China e Rússia fortalecem laços sobre a política externa dos EUA

*Por Patricio Giusto – Diretor do Observatório Sino-Argentina. Professor da Especialização em China Contemporânea da UCA. Mestre em Estudos da China e Professor Visitante na Universidade de Zhejiang (China)

China e Rússia fortalecem laços sobre a política externa dos EUA
Vladimir Putin e Xi Jinping (Crédito: Ed Jones – Pool/ Getty Images)

Rússia e China elevaram sua aliança estratégica a um novo nível e assim fortalecem laços, após a recente visita oficial de Vladimir Putin a Pequim. Durante o conclave, o presidente chinês Xi Jinping foi enfático ao expressar que a associação com Moscou “não tem limites”. Baseia-se em inúmeros interesses geopolíticos e econômicos compartilhados, diante de um Ocidente cada vez mais hostil a ambas as potências. Paradoxalmente, a agressividade e o expansionismo dos Estados Unidos deram um impulso decisivo à aliança histórica, que inclui também outros atores.

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A China concedeu à Rússia o mais alto nível de integração dentro das diferentes categorias de associação com países terceiros. Este é um status que só pode ser comparado ao que concedeu ao Paquistão, seu outro grande parceiro regional. A próspera aliança sino-russa inclui não apenas ampla cooperação econômica (especialmente energia), mas também uma estreita coordenação em questões de segurança regional e, eventualmente, defesa mútua contra agressões externas. Este último elemento é atualmente crítico, tendo em conta a situação delicada na Ucrânia e a crescente tensão no Mar da China Meridional. Se um conflito armado irromper em qualquer um dos casos, supõe-se que haverá algum tipo de envolvimento e cooperação militar sino-russa. Nesse sentido, o presidente Xi apoiou explicitamente a posição russa na Ucrânia.

A aliança sino-russa não se esgota nos sólidos interesses compartilhados entre Pequim e Moscou, diante de um novo contexto mundial marcado pelo declínio dos Estados Unidos, pela crise das democracias liberais e pela multipolaridade. Existem outros atores regionais e extrarregionais que coincidem com os interesses e preocupações do eixo sino-russo. Em primeiro lugar, os países da Ásia Central, ex-membros da URSS. Essas nações são beneficiárias – para não dizer dependentes – da segurança russa e do expansionismo econômico chinês. A saída da recente crise no Cazaquistão foi uma forte demonstração nesse sentido. Da mesma forma, o quadro multilateral que reflete essa simbiose geopolítica regional é a crescente Organização de Cooperação de Xangai, que também inclui vários atores importantes no Oriente Médio que não poderiam sobreviver sem armas russas e compras de energia chinesas.

Fora da região, entretanto, há um interesse renovado dos estados europeus, africanos e latino-americanos em aprofundar os laços com Pequim e Moscou, por razões semelhantes às das nações da Ásia Central e do Oriente Médio. A maioria deles são países sob governos abertamente autoritários ou com democracias e economias fracassadas, ávidos por assistência financeira e por ganhar autonomia fora das esferas de Washington.

Diante disso, a Casa Branca aposta em uma retórica bastante hipócrita, com foco na democracia e nos direitos humanos, apelando essencialmente para administrar medidas punitivas aos “bandidos” deste mundo. Enquanto isso, Pequim continua a aumentar sua rede internacional de alianças sob o guarda-chuva irresistível de cooperação que é a Nova Rota da Seda. E Moscou celebra esse expansionismo chinês, que é funcional aos seus interesses regionais e globais.

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No momento, os programas Build Back Better dos Estados Unidos e o Global Gateway da União Europeia são insinuações tímidas que mal ensombram a iniciativa chinesa. Joe Biden tem mantido uma linha de política externa quase idêntica à de Donald Trump, com resultados previsíveis escassos. É claro que, sem mais esforços econômicos e diplomáticos para revalidar sua histórica rede de aliados, os Estados Unidos continuarão a promover uma maior integração sino-russa que precipitará ainda mais o declínio dos EUA.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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