Opinião

Nem todo mundo é contra a Rússia

*Por Sabrina Martin.

Nem todo mundo é contra a Rússia
Para o Brasil, como a Argentina, a Rússia é um fornecedor crucial de fertilizantes nitrogenados (Crédito: Marcos Corrêa/PR)

Apesar da grande maioria dos países, 141 no total, terem votado a favor de uma resolução da ONU condenando a agressão da Rússia contra a Ucrânia, uma análise da “The Economist’s Intelligence Unit” indica que dois terços da população mundial vive em países que permaneceram aliados à Rússia ou permaneceram em silêncio desde a invasão da Ucrânia. A Rússia perdeu uma quantidade significativa de apoio no exterior.

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Ainda assim, nem todos os países denunciaram a Rússia por sua agressão; alguns endossaram publicamente o exército de Vladimir Putin. Outros permaneceram em silêncio. Possivelmente o aliado mais próximo de Putin, o presidente Aleksandr Lukashenko, permitiu que soldados russos invadissem o território ucraniano da Bielorrússia. No entanto, nem todos os governos pró-Rússia foram tão diretos.

Alguns simplesmente se recusaram a votar nas resoluções da ONU ou aumentaram discretamente seu consumo de petróleo russo. Entre os 141 que votaram a favor da resolução estão países como Finlândia, Suíça e Suécia, que historicamente se mantiveram neutros, além de Israel e Emirados Árabes Unidos. Juntos, os países que votaram a favor representam 36% da população mundial e mais de 70% do PIB mundial, segundo a “The Economist’s Intelligence Unit”. Quatro países juntaram-se à Rússia na votação contra a resolução: Síria, Bielorrússia, Coreia do Norte e Eritreia; 35 países se abstiveram de votar e 12 não votaram, incluindo a Venezuela, que foi privada do direito de votar por não pagar as taxas de adesão à ONU.

Os países membros podem votar a favor, contra, abster-se ou não votar, dando-lhes uma série de possíveis posições políticas a tomar. “Na América Latina, há países que se alinharam claramente em condenar a invasão, a maioria, mas outros parecem praticar o que ele chama de ambiguidade calculada, que você vê, por exemplo, na variação do voto nas Nações Unidas quando condenando a invasão e depois expulsando a Rússia do Conselho de Segurança e Direitos Humanos”, diz Armando Chaguaceda, cientista político e doutor em História. “Há países que mudam o voto de abstenção para oposição. Obviamente temos o grupo de aliados mais próximo, como Cuba, Nicarágua, Bolívia, mas até um pouco México e Argentina, há algumas pessoas com simpatia pelo modelo russo, por uma visão antiamericana, mas que em termos diplomáticos não apoiar a Rússia abertamente”, acrescenta.

Razões

Há uma variedade de razões pelas quais os países apoiam a invasão russa. A Síria reconhece o direito da Rússia a pequenas repúblicas no leste da Ucrânia e o Irã culpa a OTAN por provocar a agressão russa. A Índia permaneceu neutra, beneficiando-se dos preços reduzidos do gás russo. A África do Sul alegou que a resolução da ONU falhou em “criar um ambiente propício à diplomacia”. Ana Soliz de Stange, pesquisadora de pós-doutorado e professora da Universidade Helmut Schmidt, na Alemanha, destaca vários motivos que motivam alguns países a apoiar a Rússia. A primeira é pragmática: acesso a recursos. Países mais isolados, com menos acesso a recursos ocidentais, tendem a cooperar com potências maiores, como Rússia e China. Soliz de Stange diferencia esses países daqueles que apoiam regimes autocráticos e não são regidos por princípios democráticos. Países com governos autocráticos também carecem da ameaça de oposição cidadã. “E aí aparece a outra motivação, que é uma espécie de identificação ‘solidária’ com outros sistemas autocráticos”, dizem os especialistas. “Portanto, são governos que não receberão um voto de punição de seus cidadãos.”

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Para o Brasil, como a Argentina, a Rússia é um fornecedor crucial de fertilizantes nitrogenados. Isso, juntamente com sua fidelidade ao BRICS, do qual Brasil e Rússia são membros, levou Jair Bolsonaro criticar as sanções ocidentais à Rússia e abster-se de votar a resolução da ONU para remover a Rússia do Conselho de Segurança e Direitos Humanos. “No entanto, no caso dos países latino-americanos, é uma clara contradição aos seus interesses nacionais”, explica Soliz de Stange. “É contraditório que eles não condenem as ações da Rússia sob o argumento de que ela tem o direito de agir em sua área de influência. Com essa decisão, estão automaticamente reconhecendo que o país poderoso tem o direito de invadir sua zona de influência e, portanto, levando isso para a América Latina, estariam também reconhecendo o direito que os Estados Unidos têm sobre si mesmos. O que é totalmente contraditório e inaceitável.”

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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