A B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações, nesta segunda-feira (26), após uma forte queda dos ativos brasileiros depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A ferramenta não era acionada no Brasil desde março de 2020, quando a pandemia de Covid-19 provocou fortes oscilações nos mercados financeiros.
Como funciona o circuit breaker?
Na prática, o circuit breaker cria uma pausa nas negociações para impedir que uma onda de vendas continue avançando sem interrupção. Durante esse intervalo, então, investidores ganham tempo para reavaliar preços e decisões antes da retomada das operações.
A B3 estabelece diferentes níveis para esse tipo de paralisação. Quando o Ibovespa recua 10% em relação ao fechamento anterior, a Bolsa pode interromper as negociações por 30 minutos. Se a baixa alcançar 15% depois da retomada, a suspensão passa a durar uma hora. Já uma queda de 20% permite que a B3 determine uma nova interrupção.
Nesta segunda-feira, porém, a instituição adotou um procedimento excepcional. Antes mesmo da abertura do mercado à vista, as indicações de preço das ações apontavam para uma desvalorização superior a 20%, o que levou a B3 a antecipar a suspensão.
“Um novo circuit breaker será acionado caso ocorra uma nova oscilação de baixa de 20% em relação ao preço de fechamento do dia anterior. A duração da paralisação será de 15 minutos, com reabertura em leilão de 5 minutos”, informou a B3, em nota enviada à ‘Folha de S.Paulo’.
Por que o mercado reagiu à vitória de Lula?
Parte dos investidores havia montado suas posições contando com uma vitória de Flávio Bolsonaro e com a expectativa de uma política fiscal mais restritiva. O resultado das urnas obrigou o mercado a rever rapidamente esse cenário.
Entre as principais preocupações estavam o rumo das contas públicas, a trajetória da dívida e a possibilidade de juros permanecerem elevados. Empresas mais dependentes de crédito, especialmente dos setores de varejo e saúde, sofreram maior pressão.
Ademais, o movimento atingiu o câmbio e os juros futuros. O dólar avançou com força, enquanto as taxas dos contratos de juros subiram. Algumas exportadoras, por outro lado, conseguiram se beneficiar da valorização da moeda norte-americana.
Para Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, a reação refletiu a diferença entre aquilo que parte do mercado esperava e o resultado efetivo das eleições. “Esse movimento defensivo dos agentes financeiros ocorre devido a um descompasso de expectativas do mercado em relação ao resultado das urnas, forçando os operadores a buscarem o dólar como refúgio enquanto aguardam sinalizações claras sobre as futuras diretrizes econômicas e fiscais do país”, afirmou em entrevista à ‘Folha de S.Paulo’.
Circuit breaker já foi usado em outros momentos de crise
Criado em 1997, o mecanismo já entrou em ação em períodos de forte instabilidade econômica e financeira. Entre os episódios estão a crise asiática, a turbulência provocada pela Rússia no fim dos anos 1990, a crise financeira internacional de 2008 e o chamado Joesley Day, em 2017.
Antes desta segunda-feira, o acionamento mais recente havia ocorrido em março de 2020. Naquele mês, o avanço da Covid-19 e a incerteza sobre os efeitos econômicos da pandemia levaram a Bolsa a interromper as negociações seis vezes em cinco pregões.
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