Opinião

Populismo, democracia e globalização

*Por Ana Tereza Duarte Lima de Barros – Doutoranda da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE-Brasil) e membro da Rede de Cientistas Políticos.

Populismo, democracia e globalização
O Cone Sul não ficou de fora dessa nova lógica de direita com a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil (Crédito: Andressa Anholete/ Getty Images)

Seja em debates acadêmicos, colunas de opinião, redes sociais ou mesas de bar, o populismo está de volta à moda. Os homens fortes voltaram? Eles podem nunca ter saído de cena, mas enquanto antes muita atenção era dedicada à Venezuela chavista, a partir de 2016 o estilo de liderança carismático, personalista, esquerdista que divide a sociedade vestiu uma nova roupagem: a do populismo nacional-direita, com seu caráter antiglobalização e sua proposta de divisão entre “nacionais” vs. “imigrantes”.

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Movimentos e partidos políticos extremistas sempre existiram, porém, uma vez que a democracia mais antiga ensinou ao mundo Trump, líderes com características semelhantes começaram a ganhar destaque em outros países. O perigo não está muito distante, mesmo para o berço da iluminação. Le Pen e seu discurso xenófobo e anti-União Europeia chegaram ao segundo turno das eleições na França.

Durante muito tempo foi a esquerda que criticou o processo de globalização. Os partidos de esquerda associavam o mundo globalizado aos supostos males do livre mercado e outras pautas tradicionalmente defendidas pela direita. A crítica a esse processo também foi apropriada por intelectuais, como o geógrafo Milton Santos e os sociólogos Boaventura de Souza e Zygmunt Bauman. Para este último, a globalização significava “privação e degradação social” e seria ela quem conduziria as sociedades a uma progressiva separação e exclusão social.

A ironia é que, mais recentemente, foram os líderes da onda populista conservadora que se identificaram como antiglobalização. E precisamente pela razão oposta. Se nas últimas duas décadas o mundo globalizado provou não gerar a liquidez que Bauman supunha, mas sim transpor as distâncias culturais entre as pessoas, os populistas não estão interessados ​​em sociedades multiculturais ou na integração de migrantes. Ao contrário, é muito característico do populismo segregar. Ao colocar a culpa de todos os males do país na imigração, eles defendem o retorno do Estado-Nação como último recurso e a saída de organizações internacionais como a União Europeia de seu país. O Cone Sul não ficou de fora dessa nova lógica de direita com a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil. Com um discurso de ódio contra grupos vulneráveis ​​(mulheres, negros e indígenas), usando símbolos nacionalistas e sem interesse pela política externa, o líder do país vizinho seguiu a moda da polarização e do confronto político.

De acordo com o relatório deste ano do V-DEM, um dos principais índices que medem a democracia no mundo, o cidadão médio global goza dos mesmos níveis de democracia de 1989. Os últimos 30 anos de avanços democráticos seriam erradicados . Eles exageram? De igual importância, devemos ressaltar que, quando cada região é medida separadamente, o resultado pode não ser tão pessimista. No Brasil, por exemplo, não estamos tão mal quanto em 1989, quando a redemocratização estava apenas começando.

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A história geralmente é cíclica. Os líderes conservadores chegam ao poder devido ao descontentamento dos cidadãos com os governos progressistas que os precederam. Com o notável fracasso do direito populista, os cidadãos dos Estados Unidos decidiram punir Trump e não dar-lhe a reeleição. No Brasil, as principais pesquisas de opinião apontam para uma provável vitória e retorno da esquerda ao poder, mostrando efeito semelhante ao ocorrido nos Estados Unidos.

O debate sobre a saúde das democracias está em ascensão. Há dados a serem alarmados e, ao mesmo tempo, há evidências que indicam que esse alarme é um exagero. Em 2022, não acreditar na globalização é ser contrário à tolerância e, portanto, à democracia. O que é certo é que a democracia nunca deve ser tida como certa. Você tem que sempre lutar por isso em todos os lugares e em todos os momentos.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

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*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina