GUERRA NA UCRÂNIA

Banido pelo ocidente, setor de TI da Rússia toma postura defensiva

Fuga de cérebros russos e êxodo de companhias ameaçam o setor tecnológico que busca alternativas para manter o mercado nacional de softwares funcionando.

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Russoft estima que 40.000 profissionais tenham deixado a Rússia desde o início da guerra (Crédito: Canva Fotos)

O setor de Tecnologia da Informação (TI) da Rússia entrou em modo defensivo depois das sanções aplicadas ao país como consequência da guerra na Ucrânia.

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Rússia recebeu sanções administrativas após invasão da Ucrânia (Crédito: Agência Brasil)

Os últimos nove meses foram tumultuados para o setor que passou três décadas em um desenvolvimento silencioso. Agora, as sanções e o êxodo em massa de multinacionais limitaram o acesso da indústria ao capital estrangeiro e tecnologia.

Ninguém realmente sabe o que o amanhã trará” diz Anastasia, web-designer de 24 anos de Moscou, que falou à emissora AlJazeera. Dezenas de milhares de especialistas de TI russos já deixaram o país desde o início do conflito.

O presidente russo Vladimir Putin já admitiu que o setor enfrentará dificuldades “colossais” enquanto procura conter os prejuízos das sanções internacionais. Ainda assim, alguns especialistas da indústria defendem que a crise pode apresentar uma oportunidade para as companhias de tecnologia russas para reconquistar o mercado interno e diminuir sua dependência do ocidente na área tecnológica.

Histórico

Os Estados Unidos e outros 37 países impuseram controles de exportação que restringiram o acesso da Rússia a tecnologias estratégicas. Além disso, a equipe do presidente norte-americano Joe Biden vetou mais de doze empresas e instituições de tecnologia russas.

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As sanções financeiras também dificultaram o desenvolvimento do setor de TI. As medidas dificultaram que as companhias pudessem enviar ou receber pagamentos estrangeiros. Sanções logísticas encareceram e complicaram o processo de envio de hardwares estrangeiros para a Rússia.

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Microsoft, IBM, Oracle, Intel, SAP, Cisco Systems, Adobe e Nokia são algumas das gigantes da tecnologia que deixaram a Rússia (Crédito: Canva Fotos)

Essas dificuldades e as ameaças à reputação instauraram um grande êxodo das gigantes de tecnologia da Rússia. Microsoft, IBM, Oracle, Intel, SAP, Cisco Systems, Adobe e Nokia são algumas das empresas que já deixaram o país.

Anastasia ainda disse que conseguia um bom dinheiro fazendo produções para companhias ocidentais. A tarefa de buscar alternativas nacionais se tornou difícil diante de companhias russas que não estavam dispostas a pagar o mesmo valor que as estrangeiras.

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Mesmo com as dificuldades, os especialistas da área estão gradualmente se adaptando ao novo modo de trabalho sob sanções. “No início, parecia que todo mundo iria embora e não conseguiríamos fazer nada, mas estamos encontrando modos de continuar trabalhando e vivendo como antes” diz.

Fuga de cérebros

As empresas de tecnologia não foram as únicas a deixar o país. A Russian Association of Electronic Commerce (Associação Russa de Comércio Eletrônico) que 50.000 a 70.000 profissionais da área de TI saíram da Rússia nas primeiras semanas de guerra. A Russoft (associação de de empresas de software da Rússia, Ucrânia e Bielorrússia) estimou que o êxodo foi de 40.000 especialistas.

A queda no número de profissionais iniciou a preocupação sobre uma possível fuga de cérebros, isto é, a emigração em massa de profissionais com conhecimentos e aptidões técnicas sobre determinado tema. Mesmo antes da guerra, a preocupação sobre o desfalque na área já era grande.

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O Kremlin já tentou conter a drenagem de profissionais de TI oferecendo benefícios a quem ficasse, incluindo adiamento do serviço militar, isenção de imposto de renda, melhores índices hipotecários e fundos adicionais para bolsas.

De acordo com Valentin Makarov, diretor da Russof, o estado “é ruim, mas não é crítico”, declarou ao AlJazeera. Makarov diz ainda que a maior parte dos especialistas em TI que deixou o país ainda trabalha para companhias russas. Entre as companhias com as quais ele mantem contato, a maioria pôde manter sua equipe.

Anastasia é menos otimista. “O que ouço constantemente dos meus amigos que foram embora é que já não se sentiam seguros na Rússia. A atmosfera de nervosismo que se formou não é condutiva ao trabalho” diz. A profissional destaca ainda que os benefícios oferecidos pelo governo são insuficientes para conter preocupações fundamentais sobre o futuro do país.

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O futuro

A resposta de alguns figurões da tecnologia russa ainda é que o setor de TI do país pode superar estes desafios. Em uma conferência em Moscou na última semana, os desenvolvedores de tecnologia russos mais proeminentes discutiram sobre como este processo de êxodo está estimulando as companhias russas a desenvolver suas próprias soluções.

Marakov, que mediava o painel, declarou “O governo e as companhias de TI precisam tomar uma decisão: vamos nos limitar a apenas substituir ou apoiar as companhias de software que partiram ou vamos nos tornar líderes em uma nova ordem tecnológica emergente.”