Aeronaves sobrevoam espaço aéreo de Taiwan

Este episódio se insere no contexto da rivalidade estratégica entre uma potência em ascensão e uma potência em declínio que lutam pela primazia na balança de poder mundial

Aeronaves sobrevoam espaço aéreo de Taiwan
Taiwan, China (Crédito: An Rong Xu/Getty Images)

Nos últimos dias, a imprensa internacional destacou que um número recorde de aeronaves militares chinesas entraram na chamada “Zona de Identificação de Defesa Aérea” (ADIZ) de Taiwan, no que é considerada a maior intrusão de espaço aéreo desde que Taiwan começou a publicar dados em setembro de 2020. A especialista do “International Crisis Group”, Amanda Hsiao, diz que, com essa significativa demonstração de força, Pequim busca assegurar à sua frente interna que tem a situação no Estreito sob controle, em resposta ao que é considerado um esforço concertado dos Estados Unidos e outros governos para fortalecer a independência de fato de Taiwan.

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Este episódio se insere no contexto da rivalidade estratégica entre uma potência em ascensão e uma potência em declínio que lutam pela primazia na balança de poder mundial. Muitas das democracias ocidentais consideram que a China representa um desafio de segurança tanto para essas democracias quanto para a ordem mundial, o que poderia redefinir a ordem internacional hegemônica estabelecida desde o fim da Guerra Fria.

No entanto, a meu ver, um elemento-chave que diferencia o comportamento da China da ex-União Soviética é que Pequim não busca exportar a revolução ou subverter outros sistemas políticos. Por exemplo, na África e na América Latina a sua presença é essencialmente econômico-comercial e os seus instrumentos são basicamente financeiros, como a Iniciativa do Cinturão e da Rota (“Belt and Road Initiative”, ou BRI, em inglês) e o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (“Asian Infrastructure Investment Bank”, AIIB) ou acordos comerciais como a Associação Económica Integral Regional (“Regional Comprehensive Economic Partnership”, RCEP) ou o anunciado acordo de livre comércio com o Uruguai, entre outros.

A China está realizando um programa de construção naval que, nos quatro anos entre 2014 e 2018, colocou em operação mais navios do que o número total disposto pelas marinhas alemã, indiana, espanhola e britânica combinadas, e está empenhada em controlar as rotas marítimas cruciais que rodeiam a costa de China. No entanto, a sua presença militar, além do Mar da China Meridional, é pequena (tem apenas uma base naval em Djibouti), enquanto os Estados Unidos têm dezenas de bases muito grandes no exterior (Coréia do Sul, Guam e Okinawa e Yokosuka, no Japão).

A China é hoje o segundo país que mais recursos investe em gastos militares, depois dos Estados Unidos, e tem demonstrado capacidade técnica para desenvolver indústrias de alta tecnologia, principalmente

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em inteligência artificial, espionagem cibernética e espaço sideral, que muitas vezes estão relacionadas com fins militares e que determinarão a distribuição futura da economia e do poder militar. No entanto, as suas forças armadas continuam atrasadas quando se trata de tecnologia militar nuclear: Pequim tem apenas entre 270 e 350 ogivas nucleares, só pouco mais do que as forças armadas francesas. De acordo com o último relatório do SIPRI, os gastos militares da China em 2020 representaram apenas um terço daqueles dos Estados Unidos.

O recente anúncio da formação de uma aliança entre a Austrália, o Reino Unido e os Estados Unidos (AUKUS), a reativação do Quad e outras medidas tomadas pelos países ocidentais foram imediatamente interpretadas como uma ferramenta para neutralizar a influência da China no Indo-Pacífico e para resistir ao crescimento das suas capacidades militares e nucleares.

Até agora, as declarações e ações da China no cenário mundial emitem sinais mistos sobre o futuro das relações internacionais e da ordem mundial global. No entanto, acredito que a China buscará estabelecer algum tipo de ordem associativa à ordem liberal existente, composta por uma ordem econômica aberta, uma ordem política relativamente mais igualitária e uma abordagem cooperativa em questões de segurança. Não acho que a “armadilha de Tucídides” se tornará realidade. Ou pelo menos isso espero.

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*Por Ricardo Arredondo – Professor de Teoria e Prática Diplomática e Consular (UB).

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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