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Querido inimigo

A ameaça chinesa atingirá um nível de perigo que se torne tão intimidante a que faça os dois partidos majoritários nos Estados Unidos deixarem de lado as suas diferenças cotidianas para se unirem em políticas de Estado diante de uma ameaça externa comum?

Querido Inimigo
Fotógrafos compareceram enquanto a última edição do jornal Apple Daily era entregue em bancas de jornal em 24 de junho de 2021 em Hong Kong, China (Crédito: Anthony Kwan/Getty Images)

Agora que tanto se fala sobre a hidrovia por onde saem os navios com a soja que exportamos, vale a pena refletir. Se os Estados Unidos quisessem enfrentar a China militarmente, não teriam que gastar muito. Bastaria bloquear a saída de navios do Rio da Prata e dos portos da província de Buenos Aires, mais os do Brasil entre Porto Alegre e Santos, e em poucos meses a população chinesa começaria a passar fome porque as suas reservas de grãos e alimentos derivados só alcançam para dois meses.

“Flui pela hidrovia do rio Paraná um suprimento vital para a alimentação do povo chinês.”

Os bloqueios de portos são anteriores à Guerra Fria: durante a Segunda Guerra Mundial, os alemães tentaram destruir o corredor que levava alimentos para a Inglaterra. Depois, as bombas atômicas criaram outro tipo de ameaça. Esse medo de destruição mútua acabou produzindo a dissuasão mútua.

Mas o fim da Guerra Fria, com o fim da União Soviética e simultaneamente do temor de uma guerra nuclear, não apenas relaxou o capitalismo em sua competição por gerar melhoras nas condições de vida, levando-as ao oposto – nas últimas três décadas o a riqueza agregada concentrou-se em poucas mãos –, mas relaxou também a política, criando a polarização.

A polarização é multicausal e também tem uma de suas origens nas novas possibilidades técnicas dos meios de comunicação, mas o seu principal fator foi o desaparecimento de um inimigo externo, precipitando que nos Estados Unidos os dois partidos que competem nas eleições deixassem de cooperar na ação governamental. No sistema parlamentarista, o chefe de Estado tem facilitada a aprovação das leis porque a sua eleição decorre do acordo da maioria parlamentar. No sistema presidencialista, e mais ainda no bipartidarismo, quase nenhum presidente tem maioria parlamentar nas duas câmaras. Sem uma causa superior que obrigue o comportamento cooperativo, a tentação de bloquear a ação do adversário tem muitos incentivos.

Devido ao bloqueio da oposição às iniciativas legislativas governistas, mesmo governos com ideias corretas e políticos bem intencionados não conseguem concluir a sua instrumentação, progressivamente tornando o Estado mais ineficiente e o país menos competitivo. É o que vem acontecendo nos Estados Unidos em relação à China, primeiro na indústria clássica e ultimamente até na tecnologia.

Na China, ao permitir apenas um partido, os poderes Legislativo e Executivo são praticamente a mesma coisa, não há polarização e seu sistema decisório é mais rápido. Se o plano a ser aplicado for o correto, avança-se muito mais rápido na direção do progresso econômico.

Assim, nos últimos trinta anos, a China foi crescendo quatro vezes mais por ano que os Estados Unidos, a ponto de desafiá-la – por enquanto – economicamente. A ameaça chinesa atingirá um nível de perigo que se torne tão intimidante a que faça os dois partidos majoritários nos Estados Unidos deixarem de lado as suas diferenças cotidianas para se unirem em políticas de Estado diante de uma ameaça externa comum?

Pelo que foi dito no início desta coluna sobre a hidrovia, onde os navios que saem do Rio da Prata e seu entorno no Oceano Atlântico representam a principal fonte de grãos que a China precisa importar para abastecer sua cadeia alimentar, ela não parece ser hoje um inimigo militar assustador para os Estados Unidos, como sim o foi a ex-União Soviética, com as suas armas nucleares. A China sofre de vulnerabilidades no abastecimento, enquanto a ex-União Soviética podia ser autossuficiente com os seus recursos naturais.

Mas o verdadeiro calcanhar de Aquiles da China está por acaso no que hoje é sua vantagem: um sistema político não totalmente democrático, sem divisão de poderes ou competência parlamentar que, carecendo de uma superioridade ética, precisa se legitimar apenas pelos resultados, sob a exigência de produzir continuamente melhoras econômicas para a sua população.

Mas um dia a China terá convertido quase toda a sua população pobre em classe média e, quando terminar de recuperar completamente o terreno perdido, o crescimento passará a ser pequeno ou quase nulo na percepção dos seus cidadãos, e aí o sistema de partido único não tem a válvula de escape das democracias ocidentais, que é a mudança do partido governante com a alternância no poder. Seu sistema de partido único poderia morrer de sucesso, tendo exaurido a sua vantagem para sua população.

Um sintoma da latência oculta desse problema foi, primeiro, a prisão do fundador do jornal Apple Daily, depois a prisão de vários funcionários junto com sanções financeiras que levaram o jornal a não mais poder ser publicado apesar do seu extraordinário sucesso, com edições de meio milhão de exemplares em média para uma população de cerca de 7 milhões de habitantes.

Hong Kong, em termos econômicos, já estava plenamente desenvolvido pelos ingleses quando retornaram sua colônia à China em 1997. Foi nulo o progresso econômico que a assertividade do sistema de partido único conseguiu produzir, e Hong Kong, com seus persistentes protestos, poderia ser uma imagem da China continental daqui a algumas décadas.

O fechamento do jornal Apple Daily é a melhor demonstração da incapacidade do regime de metabolizar qualquer dissidência. A repressão a sufoca, mas não a anula, porque é incapaz de erradicar as causas que promovem a dissidência. “O que é duro demais quebra”, explicou Lao-Tsé no século VI a.C. no Tao Te Ching, um livro essencial do taoísmo e uma compilação de seus ensinamentos.

A intolerância a uma imprensa independente, que é a ponta do iceberg do sistema de equilíbrio e divisão de poderes, demonstra a incapacidade do atual sistema de progredir em sua adaptação progressiva. Mais cedo ou mais tarde, medido em décadas, a China passará por uma crise mas, enquanto isso, os Estados Unidos têm a oportunidade de encontrar um “querido inimigo” que lhe permita superar a polarização que amarra a sua classe política e retarda o progresso econômico de sua população. Para a Argentina é um sinal amarelo: um dia os Estados Unidos poderão exigir alinhamento irrestrito, como foi durante a Guerra Fria, e o nosso comércio poderá ser afetado.

“O fechamento do jornal Apple Daily em Hong Kong é uma prévia da crise do futuro China.”

É uma questão crucial para a Argentina. A multiplicação por quatro da população mundial entre 1920 e 2020 (de 2 para 8 bilhões de pessoas), somada ao aumento da nossa produtividade na geração de matérias-primas (não apenas grãos), deu ao país mais uma vez a oportunidade que perdeu em 1930, quando a riqueza gerada pelo campo deixou de ser suficiente para que a Argentina continuasse um país rico.

Dependerá em grande medida da guerra entre os Estados Unidos e a China, nas distintas dimensões em que esta for travada, parte do futuro da economia argentina.

*Por Jorge Fontevecchia – Co-fundador da Editorial Perfil; CEO do Perfil Network.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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