Fale conosco

O que vc está procurando?

Mundo

Revolução Cubana: abertura ou caos

A história e o presente dessa Revolução mal se evocam: o bloqueio econômico, as agressões militares, as operações de inteligência política e midiática que sofreu e que sofre o processo cubano

Revolução Cubana abertura ou caos
(Crédito: Stefani Reynolds/Getty Images)

Diante da maré de protestos que hoje enfrenta a Revolução Cubana, o primeiro a destacar é a forma como, com as devidas exceções, os meios de comunicação ocidentais tratam o problema. Cuba seria algo assim como qualquer uma das ditaduras que devastaram a América Latina. No melhor dos casos, um populismo do tipo venezuelano ou argentino: autoritário, corrupto e corruptor, distribuidor do que não produz e capitão de um navio que segue rumo ao naufrágio econômico, político e social.

A história e o presente dessa Revolução mal se evocam: o bloqueio econômico, as agressões militares, as operações de inteligência política e midiática que sofreu e que sofre o processo cubano. Os populismos e até as ditaduras da região não sofrem essas medidas, pois lá sempre se pode fazer negócios. A exceção foi a Venezuela, justamente porque o chavismo apontava para o modelo cubano; embora depois, com Maduro, tenha acabado onde está hoje, apesar das suas enormes riquezas naturais. Enfim, a maioria dos meios de comunicação não respeita as regras profissionais diante de uma questão não circunstancial, mas inscrita na evolução histórica.

É verdade que, do ponto de vista republicano, Cuba é uma ditadura. Também que não produz o que precisa e que quando a ajuda soviética cessou, na década de 90 do século passado, a distribuição estagnou. “Em 1989, trinta anos depois da Revolução, fontes confiáveis estimavam que Cuba havia recebido 80 bilhões de dólares em ajuda dos países socialistas (…), sem incluir a ajuda militar. No entanto, ainda era um país basicamente monoprodutor e monoexportador e ainda não conseguia alimentar adequadamente a sua população. O número de leitos e a receita do turismo eram quase exatamente os mesmos de antes da Revolução. O país não se havia desenvolvido no sentido pleno do termo, apesar de que a ajuda soviética representasse um rendimento equivalente, em termos relativos, à receita colonial obtida pelos países industrializados”, escrevi em 2014. Além disso, por que negar, o regime exibe manchas de corrupção, embora nada comparáveis às dos populismos regionais.

Mesmo assim, Cuba é outra coisa. Apesar dos bloqueios e das agressões sofridas desde que Fidel Castro e seus guerrilheiros derrubaram o ditador Fulgencio Batista, o país deixou de ser o “bordel de luxo” do turismo ocidental, como era conhecido, para se tornar uma nação muito mais igualitária, iluminada e saudável; desenvolvida até em ciência e tecnologia. Dezenas de milhares de médicos cubanos prestam serviços na América Latina e em países do Terceiro Mundo. Não é hoje o único país da América Latina que conseguiu criar uma vacina anti-Covid?

A crise econômica, precipitada pela pandemia

O tempo e a história fizeram com que outras “ditaduras do proletariado”, como a Rússia, o Vietnã e especialmente a China, se tornassem grandes potências capitalistas sob ditaduras que poderiam ser qualificadas como “sociais”, já que tiraram esses países da mistura de feudalismo e monarquia em que se encontravam. Mas, ao contrário de Cuba, são países imensos, com enormes mercados internos potenciais, riquezas naturais e são orientais. Em outras palavras, eles têm as bases para se desenvolverem e competirem economicamente, e uma cultura que não anseia nem aspira à democracia republicana; embora, claro, essa hora esteja chegando.

Cuba fez o que pôde, mas não tem as bases e está no Ocidente; ou seja, não tem recursos e se encontra bloqueada. A sua população, hoje instruída, olha para onde a sua cultura indica e consegue olhar: uma abertura republicana. Do jeito que estão as coisas hoje, ou é isso, ou é caos.

O que aconteceria então se o regime cubano propusesse aos Estados Unidos, em troca do levantamento imediato de todas as sanções, convocar eleições livres, sob a supervisão da ONU, dentro de um prazo determinado?

O presidente Biden, ex-vice-presidente do iniciador de uma abertura com Cuba, Barack Obama, não poderia responder até depois das eleições legislativas de meio de mandato, pois precisa do voto latino anticastrista. Por isso, ele se coloca, ainda que de forma ambígua, ao lado daqueles que exigem, sem matizes, a queda do regime. E então, mesmo que vencesse, teríamos que ver. Essas decisões dependem de muitas coisas.

Mas, em qualquer caso, a situação sofreria uma reviravolta. A mídia e a opinião ocidentais não poderiam continuar ignorando as consequências do bloqueio e dos ataques, já que a proposta os colocaria nos holofotes. Tão pouco a realidade cultural e social cubana, tão diferente e até melhor que a da maioria dos países da região e do Terceiro Mundo. Se a situação se tornar polarizada interna e internacionalmente, a ONU talvez se sentisse forçada a intervir.

É possível até imaginar que, chegando nesse ponto, o governismo atual vencesse as eleições. Ou que, mesmo perdendo, continuaria sendo um partido importante. Cuba, um país social-democrata de corte escandinavo?

Enfim: imaginar, como sonhar, é grátis.

*Por Carlos Gabetta – Jornalista e escritor.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

Mais em Perfil

Últimas Notícias