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Colômbia, violência sem fim

Cinco anos após os acordos de paz com as FARC e um ano após as eleições presidenciais, a sombra da violência paira novamente sobre a Colômbia, o que levanta a seguinte questão: as FARC realmente desapareceram alguma vez?

Colômbia, violência sem fim
Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) (Crédito: Carlos Villalon/Getty Images)

O ano de 2016 parecia muito promissor para a Colômbia, mas a violência sem fim se tornou um problema. Os acordos de paz firmados entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-EP buscaram pôr fim a um dos conflitos armados mais antigos da América Latina. Depois de quase 60 anos, a desmilitarização da guerrilha mais antiga da região sugeriu que a paz estava finalmente mais próxima e que os cidadãos colombianos poderiam finalmente reconstruir uma sociedade rachada pela violência.

Ao analisar os números deixados por 6 décadas de luta entre as guerrilhas e o Estado, podemos perceber a imensa magnitude do conflito: De acordo com a Lei 1.448, denominada “…de assistência e reparação integral às vítimas do conflito armado interno”, há mais de 9 milhões de colombianos que se caracterizam como vítimas, seja de forma mais direta ou indireta, por terem sofrido homicídio, agressões, ameaças, ter perdido algum familiar ou mesmo por ter tido que deixar seu local de residência para se estabelecer em outra região do país. De fato, como causa deste último fenômeno, a Colômbia é o país com o maior número de deslocados internos no mundo segundo as estatísticas do próprio governo colombiano.

Mas todo esse conflito parecia ter ficado no passado quando em novembro de 2016, após anos de negociação e até mesmo uma recusa retumbante dos cidadãos em gerar uma instância de conversa e negociação com os grupos guerrilheiros, foi assinado em Bogotá o acordo definitivo entre o governo e representantes das FARC-EP.

Em termos gerais, este pacto comprometeu os guerrilheiros a iniciar um processo de desmilitarização, entregando suas armas para encerrar o conflito. Em troca, o governo garantiu a eles determinados territórios agrícolas de propriedade coletiva do campesinato, o direito dos membros das FARC-EP de se candidatarem a cargos políticos, uma cota de 10 cadeiras no Congresso colombiano por 2 legislaturas consecutivas e a proibição de erradicar certas plantações de drogas consideradas “ancestrais”.

No entanto, e para além das implicações históricas da reaproximação entre dois grupos que se confrontam militarmente há décadas, este acordo de paz sempre foi questionado. Um ano após a assinatura e ratificação pelo Congresso, diversos grupos guerrilheiros ameaçaram retornar ao conflito se o governo colombiano não cumprisse os compromissos assumidos. Mas, além disso, até março de 2018, embora 80% dos integrantes das FARC tenham entregado suas armas, ainda havia cerca de 1.200 guerrilheiros que não aceitaram as condições do acordo e ainda hoje se recusam a cumpri-lo. Essas tensões internas dentro da guerrilha provocou uma separação que deu origem às chamadas “Dissidências das FARC”, aquele pequeno grupo residual que desconhece o acordo de paz de 2016 e pretende continuar com as ações ilegais que essa organização vem desenvolvendo desde a década de 1960. Assim, hoje, as Dissidências das FARC ainda mantêm certas áreas de influência com base em práticas como tráfico de drogas, sequestros e extorsões.

Por isso, embora o conflito tenha diminuído em termos de intensidade, ainda existem vestígios dessa luta que ameaçam o país com o retorno à violência do passado. Atualmente, a presença da guerrilha se limita a certos territórios isolados do país onde a presença do Estado colombiano é fraca, como os territórios de selva em Chocó (extremo leste do país), Cauca ou no Norte de Santander, perto da fronteira com a Venezuela. Lá, além da ameaça latente entre o governo e as Dissidências das FARC, há uma disputa territorial da guerrilha pelo cultivo da coca com outra organização terrorista histórica, o Exército de Libertação Nacional (ELN). De fato, vários concordam que o vácuo de poder deixado pelo desarmamento das FARC após 2016 foi preenchido por uma maior presença do ELN nesses territórios. De acordo com dados da Cruz Vermelha, mais de 200 civis morreram apenas neste ano em 9 departamentos do país como resultado dessas disputas territoriais e mais de 33 pessoas estão desaparecidas, o que representa um aumento de 22% em relação a 2020. Todavia, mais de 2.000 pessoas foram deslocadas de seus territórios devido à intensificação dos confrontos entre os grupos guerrilheiros. Hoje, e mesmo depois de todo o processo para os acordos de paz, a presença de grupos ilegais foi relatada em 300 municípios dos 1.100 que compõem o território colombiano.

Então, vale perguntar: as FARC realmente desapareceram alguma vez? Para este grupo guerrilheiro, as dissidências nada mais são do que desertores do processo de paz que nada têm a ver com o grupo criado nos anos 1960. No entanto, a opinião pública daquele país não pensa o mesmo. Para a sociedade colombiana, embora seja verdade que a intensidade do conflito tenha diminuído substancialmente desde 2016, as FARC – dissidentes ou não – nunca desapareceram realmente e o ano de 2021 marca um aumento da violência em decorrência do conflito armado. Ao mesmo tempo, também existe a preocupação com a proliferação da presença da outra organização guerrilheira, o ELN, com quem o governo colombiano tentou negociar em várias ocasiões, sem sucesso. De fato, várias organizações internacionais concordam que o ELN hoje se tornou a guerrilha mais importante da América Latina.

Como se fosse um filme do passado, a sociedade colombiana hoje assiste mais uma vez a um enfraquecimento dos poderes do Estado que o impede de garantir a soberania e impor a ordem pública no território nacional. Isso nos leva à eterna questão nunca respondida: a Colômbia poderá lograr algum dia a paz e a unidade em sua sociedade?

*Por Clarisa Demattei – Graduada em Ciência Política (UCA) – Pesquisadora do Centro de Estudios Internacionales (CEI-UCA)

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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