Uma mordida na “maçã” digital

*Por Agustino Fontevecchia.

Uma mordida na maçã digital
(Crédito: Drew Angerer/ Getty Images)

Nos últimos anos, testemunhamos como o ecossistema de informações migrou quase inteiramente online. Embora a resiliência da mídia tradicional, como impressão, rádio e televisão, os mantenha vivos, a maior parte do público hoje está definitivamente online, consumindo informações por meio de smartphones e provavelmente se engajando nas mídias sociais.

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Tudo isso criou enormes desafios para o ecossistema de informação na Argentina e em todo o mundo. A ascensão de uma nova versão turbinada da polarização, juntamente com a desinformação, está diretamente ligada à ascensão do ecossistema digital em sua forma atual, que obviamente inclui um oligopólio que passou a governar nossas vidas digitais. Quando se trata de informação, o Google e o recém-nomeado Meta (anteriormente Facebook) continuam a deter as chaves, atuando como guardiões das notícias, mas também dos mercados em que as empresas de mídia operam. Quase todas as redações do mundo estão em algum estágio de uma crise de longa duração derivada da implosão de um modelo de negócios que nunca conseguiu se adaptar ao mundo digital. É imperativo entender a composição do ecossistema de informação e como os diferentes atores o afetam, a fim de entender como tentar construir uma estrutura que seja benéfica para a sociedade.

Em um passado não muito distante, a noção de que a Internet era um lugar de abertura e liberdade permeou a forma como as grandes empresas de tecnologia eram percebidas, permitindo-lhes operar sob certas condições sociopolíticas favoráveis. A ideia de que serviam como meros canais de informação – seja na forma de postagens no Facebook, tweets ou resultados de pesquisa via Google – protegeu esses gigantes do Vale do Silício de certas formas de regulamentação que os forçariam a policiar o conteúdo que entregavam. para bilhões de pessoas em todo o mundo. Como uma empresa de telefonia ou um provedor de TV a cabo, o conteúdo gerado por algoritmos que essas empresas devolviam aos usuários deveriam ser livres de intencionalidade, visando apenas pura e racionalmente a eficácia e a precisão. Embora esse modelo tenha quebrado há algum tempo, a farsa útil foi mantida viva e, em muitos casos, ainda continua até hoje.

Quando uma empresa como a Meta/Facebook decide se posicionar em relação à guerra entre a Ucrânia e a Rússia, ela deixa de ser um ator neutro. Juntamente com outros poderosos do Vale do Silício, como Google e Twitter, a Meta reprimiu os meios de propaganda russos, como Sputnik News e Russia Today, enquanto ajustava suas regras de discurso de ódio para permitir que os usuários pedissem violência física contra militares russos e Vladimir Putin. Essas decisões são semelhantes a quando as principais plataformas baniram ou “desplataformaram” o presidente dos EUA, Donald Trump, após o tumulto do Capitólio de 6 de janeiro. Mais uma vez, ao decidir tomar ações que afetam quem pode se comunicar e o que pode expressar nas principais rodovias de informação de nosso tempo, essas empresas estão distorcendo ativamente o discurso público. É claro que os seguidores de Donald Trump e ativistas pró-Rússia acreditarão que estão sendo injustiçados pelos Mark Zuckerbergs e Larry Pages do mundo, e estariam certos em acreditar nisso. Essas firmas geraram uma relação de confiança com seus usuários a partir das já mencionadas noções de liberdade e abertura que não mais dominam a Internet. Uma e outra vez eles quebraram essa confiança.

Na Argentina, como na maioria dos outros mercados de mídia, os principais meios de comunicação são julgados por suas métricas digitais. O número de visitantes únicos e seguidores em cada plataforma de mídia social desempenha um papel importante na construção de uma subjetividade em relação ao valor relativo dessas empresas. Essas métricas – controladas direta e indiretamente pelo Google e Meta/Facebook – determinam o sucesso ou fracasso dos projetos jornalísticos. Há alguns anos, por exemplo, Zuckerberg anunciou que o feed de notícias do Facebook reduziria a presença de páginas e meios de comunicação ao mesmo tempo em que priorizaria postagens de amigos e familiares. As principais editoras argentinas perderam até 70% de seu tráfego digital como consequência. O Google, escondendo-se atrás de uma suposta comunidade de código aberto, construiu o AMP (Accelerated Mobile Pages) que se tornou um recurso necessário para ocupar setores altamente visíveis de suas páginas e produtos, essencialmente obrigando todos os publishers a adotarem a tecnologia. Mais tarde, manipulou as páginas AMP para favorecer seus próprios produtos e tecnologia de publicidade, e hoje nega que seja um fator de classificação, apesar do crescimento exponencial do tráfego para os editores que a adotaram totalmente.

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O problema com o Google e o Faebook sugando o ar do mercado de publicidade digital é que isso deteriorou seriamente a qualidade do jornalismo em todo o mundo. A crise econômica enfrentada pela mídia levou os editores a adotarem estratégias digitais que visam aumentar o alcance e as interações. Seguindo os modelos de negócios do Google e do Facebook, as editoras adaptaram suas redações para criar o máximo de conteúdo “algoritmo-agradável” possível, colocando o robô e não o humano no centro das coisas. Infelizmente para as empresas de mídia tradicional, a estratégia não dá muito certo, pois a receita gerada pela publicidade digital não é suficiente para sustentar uma redação profissional que busca matérias jornalisticamente relevantes.

Existe uma solução para este problema? Ao longo dos últimos anos, a ideia de regular a Big Tech definitivamente se firmou. Não está totalmente claro se vai dar certo, mas já na União Europeia e na Austrália uma série de projetos de lei destinados a fazer com que Google e Facebook negociem com grandes empresas de mídia surtiu algum efeito. Ambas as empresas lançaram projetos globais para pagar por conteúdo e chegaram a acordos com grandes editoras, incluindo a Perfil. Mas isso ainda não é suficiente. Em um discurso recente, o ex-presidente dos EUA, Barack Obama, analisou a situação e propôs uma série de princípios que devem nortear a regulação tecnológica: um ecossistema que fortaleça as perspectivas para a democracia, estimule o debate robusto, reforce o estado de direito, priorize as melhores informações e reconhece os direitos de todos os cidadãos. Essas são todas concepções relacionadas ao conteúdo, às quais Obama deve somar a construção de um ecossistema midiático saudável e vibrante.

Como Adão e Eva depois que provaram aquela maçã fatal, estamos cientes de que estamos nus. Não estamos mais aceitando ingenuamente a ideia de que a web e as principais plataformas que a povoam são neutras. Da mesma forma que a noção modernista de pura objetividade no jornalismo está morta, a ideia de que cada participante do ecossistema digital perseguirá seus próprios interesses e que diferentes níveis de regulação são necessários. Parte do trabalho duro já foi feito, mas não é suficiente e não vai acontecer por si só. É preciso haver uma ação mais proativa se quisermos realmente tornar a Internet uma força para o bem.

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*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Buenos Aires Times, da Editora Perfil Argentina.

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