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Por que pensar em sustentabilidade em plena pandemia?

Uma reflexão sobre o porquê é importante focar na sustentabilidade, especialmente no meio da pandemia

Por que pensar em sustentabilidade em plena pandemia
Escultura Wave, de Wren Miller, feita com garrafas plásticas descartadas ​​no meio ambiente (Crédito: Toby Smith/Getty Images for BRITA)

Por que, em plena pandemia, quando o que está em jogo é não só a saúde, mas também a continuidade das nossas empresas, valeria a pena focar na sustentabilidade? Por que, se em toda a América Latina a agenda social urge e a pobreza cresce de forma explosiva, deveríamos priorizar o cuidado com o meio ambiente? Essas questões foram o ponto de partida das palestras sobre Desenvolvimento Sustentável no contexto da recente Alumni Week no IAE Business School. Por que devemos colocar este desafio em pé de igualdade com os outros?

Precisamente por causa do que nos aconteceu e ainda nos acontece. Cientistas do mundo inteiro, por meio de inúmeras publicações, já alertavam sobre o risco de uma pandemia global. Vamos esperar que aconteça o mesmo com relação aos seus avisos sobre a possibilidade de outras tragédias, em um futuro nem tão distante, relacionadas à deterioração do planeta?

Não deveríamos. As pessoas que trabalhamos em organizações, muitas de nós no exercício de tarefas de direção, temos tido a experiência de que priorizamos melhor e tomamos decisões melhores quando chamamos os desafios pelo nome e atacamos suas causas profundas.

A pandemia não pode ser exceção

A emergência sanitária e a grave crise econômica que vivemos são consequência de um vírus – o SARS-CoV-2 – que vem de uma zoonose, ou seja, uma doença produzida por uma interação ruim ou desafortunada entre animais e humanos. E tanto em um sentido quanto no outro, porque a ciência está descobrindo, nesse contexto, que também há zoonoses reversas, onde nós humanos podemos infectar outras espécies.

E por que falha essa interação? Falha precisamente no ritmo da destruição de habitats, da perda de biodiversidade e, além disso, a dinâmica é cruzada e amplificada pelas várias ramificações do problema das mudanças climáticas. Tudo isso é um terreno fértil para que o planeta fique mais vulnerável a infecções, e tenha menos capacidade de sustentar a vida e a atividade econômica em um contexto sanitário favorável.

Claro, a gestão da pandemia é ainda mais complicada em lugares como a América Latina, devido à falta de acesso à infraestrutura médica, a falta de acesso à moradia e a superlotação nas comunidades carentes, que frustra as medidas de isolamento, bem como a informalidade do trabalho, que dificulta a rastreabilidade. Tudo isso é consequência do crescimento da pobreza e da desigualdade.

Isso nos leva a repensar as formas de consumir e produzir em todos os setores da economia. Em particular, nos insta a sair da lógica de produção e consumo linear, onde extraímos energia e materiais para usar e jogar fora, e migrar para uma lógica circular onde é possível partir de uma extração mais responsável de energia e materiais, aliada a um design inteligente que permita a reciclagem e/ou a regeneração, não só do recurso em questão, mas de tudo o que está ao seu redor, incluindo as organizações e comunidades que cercam essa atividade como “stakeholders”.

Desenvolvimento

O desafio do desenvolvimento sustentável tem a ver com não comprometer nossa capacidade de criar valor no longo prazo, promovendo economias e modelos de negócios regenerativos. E, mais uma vez, apelando para a experiência de gestores em diferentes indústrias, liderando organizações de diversos portes, origens e realidades cotidianas, em busca de um olhar encarnado, embasado em quais são os desafios e também as oportunidades de gerir com foco na regeneração e na circularidade. Entre vários outros possíveis, resgato três aprendizados chave, cada um fornecendo um prisma de análise único e essencial quando se trata de “olhar para frente” e chamar pelo seu nome o desafio da sustentabilidade ambiental:

  • Devemos abraçar os paradoxos e a complexidade: As organizações devem se reconhecer como a fonte tanto do problema quanto da solução. Da mesma forma, no quadro de uma economia globalizada, onde os impactos das atividades das empresas, seja orquestrando ou participando em cadeias globais de valor, têm fontes e ramificações complexas, é necessário um trabalho colaborativo com diferentes partes interessadas nos diversos nódulos de redes geográfica e culturalmente dispersas. Isso não acontece da noite para o dia; requer esforços sustentados, enraizados na profunda convicção de que estamos indo na direção certa.
  • Devemos adotar uma mentalidade de oportunidade: Olhar para a gestão sustentável de um empreendimento como um mero centro de custos (onde, por exemplo, extrair recursos de forma responsável ou rastrear a origem dos insumos prejudicaria os lucros) constitui um viés ou, pelo menos, um olhar parcial. Hoje, vários são os fatores e tendências que desmentem esse mito, como a possibilidade de redução de custos, a sustentabilidade como motor de inovação e atração de talento, e as mudanças nas preferências dos consumidores e investidores (que buscam alternativas de consumo e investimento mais sustentáveis), entre outros.
  • O meio ambiente e a pessoa humana não são realidades dissociadas: A promoção da economia circular que implica a adoção de modelos de negócios que são alavancados na partilha, reutilização, renovação e reciclagem de recursos e produtos, criando valor agregado, tem como correlato a regeneração dos hábitos e habitats das pessoas e comunidades em torno desses recursos. Ou seja, ouvir e trabalhar pelo planeta não pode estar dissociado, mas a serviço de seus habitantes.

*Por María José Murcia – Professora da IAE Business School, Universidad Austral.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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