Conflito Rússia x Ucrânia

Ucrânia é o prelúdio do que chamamos de “Grande Confronto Pós-Moderno”

*Por Juan Pablo Laporte – Cientista político e Doutor em Ciências Sociais. Professor e Pesquisador da Universidade de Buenos Aires.

Ucrânia é o prelúdio do que chamamos de “Grande Confronto Pós-Moderno”
Artemivsk, Ucrânia (Crédito: Brendan Hoffman/Getty Images)

O fim da Primeira Guerra Mundial a favor da Entente começou em 3 de novembro de 1918 com a rendição do império austro-húngaro. Tendo como pano de fundo a Revolução Russa e o pânico do comunismo, os processos foram acelerados e a Alemanha se rendeu após a renúncia do Kaiser Wilhelm II.

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O armistício ocorreu em 11 de novembro de 1918, em um vagão de trem na floresta de Compiègne, na comuna francesa de Rethondes.

Então, em 28 de junho, é assinado o Tratado de Versalhes de 440 artigos, composto pelas cláusulas territoriais (perdas para a Alemanha de 88 mil km e oito milhões de habitantes; militares (o exército é reduzido a 100 mil homens e o serviço militar obrigatório, e financeiro (a Alemanha é considerada moralmente responsável e são impostas reparações pelas perdas de guerra). A isso se somam as garantias com a ocupação militar do Reno.

A Grande Guerra acabou deixando uma lição: as condições impostas à Alemanha seriam a semente da Segunda Guerra Mundial, que Taylor descreve tão bem em As Origens da Segunda Guerra Mundial. A bibliografia que demonstra o efeito dessas condições impostas e sua relação com a ascensão do fascismo europeu e o confronto militar é extremamente robusta. Da mesma forma, muitos teorizaram, como Keynes, sobre “As consequências econômicas da paz”.

O atual conflito centrado na Ucrânia, mas com dimensões globais, gerou mudanças sistêmicas estruturais. Por um lado, o Ocidente foi revitalizado com a liderança dos Estados Unidos através da OTAN como uma organização de segurança profundamente questionada. Agora está fortalecido e com dois novos membros e se junta a outras iniciativas como Aukus e QUAD. Por outro lado, permitiu à China continuar sua expansão econômico-comercial e fortalecer sua identidade como construtora de um novo modelo de governança global – ainda em observação.

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“A Ucrânia é o prelúdio do ‘Grande Confronto Pós-Moderno'”

Essa nova contenção que foi projetada contra a Rússia – aliás, muito diferente da anterior teorizada por George Kennan – tem alto risco e consequências imprevisíveis para a humanidade e o fim da guerra parece distante e lembra o título da historiadora Sally Marks, A Ilusão da Paz. Mas é mais do que isso. Essa política visa demonstrar o poder militar dos Estados Unidos e sua capacidade de influenciar o regime econômico internacional.

A decisão de colocar a Rússia em uma situação de máxima pressão internacional é uma política delicada para os interesses do Ocidente e da humanidade como um todo e produziu um desequilíbrio sistêmico na ordem internacional. Isso se traduz em milhões de deslocados e refugiados; inflação de alimentos e energia; falta de grãos, fertilizantes e escassez de alimentos básicos. O resultado será a chegada da fome e da morte iminentes. Por sua vez, as economias enfraquecidas pela pandemia enfrentam um esforço de guerra que transfere recursos para todo o exército industrial e retira financiamento para o desenvolvimento e para a recuperação do mundo pós-Covid. Estima-se que a ajuda à Ucrânia de mais de vinte países devido à guerra somaria a cifra de 100 bilhões de dólares.

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Muito pode ser teorizado sobre a semelhança dessa guerra com a Guerra Civil Espanhola, onde se chocaram as coalizões internacionais que levariam à Segunda Guerra Mundial. As armas foram testadas, o complexo industrial militar foi descomprimido e os estados-maiores foram capacitados.

A Ucrânia é apenas o prelúdio do que chamamos de “Grande Confronto Pós-Moderno”: o conflito entre os Estados Unidos e a China. Este país, além da Iniciativa da Rota da Seda, está construindo lentamente a Iniciativa de Segurança Global.

Talvez seja difícil imaginar o resultado das forças profundas retornando à superfície como uma nova tragédia. Mas reflitamos sobre o ensinamento da carroça de Compiègne para que o título da obra de Julio Gil Pecharromán, A Grande Guerra, não se repita no presente. Anos de sangue, ruínas e misérias.

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*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina

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