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Umidade ajudaria a prever o número de casos de covid-19; saiba mais!

Recorrendo à ciência de dados, pesquisadores argentinos encontraram uma correlação quase direta entre uma queda na umidade relativa e um aumento nas infecções nove dias mais tarde

A umidade ajudaria a prever o número de casos de covid-19
(Crédito: Sean Gallup/Getty Images)

Embora o SARS-CoV-2 leva já 14 meses de mortal convivência com a humanidade, a verdade é que se trata de um novo patógeno e ainda é pouco o que se sabe sobre ele. Essa falta de dados sobre o coronavírus cobre não apenas os tratamentos eficazes, mas também continuam os especialistas a discutir muitos detalhes sobre sua forma de transmissão, sua viabilidade no momento da infecção e outras variáveis cruciais para melhor compreender e controlar a pandemia. Procurando precisamente uma maneira de ajudar a prever o número de novos casos, um grupo de pesquisadores argentinos e norte-americanos descobriu que uma das maneiras possíveis de obter previsões precisas sobre a variação diária de novos casos de covid-19 está diretamente relacionada às mudanças em um elemento climático simples: a umidade relativa.

“Durante o inverno do ano passado vimos que na cidade de Buenos Aires o número de novos casos aumentava ou diminuía diariamente e várias explicações foram discutidas sobre as causas dessas mudanças epidêmicas. Ficamos imaginando se não haveria qualquer possibilidade de que essas flutuações estivessem diretamente relacionadas a algum elemento do clima”, contou a PERFIL o Dr. Emilio Kropff, físico e especialista em ciência de dados.

“Com o passar dos meses, acrescentamos informações de países europeus, onde os casos diminuíram concomitantemente com a chegada da primavera e do verão”, complementou o pesquisador do Conicet. “Ficamos imaginando se não haveria alguma variável meteorológica que pudéssemos identificar e acompanhar e que nos ajudasse a fazer uma previsão para o futuro. A ideia era desenvolver novas ferramentas que ajudassem a gerir da melhor forma possível o dia-a-dia da pandemia”.

Kropff, junto com seu grupo de trabalho, compilou os sets de dados com relatos de sintomas e casos confirmados de covid-19 e também obteve informações sobre as variações diárias do clima. Com os dois conjuntos de dados, eles começaram a executar algoritmos procurando correlações e simetrias. “Ao analisar os resultados de oito parâmetros diferentes, descobrimos que a variável que melhor se correlacionou com as mudanças no número de casos de covid-19 foi uma diminuição na umidade relativa”, resumiu Kropff.

Ajustes. Para aperfeiçoar o modelo, eles também analisaram o “atraso” entre os valores de umidade ambiente e os dias com maior número de casos. “E descobrimos que a proporção mais apertada era de cinco dias. Em outras palavras, entre certos valores baixos de umidade ambiental e um aumento no registro de novos casos de Covid-19, passavam cinco dias até atingir um pico no relato de sintomas e nove dias até a confirmação do aumento no número de casos. Precisamente esses dois períodos de retardo coincidem exatamente com os tempos de incubação do vírus em uma pessoa infectada e com o retardo médio até chegar ao diagnóstico”, explicou o especialista.

O que a equipe de cientistas do Leloir constatou é que no inverno de 2020, no entorno geográfico da Cidade Autônoma de Buenos Aires (CABA), existia uma forte correlação negativa com a humidade relativa: “À medida que diminuía a saturação de água na atmosfera, verificamos que – após nove dias – era registado um aumento de casos. Quando, por exemplo, a umidade relativa atingia extremos mínimos em torno de 40%, poderíamos conjeturar, com bom grau de certeza, que entre cinco e dez dias mais tarde haveria um aumento no número de casos de covid-19 de até 20% acima do esperado”.

Vale destacar que o efeito da umidade não explica 100% das variações no número de casos, mas em até 20%. “No entanto, mesmo assim, acreditamos que seguir esta variável pode ser mais uma ferramenta que nos ajude a gerir melhor a crise da pandemia. Por exemplo, a umidade diária poderia ser usada para ajustar no futuro as folgas do pessoal médico ou para reforçar o estoque de suprimentos médicos com antecedência”, propôs o especialista.

Ar seco e contágios

O trabalho dos pesquisadores do Leloir fornece elementos para entender melhor os mecanismos pelos quais a umidade pode moderar ou aumentar as infecções. “Foram feitos estudos sobre outras patologias respiratórias e são conhecidos três mecanismos que podem ligar a secura às infecções”, disse Kropff, que é chefe do Laboratório de Fisiologia e Algoritmos do Cérebro no Instituto Leloir.

E acrescentou: “A umidade pode influenciar o tamanho e a trajetória das gotículas exaladas (aerossóis) pelo portador do vírus. Ao expirar fluidos com aerossóis saturados de umidade no ar de um ambiente mais seco, cada gota evapora um pouco de água e se torna menor e mais leve. Se o ar estiver seco, a evaporação é maior, os aerossóis com partículas virais pesam menos e permanecem mais tempo em suspensão aérea”.

Além disso, sabe-se que a baixa umidade favorece a “sobrevivência” do vírus dentro da gota. E, finalmente, diminui também a eficácia das várias barreiras imunológicas que o sistema respiratório possui.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina