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A queda de Cabul e seu significado mais profundo

Cabul representa no imaginário desse grupo tudo o que mancha a vida humana de pecado: o ateísmo, a ambição, o comércio e a devassidão. Esse mesmo sentimento correu nas veias dos terroristas que em 11 de setembro lançaram os aviões contra as torres do World Trade Center em Nova York

A queda de Cabul e seu significado mais profundo
(Crédito: Oleg Nikishin/Getty Images)

Mais uma vez, a rendição de uma cidade simbolizou o sucesso da fé sobre o pecado, a queda de Cabul pelo Talibã tem um significado mais profundo do que o triunfo sobre os invasores e a proclamação da independência. Cabul representa no imaginário desse grupo tudo o que mancha a vida humana de pecado: o ateísmo, a ambição, o comércio e a devassidão. Esse mesmo sentimento correu nas veias dos terroristas que em 11 de setembro lançaram os aviões contra as torres do World Trade Center em Nova York. Essa cidade representava o ápice do poder financeiro com a pretensão de estender sua cultura e modo de vida a todos os cantos do mundo.

A destruição das Torres provocou um sentimento de satisfação nos círculos extremistas e também no progressismo, apesar de uma ou outra declaração lamentando a perda de vidas inocentes. Nova York, mais do que Washington, é o templo onde o dinheiro substituiu Deus para promover a ganância e o individualismo, aniquilando qualquer senso de comunidade ou experiência espiritual. O ataque terrorista teve o objetivo de abalar a estrutura de poder para mostrar a sua fragilidade e as possibilidades de derrotá-la no campo de batalha, como de fato aconteceu vinte anos depois no Afeganistão.

A história tem exemplos de ódio às áreas rurais e, portanto, retrasadas em relação às cidades onde residiam os governantes que os camponeses acusam de exploração. Babilônia, Roma, Bagdá, Paris, Berlim, Xangai, Moscou, Istambul e muitas outras foram os alvos favoritos das revoltas porque abrigavam infiéis, degenerados e corruptos desprovidos de religião. Na Turquia, o Partido AK, de inclinação islâmica, venceu as eleições por causa do apoio esmagador das áreas rurais, enquanto o partido secular CHP prevaleceu em Istambul.

A convivência no meio rural explica a atitude refratária a aceitar mudanças que impliquem uma modificação de valores e hierarquias; as próprias tarefas de sobrevivência e escassez requerem formas de trabalho onde a comunidade prevalece. A única maneira que os indivíduos têm de sair dessa estrutura é rompendo com o sistema e enfrentando os riscos de separação com um destino incerto. O multiculturalismo pressupõe uma adesão voluntária dos membros à comunidade, qualquer que seja a sua forma, negando a possibilidade de um regime de coerção imposto de cima para exercer o controle das condições de vida dos membros, distribuindo recompensas e punições. A preservação de uma cultura hoje constitui uma reivindicação progressista, ao passo que há muito tempo a evolução era aceita como parte de um processo influenciado pela modificação das condições materiais da sociedade.

“A negação do progresso com base em considerações benevolentes torna-se uma política regressiva que era anteriormente atribuída a religiões e à direita retrógrada.”

Essa condescendência com os habitantes do campo explica os apelos de retornar à natureza, onde seria possível um desenvolvimento espiritual longe das tentações diabólicas das cidades. O Papa Francisco reflete esta posição apontando que as crises se devem ao declínio moral, ao distanciamento dos valores religiosos, à queda da sociedade em redemoinhos ateístas e agnósticos, e à prevalência do individualismo acompanhada por filosofias materialistas. Todas essas razões fazem parte das plataformas ideológicas do extremismo onde são rejeitados o individualismo e as visões não religiosas.

O triunfo do Talibã é apenas um capítulo de uma complexa trama internacional em que existem forças interessadas em questionar a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Se alguém pensava que esses princípios eram universais, os fatos mostram que sempre é possível voltar ao passado.

*Por Felipe Frydman – Diplomático.

*Produção – Silvina Márquez.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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