‘Entre os cidadãos e a maioria dos políticos, não existe uma lacuna, mas um abismo’, afirma Jaime Duran Barba

A governança tornou-se difícil, quase todos os presidentes perdem sua popularidade poucos meses após tomarem posse. As mobilizações contra eles não têm lideranças, ideologias ou objetivos claros, nem são causadas por agentes externos, como foi o caso na Guerra Fria

‘Entre os cidadãos e a maioria dos políticos, não existe uma lacuna, mas um abismo’, afirma Jaime Duran Barba
Local de votação no Chile para as eleições presidenciais de 2021 (Crédito: Marcelo Hernandez/ Getty Images)

Nos últimos meses estudamos em profundidade alguns dos processos eleitorais ocorridos na América Latina. Após o início da pandemia, algumas velhas hipóteses sobre a transformação das pessoas e da política provocadas pela terceira revolução industrial são fortemente confirmadas.

Publicidade

Os cidadãos vivenciam mudanças porque vivem cada vez mais na realidade virtual, enquanto a maioria dos políticos, formados no antigo paradigma, não o entende e sofre grandes retrocessos. O que existe entre um e outro não é uma lacuna, mas um abismo que cresce a cada dia.

Nos últimos dez anos, alguns acadêmicos discutem o fenômeno em diversos fóruns, apesar da indignação de quem tem uma visão estática da realidade. O fato é que tudo mudou radicalmente nessas duas décadas e a política não pode estar alheia à realidade.

Com a revolução tecnológica, as pessoas ganharam uma força e uma autonomia que antes não tinham, ao mesmo tempo em que as instituições da democracia representativa e sua lógica entraram em crise.

As eleições realizadas nos últimos meses produziram resultados não esperados pela maioria dos analistas. É interessante notar que embora isso aconteça o tempo todo, em toda parte, há muitos políticos e analistas que não entendem.

Publicidade

Entre os cidadãos e a maioria dos políticos, não existe uma lacuna, mas um abismo

Há três meses, ninguém acreditava que José Antonio Kast e Gabriel Boric iriam para o segundo turno nas eleições para presidente do Chile. Nem que Franco Parisi chegasse em terceiro lugar, candidato que não pôs os pés em território nacional durante toda a campanha. A Concertación e a Alianza de direita, as duas coalizões que governaram o país nas últimas décadas, ficaram em quarto e quinto lugar.

As contradições entre o imaginário dos líderes políticos e a realidade têm graves consequências. Muitos deles se dedicam mais a lutar contra fantasmas do que a entender a vida comum das pessoas.

Publicidade

Kast acreditava que havia obtido o primeiro lugar por suas posições ideológicas de direita e manteve uma campanha anticomunista, que empolga seus apoiadores mais ferrenhos, mas fica aquém dos eleitores que precisa atrair.

O tempo passou. Pinochet deixou o poder em 1990, quando terminou a Guerra Fria. 43% dos chilenos, com menos de 30 anos, nem nasceram nessa época, e os que têm 45 anos têm apenas uma memória borrada desses acontecimentos. Aqueles de nós com mais de 50 anos ainda temos fortes sentimentos sobre o que aconteceu e ainda acreditamos que as pessoas deveriam escolher entre a esquerda e a direita. No Chile, somos 12% da população.

Pesquisas que temos estudado nos últimos meses na Argentina, México, Chile, Peru, Colômbia e Equador dizem que aqueles que gostariam que o próximo presidente fosse de esquerda estão entre 10% e 15% da população. A grande maioria dos eleitores não está interessada no assunto em nenhum dos países.

Publicidade

Muitos se dedicam a lutar contra fantasmas e não entenderão a vida comum das pessoas

Teorias da conspiração não fazem sentido. Enganam-se os dirigentes que acreditam que Cuba e Maduro promovem agitação e candidaturas de esquerda. Isso é impossível. As pessoas têm mais bom senso. Ele sabe que Maduro mal está de pé. Acabou o barril de petróleo de mais de cem dólares com que Chávez interveio na política dos países de língua espanhola enviando malas com dólares e jogando dinheiro pela janela com as missões. Atualmente, um quarto dos venezuelanos fugiram do país porque não têm o que comer. Com que recursos poderia intervir em outros países?

Já não existe mais a Cuba que colocou governos em Angola, Eritreia, Etiópia, que intervieram na Namíbia e treinaram e financiaram grupos armados em toda a América Latina. Conseguiu fazê-lo quando a União Soviética o financiou, porque era parte de seu projeto revolucionário. Cuba faliu. Recentemente, quando o governo argentino enviou uma delegação para obter vacinas revolucionárias, encontrou um governo solicitando a doação de seringas descartáveis.

Publicidade

É igualmente absurdo acreditar que o imperialismo conspira contra o socialismo nacional e pop e proíbe a entrada de vacinas da Pfizer para que aquela empresa não coloque cafeterias em nossas geleiras. Eles têm negócios mais importantes, não querem abrir hotéis na Patagônia.

O governo de Cristina acreditava que o pagamento dos fundos abutres seria decisivo nas eleições norte-americanas. Ninguém mencionou o evento e nenhum dos candidatos sequer falou da Argentina em toda a campanha. A política é explicada pelo que acontece dentro dos países e não por teorias da conspiração.

Na sociedade pós-moderna, até mesmo símbolos e rituais acabaram liquefeitos. Em O Desaparecimento dos Rituais, o filósofo Byung-Chul Han afirma que os rituais têm sido, ao longo da história, um importante elemento de identidade e continuidade das culturas. A percepção simbólica do rito tem a ver com a permanência das comunidades. Seu desaparecimento ou enfraquecimento ajuda as ideias a perderem consistência e os símbolos perdem seu significado original.

Ele cita uma frase de Antoine de Saint-Exupéry: “Os ritos estão para o tempo, o que a morada está para o espaço”. Com o desaparecimento dos rituais, o tempo se desintegra em uma sucessão de presentes não manuseados. Não paramos para pensar, porque priorizamos gastar e consumir. A reflexão estratégica tem pouco espaço no redemoinho ativista da maioria dos políticos.

Quando Kast defendeu Pinochet no primeiro turno, não falou apenas de um governo sofrido pelos chilenos, mas de um símbolo que pode ter outras conotações.

No Peru, Castillo venceu porque as pessoas estão cansadas de velhos políticos

Dizer “politicamente incorreto” provoca reações negativas na imprensa e no meio acadêmico progressista, mas também chama a atenção do cidadão comum para um candidato que parece diferente.

Abundam os exemplos de “diferentes” que fizeram seu caminho “errado” e triunfaram sobre as provocações do círculo vermelho. Citemos apenas Donald Trump, Jair Bolsonaro e Volodímir Zelenski, casos icônicos deste fenômeno.

As imagens foram redefinidas por um longo tempo, às vezes contradizendo seu significado original. Vários movimentos gays europeus usaram a imagem de Che Guevara em suas camisas, apesar de ele ter sido um dos políticos mais homofóbicos do século passado.

Algo semelhante acontece com a lenda sobre a relação do rock com o diabo, iniciada com Sympathy For The Devil dos Rolling Stones. Em sua primeira apresentação é possível ver Lennon, Yoko Ono e outros personagens da época disfarçados, fazendo caretas, celebrando a simpatia com um demônio que era um engraçado símbolo de transgressão. Não tinha nada a ver com o malvado dos Malleus Maleficarum, que adotava formas femininas para copular com machos e obter o sêmen necessário, para posteriormente adotar formas masculinas e desgraçar as bruxas.

Os Rolling Stones não eram demoníacos, mas brincalhões.

Provavelmente muitos eleitores queriam votar em Kast para defender um padrão de vida de que gostavam e não por causa de suas brigas com fantasmas.

Algo semelhante aconteceu no Peru. Um ano antes das eleições, conversamos com líderes e personalidades do país. Alguns achavam que era hora do retorno da Ação Popular e do pensamento de Belaúnde Terry, outros que era hora do APRA. Não faltaram os que supunham que o ‘Fujimorismo’ voltaria. A atenção da imprensa estava voltada para as disputas entre as lideranças das formações políticas. Ninguém falava de Pedro Castillo, nem do que acontecia às pessoas.

O que aconteceu? Os textos de Marx ou Mariátegui foram vendidos em massa? Foram organizados seminários para doutrinar os quase 9 milhões de peruanos que votaram em Castillo? Qual foi o discurso que convenceu tanta gente?

A maioria apoiava Castillo porque estava cansada dos velhos partidos. Ele votou contra a sociedade estabelecida, contra a tecnologia e o progresso. Muitos votos vieram das províncias montanhosas do sul, que mantêm valores mais antiquados, contra Lima e as cidades progressistas na costa. Nada muito diferente do que Francis Fukuyama estudou nas últimas eleições norte-americanas: o confronto entre um ‘cinturão de ferrugem’ conservador que apoia Trump, porque se sente afetado pelo avanço tecnológico da terceira revolução industrial, e as populações mais liberais das cidades.

A governança tornou-se difícil, quase todos os presidentes perdem sua popularidade poucos meses após tomarem posse. As mobilizações contra eles não têm lideranças, ideologias ou objetivos claros, nem são causadas por agentes externos, como foi o caso na Guerra Fria.

Quando um candidato “errado” parece diferente, ele chama a atenção das pessoas.

A maioria das pessoas tem opiniões e quer comentar sobre tudo. Fala com outras pessoas que encontra através da rede, adere a sociedades horizontais que acabam por ser mais importantes para ele do que partidos e ideologias. Eles acham que os políticos estão longe de sua vida.

Eles não têm suas preocupações, brigam entre si, buscam cobranças, em muitos casos têm um discurso duplo que se evidencia por morar na vitrine da rede.

Em reuniões com a comunicação do governo ou equipes de campanha em vários países, fizemos um experimento: pegamos um relógio e registramos quanto tempo eles passam elogiando o líder, quanto tempo eles gastam comentando o que os oponentes e a imprensa dizem, quanto tempo lembrando suas crenças de qualquer ordem, revolucionária, reacionária, xiita ou qualquer outra, e quanto refletir sobre o que as pessoas comuns sentem, suas necessidades, o relacionamento que têm com o candidato ou o presidente.

O tempo gasto com as pessoas é sempre mínimo. Normalmente ficam presos a um discurso solipsista típico da velha sociedade, quando os eleitores eram obedientes e a única coisa que importava eram as paixões e crenças dos patrões. Quando conseguimos que uma equipe de campanha gaste pelo menos 20% de seu tempo pensando nos eleitores comuns, geralmente vencemos.

* Por Jaime Duran Barba. Professor da GWU. Membro do Clube Político Argentino.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina