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O Partido Comunista da China e sua “democracia” chinesa

A juventude de Hong Kong que desafia Pequim

O Partido Comunista da China e sua democracia chinesa
(Crédito: Anthony Kwan/Getty Images)

Em 1 de outubro de 2019, o Partido Comunista da China comemorou o 70º aniversário da fundação da República Popular da China. O longo dia de comemorações culminou em um enorme desfile militar na Praça Tiananmen, o maior da história do partido.

Enquanto os caças atravessavam o céu em perfeita formação, um comboio de mísseis com capacidade nuclear e outros sistemas de armas nunca antes vistos desfilou pela Avenida Chang’an sob o olhar atento do Presidente Xi Jinping. Durante o seu discurso, antes de receber aplausos estrondosos, Xi declarou: “O povo chinês se levantou! Nenhuma força impedirá que a China e o seu povo sigam em frente!”.

Por décadas, desde o programa de “reforma e abertura” iniciado por Deng Xiaoping em 1978 – a versão econômica da glasnost e da perestroika, com as quais Mikhail Gorbachev tentou reformar a União Soviética no início dos anos 1980 – e o massacre da Praça Tiananmen que quase o desarticulou, o mundo livre presumiu que a prosperidade econômica traria consigo reformas políticas na China comunista. O argumento em que se baseia é que à medida que a qualidade de vida melhorar, o povo chinês ficará mais culto e mais conectado com o resto do mundo. Exigirá mais liberdades e responsabilidades dos detentores do poder e os obrigará a modernizar e a democratizar o sistema político do país. Essa fórmula funcionou em outras partes da Ásia, por exemplo, na Coréia do Sul e em Taiwan, então por que não na China? O tempo e o dinheiro também seguirão seu curso no “Reino do Meio”.

Em grande medida, Jiang Zemin e Hu Jintao, os sucessores de Deng, seguiram essa fórmula. Eles eram enérgicos no crescimento econômico e relativamente moderados no fervor nacionalista e no controle ideológico.

A China foi aceita na Organização Mundial do Comércio em 2003 nessas condições e consolidou seu status como a “fábrica do mundo”. Os Jogos Olímpicos de 2008 foram a maneira da China de dizer ao mundo que era uma potência econômica tão benevolente quanto afirmava, e que a sua “ascensão pacífica” não era boa apenas para o seu povo, mas para o mundo inteiro.

Mais tarde, em 2012, tudo mudou quando Xi Jinping derrotou os seus rivais políticos na mudança de liderança de cada decênio e se tornou o líder supremo. Filho de um importante revolucionário que havia lutado junto com Mao na guerra civil chinesa, ele é um lobo na pele de um panda, cuja imagem pública simples e discreta esconde ambição e crueldade. Desde que subiu ao trono, ele tentou garantir um lugar ao lado de Mao no pavilhão dos poderosos líderes comunistas. Em 2017 ele realizou uma manobra política para que a Constituição chinesa incorporasse a sua teoria política, junto com os ensinamentos de Mao e Deng. Poucos meses depois, ele orquestrou uma reforma constitucional para abolir o limite do mandato presidencial e coroou-se imperador vitalício.

No país, Xi Jinping consolidou seu poder lançando uma campanha anticorrupção em nível nacional, para se livrar de seus rivais políticos e esmagar a dissidência sob o pretexto da harmonia social. O governo chinês instalou tecnologia de ponta, como reconhecimento facial e vigilância online, para monitorar os cidadãos e manipular a opinião pública. Foram presos e condenados por incitação à subversão centenas de advogados de direitos humanos.

Ocorrem ataques, demolições de igrejas e assédio rotineiro contra as congregações cristãs, que ele empurra para a clandestinidade. Enquanto isso, os tibetanos são privados de liberdade de expressão, religião e movimento. Na província de Xinjiang, mais de 3 milhões de muçulmanos uigures foram presos ou enviados para campos de reeducação.

A nível internacional, a China demonstrou seu potencial militar construindo ilhas artificiais no Mar da China Meridional para serem usadas como bases aéreas, o que incomodou vizinhos como Malásia, Indonésia e Filipinas. O país tem sido notavelmente mais enérgico nas disputas territoriais com Japão, Índia e Vietnã. O governo chinês também foi acusado de lançar ataques cibernéticos coordenados contra redes governamentais e agências de investigação nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Índia.

Essa demonstração de “hard power”, o poder duro da força, foi acompanhada por uma ofensiva em grande escala de “sharp power”, o poder afiado da influência.

A China tem usado sua influência financeira e cultural para seduzir, coagir, manipular e intimidar outros países para que se submetam e cooperem. Inaugurou centenas de Institutos Confúcio no mundo para divulgar propaganda mascarada como ensino da língua e intercâmbio cultural. Sob os auspícios de sua ambiciosa Iniciativa do Cinturão e da Rota, ou Nova Rota de Seda, ela propôs energicamente o seu modelo econômico baseado em infraestrutura para países que vão da Birmânia e Sri Lanka ao Cazaquistão e Chipre. Os contratos de construção bilionários são frequentemente eivados de corrupção e financiados com dívidas esmagadoras que aumentam a influência política chinesa sobre os governos estrangeiros.

A combinação de prêmios e punições na diplomacia regional permitiu que ela exporte muito mais do que bens manufaturados e conhecimento de infraestrutura.

Xi Jinping quer espalhar a marca de “governo de partido único” na Ásia e além, assim como a União Soviética fez para espalhar o comunismo durante a Guerra Fria. Empresas chinesas venderam sistemas de vigilância de cidadãos, eufemisticamente conhecidos como tecnologias de “cidade inteligente”, para autocracias no Oriente Médio e na América Latina. A ajuda econômica e o apoio aberto de Pequim à Coreia do Norte e à Birmânia são a razão fundamental pela qual esses regimes continuam a operar impunemente, apesar da condenação e do isolamento internacionais.

O peso econômico e a estatura política sem precedentes da China tornaram muitos governos, especialmente seus vizinhos asiáticos, aliados e facilitadores. Um exemplo é especialmente próximo. Em outubro de 2016, quando fui dar uma palestra sobre ativismo juvenil na Universidade Chulalongkorn, em Bangkok, as autoridades tailandesas me detiveram no aeroporto sem me dar qualquer explicação. Durante o confinamento em uma cela escura, um dos policiais gaguejou em inglês: “Esta é a Tailândia, não Hong Kong. A Tailândia é como a China”. Ele se referia à falta de proteção dos direitos humanos nos dois países. Foram as horas mais assustadoras da minha vida, não só por causa da barreira do idioma, mas também porque estava em solo estrangeiro e sem a possibilidade de contatar um advogado. Pior ainda, esse incidente ocorreu logo após os sequestros dos livreiros de Causeway Bay. Um deles havia desaparecido durante as férias em Pattaya, um balneário turístico na Tailândia. Embora eu tenha sido libertado após 12 horas e retornado a Hong Kong no mesmo dia, aquele episódio foi um aviso de que o longo braço de Pequim havia ultrapassado as suas fronteiras e que conseguia intimidar muitos governos estrangeiros a seguirem suas ordens.

Atualmente, minha mobilidade na região ainda é muito restrita; posso contar nos dedos de uma mão os países da Ásia que considero seguros para viajar: Japão, Coreia do Sul e Taiwan.

Nessa altura, qualquer alegação de que a China deseja ascender pacificamente ao status de superpotência já foi completamente estilhaçada. O segundo país mais poderoso do mundo faz parte de uma preocupante tendência global de interferência nos direitos humanos, nacional e internacionalmente, por regimes autocráticos. Já vimos a Rússia, outra superpotência autoritária, tomar medidas drásticas contra ativistas antigovernamentais do seu país e anexar a Crimeia da vizinha Ucrânia. Da mesma forma, o governo de Narendra Modi na Índia tentou silenciar a oposição nacional e invadiu a Caxemira semiautônoma, assim como o regime militar da Turquia prendeu jornalistas e deslocou milhões de turcos no norte da Síria.

Sua motivação é excepcional: a autoperpetuação

Esses regimes não mostram escrúpulos quando se trata de esmagar dissidentes, paralisar a sociedade civil e remover quaisquer obstáculos em seu caminho para consolidar e manter o poder em seu país. Fora de suas fronteiras, utilizam o seu poderio militar para fazer demonstrações de força, e, mais importante, para impressionar e intimidar seus cidadãos. Essas ofensivas gêmeas são críticas, porque os regimes autocráticos frequentemente se envolvem em lutas faccionais internas, enquanto lutam contra insurgências populares na região.

Por mais invencíveis e invulneráveis que pareçam aos olhos do mundo, a estratégia das duas frentes é a única forma de reter o seu poder e prolongar a sua existência. A simultânea expansão territorial no exterior e repressão brutal de minorias e ativistas de direitos humanos por parte da China são um bom exemplo.

Mas isso não é tudo. A Iniciativa do Cinturão e da Rota do presidente Xi Jinping, que abrange todo o continente, sugere uma aspiração ainda maior: desafiar o domínio dos EUA nos mercados e na diplomacia globais. Em muitos aspectos, a fórmula um país, dois sistemas de Hong Kong tem sido também a maneira pela qual os líderes chineses entenderam a sua relação com o resto do mundo. Na sua visão grandiosa de uma nova ordem mundial, Xi está antecipando a estrutura de “um mundo, dois impérios”, na qual os Estados Unidos e seus aliados defendem sua ideologia liberal baseada em direitos e a China e o resto dos países de partido único exigem que o mundo livre não interfira com eles, enquanto silenciosamente continuam seu programa opressor e expansionista. A Iniciativa do Cinturão e da Rota é uma tentativa mal disfarçada de criar um bloqueio estratégico para conter o sistema de alianças dos Estados Unidos com Japão, Coreia do Sul, Filipinas, Taiwan e Austrália, que tem sido o alicerce da segurança no Leste Asiático desde a Segunda Guerra Mundial.

Uma nova guerra fria está se formando entre a China e o resto do mundo democrático, e Hong Kong mantém a sua posição em uma das suas primeiras batalhas. Nada reflete essa tensão de maneira mais vívida do que os surreais momentos vistos em tela dividida no 1º de outubro de 2019, em que a cobertura ao vivo das celebrações do 70º aniversário em Pequim foi mostrada ao lado de cenas de manifestantes antigovernamentais desafiando o gás lacrimogêneo e jogando ovos nos retratos de Xi Jinping nas ruas de Hong Kong. O contraste entre as duas narrativas não só simboliza a luta de Davi contra Golias dos habitantes de Hong Kong contra um regime infinitamente mais poderoso, mas envia também uma mensagem clara ao mundo de que o controle da China sobre Hong Kong é parte de uma ameaça muito mais ampla contra a democracia mundial.

Em maio de 2019, cinco meses antes das comemorações do Dia Nacional, entrei na prisão pela segunda vez. Passei sete semanas no Centro de Recepção Lai Chi Kok por violar uma ordem judicial durante a Revolução dos Guarda-chuvas. Tentei confortar os meus pais minimizando a situação e dizendo-lhes que havia aprendido suficientes gírias presidiárias em Pik Uk como para me dar bem com os outros detentos. Eu brinquei que meu maior arrependimento foi perder a noite de abertura de “Vingadores: Ultimato”, a sequência de “Vingadores: Guerra Infinita”, que havia assistido várias vezes.

Antes de ir para a prisão, um jornalista estrangeiro me pediu um comentário sobre minha segunda prisão e a repressão chinesa contra ativistas pró-democracia em geral. Lembrei-me da conversa com meus pais e respondi: “Este não é o fim do jogo. Nossa luta contra o Partido Comunista da China é uma guerra infinita”.

Temo que a guerra infinita que tem atormentado Hong Kong por anos será lançada em breve em um cinema político perto de suas casas.

O canário na mina: um manifesto global pela democracia

Em setembro de 2019, durante a audiência da Comissão Executiva sobre a China do Congresso estadunidense, dei um sério aviso ao comitê reunido no Capitólio: “O que está acontecendo em Hong Kong é importante para o mundo. O povo de Hong Kong está na linha de frente do confronto com o governo autoritário da China. Se Hong Kong cair, o próximo pode ser o mundo livre”.

Hong Kong é o lugar onde nasci e é a minha querida casa. Neste lugar mágico há muito mais do que se vê a primeira vista. Além de altos arranha-céus e shoppings reluzentes, esse território semiautônomo é o único lugar em solo chinês onde os cidadãos ousam enfrentar os que estão no poder, porque a nossa existência depende disso. Para bem ou para mal, os tsunamis de resistência dos últimos anos transformaram o centro financeiro em uma fortaleza política. Apesar dos esforços de Pequim para manter a cidade em um estado de perpétua adolescência, ela se superou a si mesma e ao seu mestre. Os habitantes de Hong Kong também evoluíram de entes econômicos indiferentes para nobres lutadores pela liberdade.

Desde a transferência da soberania, travamos uma batalha solitária e incerta contra uma superpotência autocrática, com os poucos recursos que tínhamos: nossa voz, nossa dignidade e nossa convicção.

Da Turquia e Ucrânia à Índia, Birmânia e Filipinas, os cidadãos enfrentam regimes opressores para defender seus cada vez mais limitados direitos.

Mas em nenhum outro lugar do mundo a luta entre o livre arbítrio e o autoritarismo foi mais claramente demonstrada do que aqui. Na nova guerra fria transpacífica, Hong Kong é a primeira linha de defesa para conter ou pelo menos desacelerar a perigosa ascensão de uma superpotência totalitária. Como o canário na mina ou um desses primitivos sistemas de alarme em uma costa sujeita a tsunamis, enviamos um sinal de socorro ao resto do mundo para que contramedidas sejam tomadas antes que seja tarde demais. Hong Kong precisa da comunidade internacional tanto quanto a comunidade internacional precisa de Hong Kong. Porque Hong Kong de hoje é o resto do mundo de amanhã.

A melhor maneira de ilustrar esse ponto é entender o “terror branco” que assola Hong Kong desde que a cidade voltou ao domínio chinês. O termo faz referência ao ataque sistemático à liberdade de expressão e a outros valores democráticos, não com poder militar, mas com formas mais sutis de medo e intimidação.

Durante anos, as empresas locais de Hong Kong foram pressionadas a não falarem de questões políticas delicadas ou a se alinharem abertamente com o governo chinês, para não enfurecer Pequim ou ofender o lucrativo mercado do continente. A mídia de Hong Kong se autocensura por medo de perder receita com anúncios. Algumas celebridades apareceram em vídeos se desculpando por “ferir os sentimentos” do povo chinês ao intervir inadvertidamente em debates políticos. Os sentimentos do povo chinês são feridos com tanta facilidade e frequência que foi cunhada uma nova frase para descrever o fenômeno: o chamamos o “síndrome do coração frágil”.

No auge dos protestos da Lei de Extradição, a Cathay Pacific – a principal companhia aérea de Hong Kong, fortemente dependente do mercado chinês – demitiu duas dúzias de pilotos e comissários de bordo que haviam simpatizado com os manifestantes. O presidente enviou uma carta aos 33 mil funcionários avisando-os de que poderiam ser demitidos se postassem mensagens em defesa dos protestos nas redes sociais e os encorajou a denunciar “comportamento inaceitável” entre seus colegas. Esse incidente aconteceu enquanto eu estava em Washington D.C., e depois da coletiva de imprensa, mencionei isso à presidente Nancy Pelosi: “É um bom exemplo do terror branco de que falei em minha declaração esta manhã. Vamos torcer para que o que aconteceu na Cathay Pacific nunca aconteça nas empresas americanas”.

Menos de um mês depois de proferir essas palavras proféticas, começou a polêmica da NBA, desencadeando uma das maiores crises de relações públicas da história do esporte profissional. Em outubro de 2019, Daryl Morey, gerente do Houston Rockets, postou um tweet apoiando os manifestantes de Hong Kong. O comentário de Morey provocou uma reação massiva na China, envolvendo o cancelamento de jogos, a remoção de anúncios e o boicote dos fãs de basquete da China continental. Quando o comissário da NBA, Adam Silver, disse a repórteres que Pequim pressionou as franquias para que demitissem Morey, a China Central Television, a emissora estatal, advertiu Silver sobre “retaliação mais cedo ou mais tarde” e “espetaculares consequências financeiras”.

Naquele mesmo mês, a Blizzard Entertainment, uma empresa estadunidense de videogames, se viu em um atoleiro diplomático semelhante. Temendo a reação da China, a Blizzard demitiu o jogador de esports Ng Wai Chung por apoiar abertamente os manifestantes de Hong Kong e tirou-lhe o prêmio em dinheiro (que acabou devolvendo devido ao clamor internacional). Depois disso, a Apple cedeu à pressão de Pequim e removeu da sua loja de aplicativos o HKmap.live, um aplicativo de participação coletiva que os manifestantes vinham usando para rastrear os movimentos da polícia e evitar prisões. Em resposta à decisão da Apple, enviei uma carta ao seu presidente, Tim Cook, pedindo-lhe que respeitasse seu compromisso com a liberdade de expressão em face da pressão da China. Não o fiz porque esperava uma resposta ou um recuo por parte da Apple, mas porque queria enviar uma mensagem urgente à comunidade internacional.

Se até a Apple – o gigante da tecnologia líder no mercado global e que no passado lutou com unhas e dentes contra as autoridades dos EUA em defesa da privacidade dos usuários – cedeu à pressão autoritária, como podemos esperar que outra empresa ou pessoa enfrente a China no futuro?

Apesar dessas repercussões de alto nível, ocorridas em um curto espaço de tempo, terem chocado o mundo, não são novidade para nós. O povo de Hong Kong está tão acostumado a essa intimidação estatal orwelliana que já nem nos surpreendemos.

Infelizmente, o que vem acontecendo em Hong Kong há anos, agora está acontecendo no resto do mundo. Os cidadãos finalmente percebem que a China comunista está usando sua influência e mobilizando seu povo para coagir as empresas estrangeiras a acatarem a sua visão de mundo. Isso torna a China, o regime autocrático mais poderoso e o maior mercado consumidor do planeta, a maior ameaça à democracia mundial. Farhad Manjoo, jornalista do New York Times, chamou o país de “uma crescente ameaça existencial à liberdade humana no mundo”.

Nossa luta se tornou sua luta, gostem ou não. O mundo não pode ficar de braços cruzados enquanto a situação em Hong Kong continua a se deteriorar. Se Hong Kong cair, cairá também a primeira linha de defesa do mundo. E se governos e multinacionais continuarem a se curvar ao centro de gravidade da China, não demorará muito para que os cidadãos do mundo inteiro sintam a mesma dor que nós temos sentido todos os dias nas últimas duas décadas. Ao apoiar a luta de Hong Kong contra o regime comunista, a comunidade internacional está colaborando em uma luta mais ampla contra a disseminação da tirania que, da mesma forma que as mudanças climáticas ou o terrorismo, ameaça o modo de vida e a liberdade no planeta inteiro. Por isso, apoiar Hong Kong é apoiar a liberdade. E por isso é necessário agir agora, antes que seja tarde demais.

No Oriente, o pior cenário já está no horizonte. A China de Xi Jinping está sofrendo a crescente pressão do fardo econômico que implica enfrentar uma guerra comercial com os Estados Unidos, por um lado, e os distúrbios regionais em Xinjiang, Tibete e Hong Kong, pelo outro. Ao mesmo tempo, devido à perigosa combinação de desemprego crescente e inflação, a agitação social na China continental, exacerbada pela epidemia de peste suína africana que fez subir o preço da carne suína, um importante alimento básico, está se fazendo sentir. Confrontado com problemas desestabilizadores de todos os lados, Xi Jinping optou por fortalecer sua posição, promovendo o nacionalismo na China e intensificando a repressão aos dissidentes. Ele confia que sairá desses tempos turbulentos com uma mão mais dura e medidas mais rápidas, o que, por sua vez, torna o meu apelo para que apoiem Hong Kong mais urgente e crítico do que nunca. A retirada da Lei de Extradição pelo governo de Hong Kong é simbolicamente importante porque é a primeira vez que Xi tem recuado desde que assumiu o poder em 2012. Nossa batalha duramente vencida indica que o homem forte, semelhante a Mao, não é invencível, e que só haverá luz no fim do túnel se trabalharmos unidos. Pensem nisso: se um grupo de jovens sem líderes e com proteções rudimentares consegue uma concessão do regime autocrático mais poderoso do mundo e com um dos maiores exércitos do mundo, imaginem o que conseguiríamos se agíssemos juntos.

*Por Joshua Wong – secretário-geral da Demosisto, uma organização pró-democracia que fundou em 2016 e que defende a autodeterminação para Hong Kong.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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