A arte no contexto da guerra

Quando a Guerra Fria entra em cena

*Por Diego Barros – Sociólogo. Especialista em questões culturais.

Quando a Guerra Fria entra em cena
(Crédito: Canva Fotos)

“Em algum país totalitário, em meados do século XX…”, assim começa a didascália que preside o libreto de “O Cônsul”, a ópera de Gian-Carlo Menotti (1911-2007) estreada em 1950 e que acaba de ser encenada no Teatro Colón como segundo título de sua temporada oficial.

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Sendo este aviso contextualizador, é impossível ao leitor ou ao espectador vê-lo, a começar pelo seu jantar de abertura, rápida e brutalmente imerso neste drama trágico. Poucos segundos após a cortina se levantar, John Sorel – também brutalmente perseguido pela polícia secreta – corre rapidamente para se refugiar em sua casa onde mora com sua esposa Magda e seu filho pequeno. Depois de invadir a casa e assim que Magda consegue esconder o marido, o policial secreto sombrio se dirige a ela com um discurso que não pode deixar de ressoar assustadoramente em qualquer ouvido ainda sensibilizado pela experiência autoritária: “Sra. Sorel, seu marido tem muitos amigos e estamos interessados ​​neles; queremos saber seus nomes. Sim, podemos deixá-la em paz desde que nos ajude. Sim, você pode nos ajudar a encontrar os inimigos do Estado”.

Se a didascália cumpre a função de localizar o leitor de um texto teatral espaço-tempo, na contextualização desse drama -por vezes- sufocante, tudo o que se condensa no ano de sua concepção não pode ser evitado.

Por um lado, 1950 inevitavelmente se refere a qualquer um dos regimes que, juntamente com o próprio soviético, funcionaram sob a égide do stalinismo e seus sufocantes sistemas de controle sobre as liberdades de seus cidadãos. Sem abandonar o mundo musical da época, em 1946 ocorreu o restabelecimento pelo governo soviético do compositor Dmitri Shostakovich, depois que o próprio “Grande Maestro” escreveu de próprio punho uma condenação explícita da arte do compositor contrária à valores do “realismo socialista”, depois de assistir pessoalmente a uma apresentação de sua ópera Lady Macbeth de Mtsensk. A partir desse evento e até sua reabilitação pública, a vida -e também as criações de Shostakovich- seriam permeadas por um estresse pós-traumático doentio e uma síndrome de perseguição, não muito distante das aventuras dos protagonistas de “O Cônsul”.

“A história de João e Magda não está longe daqueles que sofreram totalitarismo.”

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Mas, ao mesmo tempo, é fundamental ter em mente que, na época da concepção de “O Cônsul”, Menotti era um compositor ítalo-americano que vivia nos Estados Unidos desde 1928. Aquele ano foi também para o poder americano, o dos primórdios do macarthismo, período em que o Comitê de Atividades Antiamericanas, criado a pedido do senador Joseph McArthy, começou a semear uma delirante e também totalitária “caça às bruxas” sobre todas as pessoas suspeitas de serem comunistas.

Em suma, assistir a uma apresentação desta ópera – e muito mais com o sucesso com que foi captada pelos seus diretores musicais e de palco – não pode ser escrito, muito menos compreendido, a não ser no quadro da Guerra Fria. Um período em que, seguindo o historiador inglês Eric Hobsbawn, a coexistência dos poderes opostos só foi possível através da imposição de uma intransigência ideológica férrea, radical e mútua.

A sucessão das cenas de “O Cônsul” está dando forma a um drama ficcional em que o papel principal de Magda se confunde com o do “Sistema”, uma ficção que -finalmente viria à tona- e denunciava muitos dos dramas que estavam sendo reais: os de milhares de seres humanos comuns que, juntamente com a perseguição e cerceamento de suas liberdades, foram degradados em sua condição de pessoas, desde que tenham conseguido, é claro, preservar suas vidas.

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A história de John e Magda Sorel, em suma, não está muito longe de muitas das vicissitudes narradas – e sobretudo vividas – por aqueles que sofreram o totalitarismo. Em qualquer uma de suas formas. E em todos os momentos.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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