Visão política

Roberto Mangabeira: “Não entendo por que a plutocracia brasileira não quer Lula”

O ex-ministro de Lula foi entrevistado por Jorge Fontevecchia e deu sua opinião sobre a eleição desse ano, que será realizada em outubro.

Roberto Mangabeira Não entendo por que a plutocracia brasileira não quer Lula
Roberto Mangabeira (Crédito: Reprodução/ Twitter)

Com a aproximação das eleições no Brasil, Roberto Mangabeira, ex-ministro de Assuntos Estratégicos (durante o governo Lula) e também filósofo, falou no programa de rádio, Modo Fontevecchia, sobre a atual presidência e como os dois principais candidatos estão se preparando: Jair Bolsonaro e Lula da Silva.

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Faça-nos um resumo para iniciantes do mapa político que existe hoje no Brasil. Quais são as chances de Lula voltar a ser presidente ou de Bolsonaro conseguir sua reeleição?

É uma situação muito peculiar. São dois candidatos diferentes, ambos com uma ótima imagem eleitoral. Mas, o mais grave é se os dois projetos do governo têm pouco a ver com os problemas reais no país.

E quais são esses problemas reais?

Não há problema principal, mas é um problema que compartilhamos com a Argentina. Sinceramente, a área produtiva está deteriorada. Vivemos em uma época onde a economia do conhecimento e uma nova vanguarda produtiva, mas ao invés de construir uma forma de economia do conhecimento adequada, repudiamos em nossa paisagem as questões da agricultura e pecuária.

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O problema fundamental de nosso país não é a desigualdade, embora seja um grande problema, mas a mediocridade. O Brasil está apoiando a mediocridade e essa seria a principal tarefa de um futuro governo. Fornecer os instrumentos para dar soluções e oferecer oportunidades, para dar dinamismo empresarial. Temos os instrumentos para sair da mediocridade, mas o que não temos é o projeto, esse é o problema.

Roberto, o que muda o contexto internacional da guerra na Ucrânia para países como Brasil e Argentina?

Neste momento, estamos isolados do mundo. O Brasil seria uma grande potência ambiental, ou uma potência revisionista de alta ordem, mas desce no momento em que se aproxima da guerra quando na realidade ainda não sabemos estabelecer a governabilidade global sem um governo mundial. O mundo precisa ser governado, mas não impondo um governo mundial, e o que acontece é que potências médias como Brasil e Argentina podem ter um papel importante e dar espaço para experimentos institucionais. Teríamos que abrir um diálogo constante de consenso, um novo paradigma de produção que aproveite cada região do país e rompa com o estranho enciclopedismo e tenha uma educação analítica e dialética que treine nossas mentes.

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Esse Lula, que assumiu o cargo no início do século com 20 anos mais novo, e esse, com quase 80, que pode assumir agora, aprendeu alguma coisa, é diferente, pode ter alguma expectativa maior ou, ao contrário, ele perdeu a força da juventude?

Lula e Bolsonaro são basicamente a mesma coisa, então não entendo porque a plutocracia brasileira não quer Lula. São a combinação da busca pela confiança do mercado financeiro com a pobreza. Lula já mostrou o que faz no governo, chamando os banqueiros para governar o país e distribuir para os pobres. Esse é um projeto perfeito, mas a razão pela qual as elites não aderem é um mero conceito popular: Lula é vulgar e eles estão procurando um político mais comportado.

GA PAR

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*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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