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Cuba, a religião dos regimes totalitários

Os protestos na ilha mostraram uma geração imune à doutrinação. O castrismo fez seus devotos verem uma nova conspiração imperialista

Cuba, a religião dos regimes totalitários
Fidem Castro durante discurso em maio de 2004, em Havana, Cuba (Crédito: Jorge Rey/Getty Images)

Em Cuba os sentimentos religiosos estão blindados contra a realidade, e as evidências não podem penetrar na armadura de emoções que os protege. E o fenômeno também é visto nas ideologias, roupagem secular das convicções absolutas.

Centenas de vídeos mostraram batalhões de jovens cubanos marchando com bastões para enfrentar os que protestavam exigindo o fim da “ditadura”. Também os mostrou atacando como um enxame as pessoas participando dos protestos. Mas, em vez de acreditar no que estão vendo, muitos preferem acreditar no regime que ordenou as ferozes forças de choque a executarem uma suja repressão.

Quem levanta bandeiras de solidariedade aos mais fracos dá as costas aos reprimidos porque o repressor diz que são “mercenários do império”. Pessoas que se consideram socialmente sensíveis, preferem proteger as suas emoções e não as vítimas da repressão.

O mesmo vale para legiões de católicos que preferem defender seus próprios sentimentos e não as vítimas de perversões incubadas na estrutura da Igreja. Ratzinger explicou a pedofilia de tantos padres como um mal da época, que se incubou na sociedade laica, atingindo com sua infecção certos membros da Igreja. Em outras palavras, a culpa pelos crimes sexuais de padres contra crianças em instituições religiosas está fora da Igreja: no espírito liberal da época atual.

Nessa perspectiva, na igreja anterior à modernidade não havia padres pedófilos, porque a sociedade não era laica e liberal. Mas a lógica indica o contrário. No passado, uma instituição com muito mais poder perante a Justiça do Estado e com muito mais influência na sociedade, terá tido muito mais casos de abuso sexual que podia facilmente ocultar do conhecimento público.

Não foram as perversões sexuais da sociedade liberal e laica, mas a Justiça e a imprensa desta fase da história as que derrubaram os muros da impunidade que protegiam os males incubados na estrutura da Igreja. Mas muitos preferem continuar apegados a seus sentimentos e emoções religiosas, aceitando argumentos desmentidos pela lógica e pelas evidências.

As ideologias dogmáticas foram a continuação secular do que antes apenas a religião propiciava: A convicções absolutas. Também herdaram a arte da propaganda. A monumentalidade dos templos e a grandeza dos altares e os mantos sacerdotais, além da força emocional da liturgia, eram o quadro intimidante que transformava a versão religiosa da realidade no senso comum dos fiéis.

Os grandes regimes das ideologias dogmáticas de esquerda e direita empregaram os mesmos códigos visuais e sensoriais. Nos atos de massas, o líder era o sumo sacerdote e o palco era seu altar na liturgia que o exibia como um herói vivo.

Hitler e Mussolini foram os maiores expoentes desse sacerdotalismo na extrema direita, enquanto Stalin, Mao Tse-tung, Kim Il-sung e Fidel Castro o foram na esquerda marxista. Todos exibiram o poder de intimidar, comover e convencer.

Quem demonstrou mais claramente a dimensão religiosa que o aparelho de propaganda pode criar foi o líder norte-coreano. Kim Il-sung se deificou por meio da doutrina Juche, que mistura o marxismo com crenças ancestrais daquele canto da Ásia, deificando também seus descendentes.

Nas Américas, o maior expoente da criação de mitos foi Fidel Castro. Na mística castrista, a sua luta na Sierra Maestra é pouco menos do que o equivalente secular à travessia de Moisés, a héjira de Maomé ou os milagres de Cristo. Por isso, quando o protesto abalou Cuba, depois da repressão apresentada como uma “guerra santa”, o regime celebrou sua missa de massas e tirou da “aposentadoria” Raúl Castro para que, com sua litúrgica roupagem verde oliva, presidisse a cerimônia do púlpito que encabeça o altar da revolução.

O protesto mostrou que há novas gerações imunizadas contra o poder intimidante e comovente da propaganda. Mas entre as gerações anteriores, dentro e fora da ilha, o regime ainda consegue convencer muitos de que aqueles que o enfrentam são o mal procurando destruir o bem.

A realidade evidente não importa. Nenhum outro regime conseguiu tanto em termos de fazer que se veja o que a liderança quer que seja visto. A prova está em sua capacidade de transformar o vergonhoso em glorioso. Eventos que evidenciam fracassos são percebidos por seus fiéis como grandes triunfos.

Um exemplo foi o caso Elián González, a tragédia de uma criança cuja mãe o levava em uma balsa em direção à costa norte-americana e que acabou flutuando à deriva após o naufrágio da precária embarcação. A mulher morreu afogada, como o resto dos tripulantes que arriscavam a vida para escapar do paraíso castrista, mas Elián foi salvo pela Guarda Costeira dos Estados Unidos.

Ele estava na casa de seus parentes exilados em Miami, quando aquele acontecimento tão trágico quanto vergonhoso para o regime do qual tantas pessoas fugiram e continuam fugindo de balsa começou a se transformar em causa nacional pela propaganda de Fidel. Fidel liderava procissões massivas ao longo do quebra-mar de Havana exigindo que o imperialismo devolvesse a criança “sequestrada”.

Era uma postal absurda. O castrismo transformou em causa uma tragédia que mostrava o desespero por fugir que empurra multidões ao mar em balsas improvisadas, mais adequadas ao naufrágio do que à chegada na outra costa. Nenhuma outra liderança teria imaginado transformar em missão própria o que só poderia ser visto como uma prova vergonhosa e dramática das misérias ocultas por trás dos seus mitos e liturgias.

Os parentes exilados disseram que o pai do menino também planejava embarcar em uma balsa rumo à Flórida, mas o trágico naufrágio em que morreram a mãe e os outros tripulantes e o noticiadíssimo resgate do menino após dias infinitos de flutuar à deriva mudaram drasticamente os planos. O fato é que meio mundo assistia espantado o que o outro meio mundo aplaudia encantado: Fidel transformando uma criança no troféu de “uma nova vitória contra o imperialismo”.

A verdade visível é que Washington cumpriu as disposições do tribunal da Flórida que decidiu contra as demandas dos parentes norte-americanos do menino e das poderosas organizações anticastristas de Miami.

O mesmo aparato de propaganda convenceu agora os fiéis espalhados pelo mundo que os protestos que o regime enfrentou cortando a Internet e empregando violentas forças de choque não mostram a imunidade contra a doutrinação nas novas gerações, mas sim o mal dos conspiradores que espreitam desde a outra costa.

*Por Claudio Fantini.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Notícias, da PERFIL Argentina.

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