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Japão como ponte para relações internacionais

O Japão pode e deve se tornar uma “ponte de seda” entre os Estados Unidos e a China

Japão como ponte para relações internacionais
(Crédito: Chris McGrath/Getty Images)

No Japão, as relações internacionais como disciplina estão diretamente ligadas aos acontecimentos na sua política internacional. Inoguchi e Bacon, em “The Study of International Relations in Japan: Towards a More International Discipline”, apresentam quatro tradições de pensamento para a compreensão do modo de pensar japonês – o historicismo, o marxismo, a teoria geral do Estado e o positivismo –, que se articularam com as tradições milenares baseadas no xintoísmo e no budismo. Para completar esse estudo e os seus resultados paradigmáticos, sugerimos a leitura de Kazuya Yamamoto: “International Relations Studies and Theories in Japan: A Trajectory Shaped by War, Pacifism, and Globalization”.

Três conceitos são apresentados como bases nos assuntos internacionais deste país, influenciados pela Escola de Kyoto, de grande relevância na teoria e prática internacional do Japão.

O primeiro conceito, denominado Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental (Dai Tōa Kyōeiken), foi a base da argumentação para sustentar a política externa do Japão no resto da Ásia.

O segundo conceito, chamado de modelo dos “gansos voadores” (Gankō Keitairon), reflete o exemplo desses pássaros, que seguem um líder. Nesse caso, foi o Japão que orientava o desenvolvimento da Ásia e articulava a relação com o Ocidente.

Mas existe um conceito ainda mais transcendente para a estruturação do mundo que paira entre os Estados Unidos e a China: é a noção de “in-between-ness”. Este postulado teve as contribuições filosóficas de Nichida Kitaro e é entendido como a equidistância entre as tradições e os posicionamentos estratégicos do Oriente e do Ocidente. O conceito é estudado por Josuke Ikeda (2008) em “Japanese Vision of International Society: A Historical Exploration”.

Esses três pilares – a Esfera de Coprosperidade, os gansos voadores e o in-between-ness – permitem que teçamos alguns argumentos sobre a estruturação do mundo que atravessa um processo de transformação na balança de poder.

O Japão, como todos os países do Ásia-Pacífico – incluindo a China –, tem uma concepção do poder mundial baseada na consolidação de sua “regionalidade”, como argumentamos na teorização dos paradigmas chineses nas três colunas anteriores. Quem liderar essa região, que será a de maior peso demográfico e econômico do mundo, liderará o mundo. Nesse sentido, argumentamos que a equação de transferência será lenta e visará ao equilíbrio e nunca à subversão. Os Estados Unidos ainda manterão por muito tempo um poder robusto na dimensão econômica, mas sobretudo na dimensão militar. Além disso, o prestígio dos centros educacionais de seu país – onde foram formados muitos acadêmicos orientais –, continuará a pesar no prestígio internacional.

Esses países asiáticos aceitam uma liderança como o “V” dos gansos voadores: um deles conduzirá o voo conforme as atuais potencialidades e forças. O Japão é um ator de peso, mas diminuiu a sua influência em relação ao que já teve no passado, e cederá o lugar a outro: a China e sua proposta da Nova Rota da Seda, ou Iniciativa do Cinturão e da Rota (Yi dai yi lu , em mandarim).

A “talidade” ou o “suchness” (o ser de tal forma, ou aceitar as coisas tal como elas são), que equivale à noção japonesa de konomama ou sonomama, do budismo-taoísmo zen, permitirá ao Japão entender isso, conforme ensina D. T. Suzuki em “O que é o zen?”.

Mas o mais importante é que o Japão pode e deve se tornar uma “ponte de seda” entre os Estados Unidos e a China. Isso irá gerar uma compreensão compartilhada de duas tradições e de duas culturas muito diferentes, mas complementares, que precisam de um acordo mútuo para alcançar o equilíbrio num mundo cheio de desafios e ameaças. Sem este “acordo para a humanidade”, o planeta enfrentaria um grave perigo de autoextinção.

Produção – Silvina Márquez.

Por Juan Pablo Laporte – Cientista político, Doutor em Ciências Sociais e professor da Universidade de Buenos Aires.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.