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O que é a fadiga de Zoom e como ela surgiu?

A média mundial é de dois “zooms” por dia, com uma duração estimada de 40 minutos cada para reuniões individuais e de 75 minutos para reuniões em grupo

O que é a fadiga de Zoom e como ela surgiu
(Crédito: Kena Betancur/Getty Images)

Explicada de forma muito sucinta, a fadiga da compaixão é a síndrome que causa cansaço, desânimo, desesperança, frustração, impotência, decepção, tristeza, depressão, exaustão, sentimento de solidão, abatimento, dificuldades de comunicação, problemas de introspecção, resistência a pedir ajuda e baixa resiliência. Basicamente entre aqueles que exercem profissões de assistência, cuidado e proteção: profissionais da saúde, segurança e vigilância, socorro, resgate, ajuda e apoio espiritual, de solidariedade com os mais desfavorecidos, de ONGs que lidam com casos de extrema vulnerabilidade ou em situação de violência.

O Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, quinta edição (DSM-5) – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), em português – é a atualização de 2013 do mesmo documento do ano 2000, o DSM-4, uma ferramenta de classificação e diagnóstico publicada pela Associação Americana de Psiquiatria (APA, na sigla em inglês).

Apesar da abundante bibliografia sobre o assunto, tanto científica quanto de divulgação, o DSM-5 – até onde se sabe – ainda não incluiu o “compassion fatigue”, a fadiga da compaixão, em sua extensíssima lista de patologias psiquiátricas, psíquicas e emocionais. Até o 9 de julho deste ano, o Google exibia 14.300.000 resultados em inglês e 434.000 em espanhol a seu respeito, números nada desprezíveis.

“A fadiga da compaixão ocorre principalmente entre aqueles que exercem profissões de assistência, cuidado e proteção.”

Desde o início da pandemia, em março de 2020, somou-se a esta síndrome a fadiga do Zoom (729.000 resultados em espanhol, 23.200.000 em inglês no Google), também profusamente descrita, e que consiste numa profunda decepção por uma plataforma que nos prometia comunicações quase reais, ou pelo menos virtuais, com rostos e vozes ubíquas, mas nas quais na maioria das vezes resultam ser apenas “flatus vocis”: somos solicitados gentilmente – e às vezes não tão gentilmente – a silenciar os nossos microfones e a desligar nossas câmeras para garantir uma melhor qualidade da largura de banda a quem faz um uso solitário/totalitário/dogmático da palavra, impedindo, ou pelo menos dificultando, qualquer diálogo verdadeiro e genuíno, exceto através de emoticons ridículos e caricatos ou de perguntas muito breves e sempre politicamente corretas em um bate-papo exíguo cujo destino é permanecer quase sempre sem resposta porque o tempo privilegia os oradores, tão impiedosos quanto implacáveis, todos eles possivelmente destinados a um outro “zoom” em apenas uns poucos minutos para relatar a mesma coisa que já foi anunciada.

A média mundial é de dois “zooms” por dia, com uma duração estimada de 40 minutos cada para reuniões individuais e de 75 minutos para reuniões em grupo, ou seja, 80 e 150 minutos, ou uma hora e vinte e quase 3 horas – representando, neste último caso, 66% de uma jornada de trabalho de 8 horas, que sequer existe mais (segundo o relatório Bloomberg 2021, todos estamos dedicando muito mais tempo ao trabalho online do que ao presencial: entre 10,5 e 11 horas por dia).

“Desde o início da pandemia, em março de 2020, surgiu a fadiga do Zoom”

A áspera competição entre Google Meet, Microsoft Teams ou Webex, para citar os mais usados, não parece oferecer resultados muito mais satisfatórios, vozes coercivamente silenciadas e rostos transformados em espectros fantasmagóricos e desencarnados. É verdade, e deve ser reconhecido, que quase não há meios alternativos para ficar em contato nestes tempos de Covid-19, e que estas plataformas permitem reuniões entre familiares, amigos e colegas que, muitas vezes distantes, não teriam qualquer outra possibilidade de se juntarem, bem como o fornecimento de informações relevantes aos cidadãos e às equipes de trabalho, o que serve para encorajar e animar aqueles que estejam tristes ou desmotivados. É sem dúvida o outro lado da fadiga do Zoom, os felizes encontros e reencontros pelo Zoom, a era dos contatos e do estar em contato, o “newdeal”, o novo contato/contrato da presumida e presunçosa proximidade, até pouco tempo atrás impossível e impensável.

Mas, como já escreveu certa vez com sabedoria e argúcia o professor Albarello, o contato, a comunicação e a comunhão estão longe de ser a mesma coisa. Talvez seja extremamente injusto esperar que a empresa fundada por Eric Yuan em 2011 nos ofereça essa gama tão ampla de funções. Talvez por isso tenha sido e continue sendo justamente essa a promessa da marca: “nos manter conectados”. Não mais. Nesse caso, não estaríamos tão longe dos dolorosos sintomas que caracterizam a fadiga da compaixão e seria muito saudável se o futuro DSM-6 contemplasse a inclusão de ambas síndromes em seu ainda extraordinariamente elitista, restritivo e míope dicionário nomenclador, mais atento aos transtornos psiquiátricos-bioquímicos-organicistas do que aos psicoemocionais e espirituais.

*Por Carlos Alvarez Teijeiro – Professor de Ética da Comunicação, Escola de Pós-Graduação em Comunicação, Universidade Austral.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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