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Você sabe qual é a definição de capitalismo?

O sistema econômico e social que marcou o século XX passou por uma importante transformação a partir da revolução tecnológica. Os parâmetros que dividem o mundo mudaram completamente

Você sabe qual é a definição de capitalismo
Um manifestante vestido de zumbi carrega um cartaz em frente à Catedral de St Paul's em Londres, Inglaterra (Crédito: Peter Macdiarmid/Getty Images)

A palavra “capitalismo” pertence àquele grupo seleto de conceitos para os quais cada pessoa tem uma definição. Poderíamos nos reunir com diferentes leitores deste livro e discutir por horas sobre os problemas e benefícios do sistema capitalista, e cada um de nós teria uma definição diferente em mente.

O mesmo acontece com palavras como democracia”, “populismo”, “big data”, “skere”: todos usam, quase ninguém sabe o que é e não queremos perguntar. Algo assim como o sexo na adolescência.

Mas, uma vez que não podemos falar sobre algo sem defini-lo, tomaremos a noção mais básica desse conceito complexo: podemos definir o capitalismo como aquele sistema econômico e social baseado na propriedade privada dos meios de produção. Onde o principal gerador de riqueza é o capital, e onde a alocação de recursos ocorre principalmente – embora não exclusivamente – por meio do mercado. Essa seria uma definição “pura” do conceito de capitalismo. Ou seja, uma definição que busca ilustrar seus elementos mais básicos, mas que é difícil de verificar na realidade. No mundo existem poucos – ou melhor, nenhum – capitalismo em estado puro, assim como não existem democracias puras, se aceitarmos uma definição exigente. Resumindo: é um conceito tão idealizado quanto o relacionamento que você imaginou depois que alguém respondeu seu story no Instagram.

Capitalismo do século XXI

Falar sobre capitalismo pode soar muito do século XX. Na verdade, poderíamos debater se ainda estamos em uma sociedade capitalista ou pós-capitalista. E são tantas as propostas teóricas para chamar este momento que não poderiam ser resumidas nem em um livro inteiro. Para o professor da Universidade da Pensilvânia, Jeremy Rifkin, a sociedade atual está ofuscando o sistema capitalista e inaugurando a era dos “pró-comum” colaborativo (“collaborative commons”). Nessa perspectiva, e graças ao avanço tecnológico, o custo marginal de muitos produtos tende a zero, o que ataca os próprios alicerces do sistema capitalista. Resumindo: se há quarenta anos para ouvir uma determinada música tínhamos que comprar um álbum inteiro, que gerava royalties para o artista, receita para a gravadora, para a distribuidora, para o varejo e para o Estado na forma de impostos, hoje basta apenas entrar no Spotify ou YouTube para ouvi-la de graça (ou quase). Algo semelhante acontece com muitos livros e a indústria editorial, ou com os jornais. Tudo parece indicar então que caminhamos para uma era em que cada vez mais mercadorias serão gratuitas ou terão um custo que tende a zero. Mas a pergunta de Rifkin é concreta e profunda ao mesmo tempo: isso não levará ao eclipse do capitalismo?

Assumindo que ainda vivemos em um contexto capitalista, é inegável que o sistema econômico de hoje é diferente daquele que competiu com o comunismo pela liderança global no século XX. A definição de capitalismo não pode, entretanto, ser separada do momento histórico em que nos encontramos. Parece claro que não é a mesma coisa falar do capitalismo em 1890 e hoje. Esta nova fase do capitalismo contemporâneo poderia ser definida com quatro características fundamentais: individualismo, hiperconsumo, opulência e desigualdade.

Individualismo

Além do nome que queremos dar ao período de tempo em que vivemos, nossa geração é filha da modernidade. E uma das marcas distintivas dos tempos modernos em comparação com outras épocas históricas é uma nova concepção de mundo, que vê o ser humano individual como autor de seu próprio projeto de vida.

Por esse motivo, frases como “você pode ser qualquer coisa que quiser” soam ótimas para nós, mas provavelmente não fariam muito sentido para um camponês russo do século XVII. Não, você não pode fazer o que quiser, Vladimir: existem certos mandatos – religiosos, familiares ou sociais – que devem ser cumpridos para que tudo funcione como deve. A comunidade sobre o indivíduo. E isso não deveria soar maluco demais para nós. Na verdade, tanto na China quanto na Índia (que juntas representam 37% da população mundial), a comunidade continua estando acima dos indivíduos.

Mas voltando ao nosso assunto: o capitalismo, fruto do pensamento ocidental que ganhou força após o Renascimento, está imbuído de uma concepção amplamente individualista que, aliás, tendeu a se aprofundar ao longo dos séculos XIX e XX. Poderíamos dizer que o individualismo é constituído por um conjunto de valores que enfatizam a autonomia das pessoas. Como é evidente, a própria palavra é composta pelo conceito de indivíduo e pelo sufixo “ismo”, comumente usado para formar substantivos que designam doutrinas, ideologias ou escolas de pensamento. Em outras palavras, essa seria a escola de pensamento ou doutrina que destaca a importância do indivíduo.

Esta forma de ver o mundo foi gerando diferentes reações que – com métodos e resultados muito diversos – procuraram evidenciar o valor do coletivo sobre o individual, desde o socialismo utópico de Charles Fourier e Robert Owen (que se propunha a criar comunidades de produção, consumo e residência onde tudo era compartilhado, como os falanstérios), até a promessa de uma sociedade marxista sem classes, passando pelo fascismo corporativista dos anos 1930. Todos esses movimentos, muito diferentes uns dos outros, compartilham algo em comum: eles têm um viés coletivista.

Pois bem, o capitalismo do século XXI, aparente vencedor da batalha que travou ao longo do século XX contra as diferentes expressões coletivistas, desenvolveu uma tendência a aprofundar a componente individualista que o caracteriza. Apartamentos para um, motocicletas, computadores pessoais e smartphones nos ajudaram a fazer isso. O indivíduo, seu projeto de vida pessoal e sua identidade – real ou virtual – colocaram-se claramente acima da sociedade como um todo. Este assunto – embora talvez não formulado dessa forma – fez parte de uma discussão interessante que foi apresentada em 2020.

Hiperconsumo

Para o sociólogo francês Gilles Lipovetsky, no século XII nos encontramos na era do vazio, em que o capitalismo se transformou em hiperconsumismo. Ou seja, vivemos uma espécie de evolução do capitalismo onde o foco não está na produção – maximização de lucros e minimização de custos – mas sim no consumo. Nesse sentido, os trabalhadores (seja qual for o segmento) continuam a ser pilares fundamentais do sistema, mas não pelo seu papel na produção, senão na aquisição de cada vez mais bens materiais.

Assim, o sistema é sustentado pelo estímulo constante e perpétuo da demanda, o que necessariamente requer a multiplicação quase infinita das necessidades. Traduzido para o espanhol: se ninguém quiser comprar, o sistema não se sustenta, porque o excesso de estoque faria cair significativamente o preço de muitos produtos. Portanto, precisamos que as pessoas tenham vontade de comprar. E a melhor maneira de fazer isso é fazê-los acreditar que precisam dos produtos que estão sendo oferecidos a eles. Vamos pensar em todas as coisas que achamos que precisamos. Precisamos mesmo de um iPhone? Precisamos do novo tipo de jeans um pouco mais solto? Precisávamos dos jeans mais apertados alguns anos antes, quando cortamos o jeans solto que tínhamos para fazer umas bermudas? Precisamos de uma câmera de melhor qualidade que a câmera de melhor qualidade que superou a anterior, com uma qualidade surpreendentemente boa?

Façamos o exercício de pensar nas últimas cinco grandes compras que fizemos. Realmente precisávamos dessas coisas ou as compramos para nos sentirmos melhor com nós mesmos? No meu caso particular, acho que durante a quarentena comprei mais anéis de luz do que realmente precisava e investi dinheiro em uma webcam desnecessariamente melhor do que a muito boa que eu já tinha. Mas que força estranha nos leva a gastar o dinheiro que tanto suamos para ganhar em coisas que não precisamos? Por que isso acontece conosco?

O hiperconsumo, poderíamos dizer, está diretamente relacionado à felicidade. Ou pelo menos com a busca da felicidade pela via do prazer imediato, algo tão típico das nossas sociedades digitais, como o “ghosting” ou o culto à imagem nas redes sociais, que veremos mais adiante. Mas essa felicidade, que antes deveríamos chamar de prazer ou gratificação instantânea, é amiga do imediatismo (somos a geração do “clique!”), E, portanto, do efêmero. Ilustremos com um exemplo:

Tenho tido um péssimo dia no trabalho porque outra pessoa recebeu o aumento que eu tanto queria. Sinto que meu chefe não valoriza meu trabalho o suficiente e, acima de tudo, briguei com a minha parceira. Entro na internet rapidinho para clarear a cabeça e vejo um anúncio de um produto X que me fascinou e agora sinto a necessidade de tê-lo – que, afinal, eu mereço, e se não posso me dar ao luxo, por que trabalho tanto? Procuro no Mercado Livre e o aviso de “Chega hoje!” me emociona. Quando clico “comprar”, já me sinto um pouco melhor (a dopamina surtindo efeito), e agora preciso telo nas minhas mãos o mais rápido possível. Eu verifico a interface de entrega para ver o status do meu pedido algumas vezes, até que o som da campainha me enche de emoção. Prazer imediato e entrega gratuita. Tiro fotos – obviamente – do novo produto, para mostrar a um amigo ou compartilhar em uma rede social; o uso e sinto que era o que eu precisava há muito tempo, embora agora eu tenha 18 pagamentos pendentes. Um antes e um depois da minha vida que em alguns meses (ou anos, espero), vai acabar no fundo de um armário ou perdido em uma mudança. No dia seguinte, ou daqui a alguns dias, a realidade continuará a mesma: meu chefe é um idiota. Ainda suspeito que ele pensa o mesmo de mim. E com a minha parceira as coisas ainda vão mal. Prazer? Sim. Efêmero? Também.

Assim é o hiperconsumo das sociedades contemporâneas, e a tecnologia desempenha um papel importante nesse circuito circular de depressão-consumo-satisfação efêmera-depressão. Não faz muito tempo, os humanos viam anúncios em vias públicas ou na mídia com muito menos frequência do que hoje. Mas, além disso, para fazer as compras, era necessário se deslocar até uma loja física; dependendo do produto, fazer o pedido e, eventualmente, esperar – com sorte – alguns dias para recebê-lo. Algo começou a mudar na década de 1990 com o famoso “Ligue AGORA!”: Aqueles anúncios ou programas de televisão que davam certos benefícios para o consumo imediato – como “um conjunto exclusivo de coisas que você nunca vai usar na vida” – resolvendo o problema do deslocamento por meio da compra por telefone. A internet tornou as coisas ainda mais simples: a publicidade não chegará até nós quando estamos entediados, trocando apaticamente o canal da televisão, mas literalmente a qualquer hora do dia. Além disso, a publicidade é personalizada, por isso, se gostamos de comer até estourar e não sentimos culpa, não vão nos oferecer o Abdominator 3000, mas sim ofertas de desconto para o delivery de comida. E se amamos a vida fitness, provavelmente não irão nos oferecer o “Express Cooker Smokeless Grill” de segunda geração. Mas, como se essa facilidade não bastasse, não precisamos nem lembrar o número do nosso cartão de crédito (o Google faz isso por nós), e não temos que passar pelo chato processo de redigitar o nosso endereço, graças às maravilhas do preenchimento automático.

Opulência

Em 1959, um dos principais teóricos do capitalismo durante o século 20, John Kenneth Galbraith, escreveu uma de suas obras mais famosas, que intitulou “The Affluent Society” (“A Sociedade Afluente”). Nesse livro, Galbraith alertou sobre os perigos da criação constante de necessidades que o capitalismo estava gerando para sustentar os altos níveis de produção. Mas se as necessidades dos anos 1950 pareciam excessivas para ele, imagine como reagiria se descobrisse que normalizamos o pagamento de mais de mil dólares por um celular que trocamos em média a cada dois anos e que vem sem carregador.

Na sociedade afluente, Galbraith enfatiza a necessidade do equilíbrio social e de evitar – como veremos – grandes desigualdades. Podemos tolerar a continuação da pobreza enquanto um bilionário possui um carro de US$ 300.000? Uma boa resposta para isso poderia ser: sempre na história humana alguns – sejam reis, nobres, clérigos ou imperadores – acumularam grandes fortunas enquanto a maioria da sociedade vivia na miséria. Mas o curioso do momento atual é que há cada vez mais setores da sociedade para os quais a riqueza é uma meta. Ou mais que uma meta, uma necessidade.

Isso cria complexidades especiais em tempos de crise, onde aquela promessa de alfuência não pode se materializar, ou pode se materializar ainda menos do que o normal, causando conflitos, protestos, manifestações e revolta por parte da sociedade. Nada que seja estranho para nós que acompanhamos as notícias durante a década de 2010-2020, a década dos protestos ao redor do mundo e, particularmente, na América Latina.

Desigualdade

É muito comum que, nos círculos acadêmicos (e não tão acadêmicos), haja uma tendência de associar o capitalismo à desigualdade. Isso tem um peso especial na América Latina, de onde são escritas estas páginas, que tem a distinção – nada invejável – de ser a região mais desigual do planeta. O que está acontecendo com o capitalismo do século XXI? A tecnologia pode ser um igualador de oportunidades que reduza a desigualdade no mundo?

Todos nós já ouvimos as famosas cifras sobre desigualdade que costumam circular na mídia. Para citar uma delas, em 2015, pela primeira vez na história moderna, o 1% mais rico da população mundial atingiu a metade do valor total dos ativos no mundo. Para utilizar outras palavras, o Prêmio Nobel de Economia Joseph E. Stiglitz costuma usar a seguinte imagem: se colocarmos 85 dos maiores bilionários do mundo em um ônibus, esse veículo conterá tanta riqueza quanto a metade mais pobre da população mundial.

Não podemos negar então – além de qualquer julgamento de valor ou preferência ideológica – que vivemos em um mundo economicamente desigual. Mas antes de continuar, é necessário fazer dois esclarecimentos sobre esse conceito. Em primeiro lugar, é preciso dizer, porém, que esses números devem ser considerados com cautela. Toda vez que vemos um ranking dos principais bilionários do mundo, do tipo que costuma inundar as publicações da mídia ávida por cliques, veremos, por exemplo, Jeff Bezos, Bill Gates, Mark Zuckerberg ou Amancio Ortega. Todos esses empresários têm uma parte muito importante de seus ativos na forma de ações ou títulos das empresas que fundaram ou dirigem. Em outras palavras, na maioria dos casos, eles não têm esse dinheiro disponível na carteira, mas essa riqueza depende muito do valor de sua empresa. Assim, Bezos possui em 2020 mais de 54 milhões de ações da Amazon que representam uma parte importante de seu patrimônio. E algo semelhante acontece em todos os casos.

Em segundo lugar, é importante esclarecer que desigualdade não significa necessariamente pobreza. Não podemos negar, como vimos anteriormente, que vivemos em um mundo desigual. No entanto, estamos em um momento da história da humanidade em que a pobreza está em seu menor nível. Há apenas 200 anos, 8 em cada 10 seres humanos viviam em condições materiais de extrema pobreza. Hoje, esse número caiu para 2 em 10. Nunca antes na história da humanidade houve uma redução semelhante. Claro, enquanto houver apenas uma criança no mundo com deficiências nutricionais, estamos falando de uma injustiça intolerável. No entanto, e olhando a situação em perspectiva, os avanços que a humanidade fez – e em grande parte graças à tecnologia – foram consideráveis.

Os benefícios da quarta revolução industrial para o desenvolvimento são inegáveis. Só na China, existem mais de oito milhões de empreendedores que fornecem serviços e produtos por meio de plataformas de comércio eletrônico para o mundo inteiro. Na África Oriental, 45% dos adultos pagam suas contas e serviços usando telefones celulares, e, na Índia, o Aadhaar, sistema de identificação digital para os cidadãos, atingiu quase 1 bilhão de pessoas em apenas cinco anos.

Por sua vez, o escritor americano de ficção científica William Gibson disse que o futuro já está aqui, só que não está distribuído de maneira muito uniforme. Segundo a publicação MIT Technology Review, a renda média no Vale do Silício atingiu US$ 94.000 por pessoa em 2013, enquanto a média nacional nos Estados Unidos é de US$ 53.000. No entanto, estima-se que um terço dos empregos nessa região ganhem US$ 16 por hora ou menos, valor abaixo do que é necessário para sustentar uma família ali. De fato, a taxa de pobreza no condado de Santa Clara, no coração do Vale do Silício, é de cerca de 19%. Continuando com essa tendência, um relatório publicado em 2016 pelo Banco Mundial e intitulado “Dividendos digitais” explica que as contribuições das novas tecnologias para o desenvolvimento são consideráveis e tiveram um crescimento significativo nos últimos anos, mas seus benefícios não estão sendo distribuídos equitativamente ao redor do mundo. E as razões pelas quais isso acontece seriam basicamente duas. “Por um lado, uma limitação ao acesso: mais da metade da população mundial não tem conexão com a internet e, portanto, ficou fora da economia digital. Em segundo lugar, os benefícios das tecnologias disruptivas também trazem consigo diferentes riscos que muitas vezes não levamos em consideração, como lacunas regulatórias, interesses ocultos ou concentração de mercado no setor tecnológico”.

Para resolver esses dilemas, o Banco Mundial propõe democratizar o acesso à internet, aprofundar a formação em competências digitais e garantir uma concorrência mais justa no campo tecnológico. Estaremos à altura desses desafios? Ou iremos rumo a uma sociedade profundamente desigual?

*Joan Cwaik é escritor, conferencista, professor e pesquisador em tecnologias disruptivas.

*Por Adriana Lorusso – Editora de Cultura e colunista da Rádio Perfil.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Notícias, da PERFIL Argentina.

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