Fale conosco

O que vc está procurando?

Mundo

O triplo desafio do G20

A Cúpula de Roma discutirá como acabar com a pandemia e prevenir outras no futuro, a necessidade de uma recuperação econômica inclusiva e políticas comuns para mitigar os efeitos das mudanças climáticas

O triplo desafio do G20
G20 2019 (Crédito: Kim Kyung-Hoon - Pool/Getty Images)

A Cúpula de Chefes de Estado e de Governo do G20 que se reunirá no final de outubro em Roma abrirá uma nova oportunidade para reafirmar os pontos de convergência e as ações comuns deste fórum internacional e começar a desenhar uma saída segura para esta crise global sem precedentes, um triplo desafio.

Portanto, acabar com a pandemia e prevenir outras no futuro está no topo da agenda desta Cúpula de Roma, seguida imediatamente por como garantir uma recuperação econômica inclusiva e mitigar os efeitos das mudanças climáticas que nos pressionam entre secas, inundações e incêndios florestais.

Antes da Cúpula, para discutir todas as facetas dessas questões do presente e do futuro, os Sherpas dos líderes do G20 concluiremos, em meados de setembro, o processo de discussão aberto no início do ano, que lançará as bases sobre as quais o encontro irá se desenvolver.

As propostas finais do G20 sobre saúde global, condições ambientais do planeta e reativação econômica global dependem, em grande medida, do resultado desse árduo trabalho de construção de consensos para o futuro.

Diante dos riscos que o mundo enfrenta hoje, as respostas não admitem adiamentos. Por um lado, é provável que a Covid-19 continuará a atormentar as nossas vidas e economias. Portanto, é urgente coordenar e executar um plano global de vacinação que consiga atingir 40% da população de cada país até o final do ano e 60% até meados do próximo ano, conforme proposto por algumas instituições internacionais. Por outro lado, o surgimento de novas variantes com maior capacidade de evasão às vacinas provavelmente atrase o retorno à normalidade.

Os quase quatro milhões e meio de mortes de Covid-19 confirmadas antes do final de agosto são o lamentável resultado de que o mundo não tenha sabido como responder à pandemia com um maior grau de cooperação e solidariedade. Nem, apesar das advertências, havia sido preparada ou financiada de forma adequada para prevenir e responder a tal emergência a arquitetura internacional de saúde.

Em janeiro deste ano, o G20 pediu a um Painel Independente de Alto Nível que analisasse o sistema de saúde global. Conclusão: para fechar as principais lacunas no sistema de resposta às pandemias, os recursos financeiros precisarão ser aumentados em US$ 75 bilhões nos próximos cinco anos, ou US$ 15 bilhões por ano.

Tal aumento possibilitaria a criação de uma rede coordenada de vigilância e investigação sobre doenças infecciosas, aumentaria a capacidade global de produzir vacinas e, em geral, fortaleceria os sistemas de saúde e a governança sanitária global.

Todos concordamos com o diagnóstico, mas há visões diferentes entre os países do G20 sobre como resolver cada um desses aspectos, alternativas que vão concentrar grande parte de nossas atenções nas próximas semanas.

Outras emergências

A reunião de líderes de outubro também será projetada, impreterivelmente, na Cúpula do Clima da ONU (COP26), em novembro, em Glasgow: os países do G20, juntos, produzem cerca de 80% das emissões anuais de gases de efeito estufa.

Os riscos associados às mudanças climáticas, embora se desenvolvam menos rapidamente, são tão desafiadores quanto aqueles apresentados pela Covid-19. Nos últimos dias, vimos como estas se desenvolvem em tempo real, afetando todas as regiões com ondas de calor, incêndios florestais e inundações.

Esses impactos também danificarão seriamente muitas espécies naturais e afetarão negativamente as possibilidades e condições da vida humana. Na América Latina, os impactos climáticos extremos causaram pelo menos 312 mil mortes em 2020.

É por isso que a necessidade de estabelecer metas de redução de emissões e compromissos de financiamento climático, com o grau de ambição que o mundo precisa para evitar um aumento nas temperaturas de mais de 1,5 graus centígrados em relação aos níveis pré-industriais, é uma questão central na agenda do G20 para este ano.

Mas, novamente, as decisões não serão fáceis. Há poucas semanas, os Ministros da Energia e Meio Ambiente dos 20 países consideraram um número significativo de ações necessárias para promover a implementação efetiva e plena dos objetivos do Acordo de Paris e iniciar uma transição energética sustentável em nível global nos próximos anos.

Duas questões, no entanto, permaneceram sem solução após um longo debate e serão decididas pelos líderes em Roma: a) como acelerar a descarbonização das economias e definir uma data para a sua gradual eliminação, e b) como interromper o financiamento público internacional para a energia do carvão e definir um cronograma para a eliminação gradual dos subsídios aos combustíveis fósseis ineficientes.

O G20 deve exercer a sua liderança e criar as condições necessárias que permitam a todos os países se recuperarem desta crise, através da melhoria das condições de financiamento dos países de renda média e a reestruturação da dívida a longo prazo. E, além disso, evitar o risco de recuperações assimétricas que aprofundem a desigualdade entre os países e dentro deles.

Para apresentar uma resposta comum a esses desafios, a tarefa prioritária dos Sherpas exige como condição necessária o restabelecimento de um clima de confiança que elimine as tensões geopolíticas e permita graus de cooperação como os necessários para viver em um planeta compartilhado.

Alcançar avanços mais equitativos na distribuição global de vacinas, cumprir os compromissos financeiros assumidos pelos países desenvolvidos para sustentar a transição energética dos países com menos recursos e evitar o aprofundamento das recuperações assimétricas: tudo isso seria um bom ponto de partida.

*Por Jorge Argüello – Embaixador da Argentina nos Estados Unidos. Sherpa argentino no G20.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

Mais em Perfil

Últimas Notícias