarou que se fossem consideradas as pessoas que abandonaram qualquer pretensão de encontrar um emprego, o número seria estar em torno dos 17%; mais de vinte milhões de cidadãos. Mas, além e acima disso, o que vai acontecer nos demais países, na Argentina, por exemplo? Quanto tempo pode durar a recuperação dos grandes se a economia das outras sequer se recupera e, ao contrário, piora? O aumento exponencial dos fluxos migratórios após a crise de 2008, para não falar do crime organizado, que “emprega” milhares de desesperados, dá uma ideia do problema.

Quando a situação de crise e concorrência global anterior volte a ficar em evidência, essa pandemia será mais uma anedota. Assim como a partir do século XVII a Revolução Industrial tornou necessário o republicanismo capitalista, hoje a revolução tecnológica torna necessário um socialismo democrático mundial. É provável que Keynes fosse hoje um marxista, não no sentido da “ditadura do proletariado”, mas no de “de cada um segundo a sua capacidade, a cada um segundo a sua necessidade”. O socialismo deixou de ser uma ideologia progressista para se tornar uma necessidade do próprio sistema.

Mas o capitalismo, no qual hoje as “ditaduras do proletariado” concorrem com vantagem, sempre resolveu as suas crises por meio da guerra. E então, alguém pode imaginar as consequências de uma guerra mundial hoje? A contagem regressiva está em andamento. Então, não há mais nada a fazer além de continuar orando para divindades inexistentes, ou aplicar aquilo gramsciano do “pessimismo da inteligência; otimismo da vontade”.

Por Carlos Gabetta – Jornalista e escritor

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina