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A Fadinha do skate e as características da Geração Z

Entenda um pouco melhor sobre a diferença de cada uma das gerações, e como nós, das gerações anteriores, podemos aprender com a geração Z, ou como você dessa geração pode se orgulhar e ressaltar ainda mais os pontos positivos de um verdadeiro Z-lennial

A Fadinha do skate e as características da Geração Z
Rayssa Leal (Crédito: Ezra Shaw/Getty Images)

Quem não se apaixonou pela querida Rayssa Leal, adolescente de 13 anos da geração Z, que ficou conhecida como fadinha, e trouxe a medalha de prata inédita do skate feminino para o Brasil, pode ser que esteja morando em outro planeta.

Brincadeiras à parte, comecei a observar e admirar o jeito leve da Fadinha, e, ao mesmo tempo, relembrei a discussão e rixa entre as gerações Y e Z, geradas por uma thread no Twitter no final do mês de junho, e fiquei pensando, como nós, das gerações anteriores, podemos criticar a Geração Z, sendo que a Rayssa parece “perfeita, sem defeitos”? Ela que é pura representatividade: mulher, nordestina, pioneira e a atleta mais jovem a trazer uma medalha para nosso país.

Portanto, minha intenção com esse texto é mostrar algumas características positivas da Geração Z, encontradas na maneira de agir da Rayssa (sem ser cringe, claro), e o que podemos aprender com elas, afinal, os jovens dessa geração estão invadindo o mercado de trabalho, encontram-se em peso nas turmas iniciais da graduação que leciono e começaram a consumir diversos produtos e serviços.

Diferenciando as gerações

Os grupos etários, também conhecido como Gerações, apresentam valores, necessidades e padrões de comportamento semelhantes, formando assim uma subcultura que pode conter importantes segmentos de mercado (MOWEN; MINOR, 2003), afinal, cada grupo etário sofreu grandes influências e foi marcado por fatos históricos, tecnologia, valores, atitudes e predisposições de uma época (PARMENT, 2013).

De acordo com os autores Blackwell, Miniard e Engel (2011), existe grupos etários importantes para as empresas, os quais denominam-se como: baby boomers, a Geração X, a Geração Y, Geração Z e Geração Alpha (nascidos pós 2010, ainda crianças e pré-adolescentes).

Entenda um pouco melhor sobre a diferença de cada uma das gerações, e como nós, das gerações anteriores, podemos aprender com a geração Z, ou como você dessa geração pode se orgulhar e ressaltar ainda mais os pontos positivos de um verdadeiro Z-lennial .

Baby Boomers

Os baby boomers são pessoas nascidas no período após a Segunda Guerra Mundial, de 1946 a 1963 (algumas literaturas falam que é até 1964). Durante a Grande Depressão, que ocorreu em 1929 e se arrastou na década de 30, houve uma redução drástica no número de nascimentos nos Estados Unidos. Após esse período de turbulência, houve um boom na taxa de nascimentos, o que caracteriza o nome desta geração – baby boomers (BLACKWELL; MINIARD; ENGELS, 2011; MOWEN; MINOR, 2003).

De acordo com Parment (2013), essa geração caracteriza-se por uma perspectiva revolucionária, vivenciaram a revolta estudantil de 1968, em Paris, e a guerra no Vietnã; começaram a ter mais acesso a viagens que seus pais, e foram fortemente impactados pela frase ‘tudo é possível’, ao ver o homem pisar pela primeira vez na Lua, televisão em cores e viram despontar grandes ícones, principalmente do rock and roll, como Beatles e Bob Dylan, nascendo em tempos de esperança e amor.

Para os nativos dessa geração, as regras eram mais claras, o espaço de trabalho limitava-se ao escritório, responsabilidades eram individuais e específicas e sabia-se exatamente a hora de chegar e de sair do trabalho. Hierarquias para essa geração é algo necessário, e os mais velhos costumavam ensinar aos mais novos dentro de uma empresa, sociedade ou vida pessoal (BOX 1824, 2012).

Após o período de grandes turbulências e guerra, as instituições e empresas representavam a estabilidade tão sonhada por todos da época. Logo, as pessoas tendiam a entrarem numa grande empresa, com o intuito de aposentarem-se, onde ter um emprego garantia status social, para casar-se e ter filhos. O trabalho não se misturava com a vida pessoal e não existia hora-extra trabalhada em casa (BOX 1824, 2012).

Trabalhar muito era sinônimo de disciplina e honra, e isso se reflete no consumo. Os sacrifícios diários garantiam o sustento da família e sabiam que mais cedo ou mais tarde grandes recompensas viriam (BOX 1824, 2012). São apegados às instituições, ao tradicionalismo, às regras, à hierarquia e honram as suas dívidas; possuem dificuldades com a tecnologia e são resistentes às mudanças (BLACKWELL; MINIARD; ENGELS, 2011; MOWEN; MINOR, 2003; BOX 1224, 2012).

Geração X

A geração X é composta por pessoas nascida entre 1964 (algumas literaturas falam que é a partir de 1965) e 1979 (MOWEN; MINOR, 2003). Foi muito impactada pela turbulência social e econômica, deixando-a menos otimista, porém mais autoconfiantes.

Eles vivenciaram o crescimento dos computadores pessoais e, com isso, o aumento da capacidade de armazenamento de informações, a popularização de divórcios, a explosão da Aids e o multiculturalismo.

Viveram em período de Guerra Fria (BLACKWELL; MINIARD; ENGELS, 2011; MOWEN; MINOR, 2003). De acordo com Mowen e Minor (2003), essa geração é marcada por dar importância à religião, aos ritos formais, como por exemplo a formatura e os certificados adquiridos ao longo da vida, são materialistas e homens e mulheres passaram a competir entre si vagas no mercado de trabalho.

Essa geração é workaholic (viciada em trabalho), misturando o trabalho e a vida pessoal, e são competitivos desde criança, por conta do primeiro videogame ser bastante utilizado por essa geração, na qual no trabalho fazem de tudo para terem um crescimento rápido, buscando sempre as melhores propostas das empresas e desconfiando das mesmas, ao contrário da geração baby boomer, que as viam como um porto seguro (MOWEN; MINOR, 2003; BOX 1824, 2012).

“Valorizam mais a meritocracia que anos de experiência na empresa, procurando formas de se destacarem individualmente e serem mais independentes.”

O vencedor, para essa geração, era quem chegasse primeiro na diretoria. Nessa lógica, um bom guarda-roupas e um bom cartão de visitas ajudavam a fechar negócios e expandir seus contatos; estar no lugar certo e na hora certa era o que definia sua carga horária e o espaço do seu trabalho foi estendido para o happy hour (BOX 1824, 2012). No consumo, essa geração gosta de ostentar seus cargos, por meio de suas conquistas. Prezam as marcas e status (BOX 1824, 2012).

A Geração Y ou Millenials

A geração Y, formada por adultos que buscam maior interatividade com a Internet, são inovadores e valorizam a participação e controle de informações, se negando a serem usuários passivos (TAPSCOTT, 2010). É composta por pessoas nascida entre 1980 e 2000 (PARMENT, 2013). Alguns autores também alegam que a geração Y nasceu de 1980 e 1995, como Oliveira (2010). Possuem grandes inspirações, onde muitos planejam ou já são donos de seu próprio negócio, por conta de sua mentalidade digital, líquida e coletiva, a qual já afeta a maneira de se trabalhar. Querem curtir o caminho, ao invés de chegarem em seu destino final (BOX 1824, 2012).

De acordo com Box 1824 (2012), a geração Y não tem muita paciência, pois estão habituados a um mundo com mobilidade, instantaneidade, simultaneidade e velocidade, por conta da tecnologia em seus tablets e smartphones.

Parment (2013) alega que a geração Y não quer assumir perspectivas fornecidas pelas autoridades, sem acrescentar um pouco de sua própria reflexão, algo que explica a perda de poder para os sindicatos, igrejas e partidos políticos. Nasceram em tempos de maior estabilidade econômica, o que lhes permitiu ter mais acesso à educação e comunicação; é a mais confiante e independente de sua história; possui maior contato com TV à cabo, internet, novas tecnologias e globalização, por isso, conseguem exercer múltiplas tarefas ao mesmo tempo.

São mais conectados, participantes de redes sociais, geradores de conteúdo, repudiam o trabalho servil. Logo, trabalham para viver, não vivem para trabalhar (TAPSCOTT, 2010). Por nascer em tempos de maior escassez de recursos naturais, têm maior preocupação com questões ambientais. Saem cada vez mais tarde da casa dos pais (TAPSCOTT, 2010).

A geração Y possui prioridades diferentes das outras gerações, valorizando ideais próprios, buscando mais lazer e participando de festas. São menos hierárquicos e tradicionalistas, multiculturais, não prezando pelo bem material, mas sim por suas experiências (BOX 1824, 2012).

Porém, há diferenças importantes entre a Geração Y e a Z. A Geração Z, por nascer num ambiente mais complexo e mutável, consegue trabalhar melhor em equipe que a geração Y, sendo um pouco menos individualista, além de ter mais atenção às causas ambientais e sociais, como verificaremos a seguir.

Geração Z e o que podemos aprender com a Fadinha

A Geração Z é composta por indivíduos nascidos a partir de 1995 até 2010 (PARMENT, 2013), ou de até 2000 até 2010 (OLIVEIRA, 2010). Por serem nativos digitais, se adaptam facilmente às novas tecnologias e velocidade na captação de conteúdo.

Esta geração é muito marcada por mudanças políticas, sociais e tecnológicas que influenciaram e alteraram as suas crenças e formas de viver. Sempre conheceram um mundo instável e estão acostumados à turbulência que os rodeia. Um marco dessa geração é a queda das Torres Gêmeas, nos Estados Unidos da América, em 2001. Logo, esses jovens encaram o mundo de uma forma mais pragmática e realista do que os seus pais. Particularmente, muitos enfrentaram a crise econômica diretamente, vendo os seus pais cortarem despesas do lar ou até a perderem os seus empregos (SILVA, 2017).

São jovens ativos, multifacetados, conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo. É uma geração empreendedora e inovadora, que procura deixar a sua marca pessoal em tudo que faz. Notem que a Fadinha, ao mesmo tempo que escuta suas músicas favoritas em seus treinos, também entre uma pausa e outra consegue fazer conteúdo no TikTok e conversar com seus fãs.

Além do mais, essa geração consegue facilmente ignorar aquilo que não é do seu interesse, ou seja, criam barreiras de atenção onde apenas absorvem aquilo que realmente lhes interessa.

Podemos ver essa característica no retorno de Fadinha ao nosso país: ela não quis posar para fotos ao lado de políticos de sua cidade, afinal, quando ela precisava de patrocínio e auxílio da secretaria de esportes do município, solicitados pelo seu pai, não obteve ajuda.

Essa geração está habituada a se comunicar por vídeos e imagens (vide o TikTok), reduzindo o número de palavras utilizadas, onde o segredo é simplificar a forma como se comunica com eles. Como são nativos digitais, a tecnologia já faz parte do seu dia a dia, bem como expor um pouco mais da sua vida nas mídias sociais. Além do mais, a geração Z também gosta de viver no agora e as suas necessidades têm que ser satisfeitas de imediato.

Outra característica dos indivíduos dessa geração é trabalhar com mais facilidade com a diversidade, igualdade de gênero e globalização, já que para eles não existem fronteiras geográficas e a globalização é um termo que utilizam desde a infância (SINGH, 2013). Olhem como a Rayssa se conecta genuinamente com a skatista filipina Margielyn Didal, fazendo dancinhas juntas no TikTok, além de terem um fair play impressionante e admirável na competição.

A Fadinha também dialoga sem problemas com os skatistas mais velhos e pioneiros, como por exemplo Tony Hawk (da geração Baby Boomer), seguindo seus conselhos, compartilhando os treinos e interagindo nas mídias sociais. Também se espelha e compartilha suas conquistas e vivências com Letícia Bufoni (Geração Y) e Pâmela Rosa (também da Geração Z).

Além do mais, a Geração Z também possui espírito crítico em relação aos assuntos que os rodeiam, pois convivem com mudanças em diversos âmbitos, desde que nasceram, sendo muito sensíveis aos assuntos igualdade social e às alterações climáticas (SILVA, 2017). Note que Rayssa, ao voltar para o Brasil, pede aos seguidores para não aglomerarem no aeroporto, quando ela chegasse ao Maranhão, nem quando passasse com caminhão de bombeiros por sua cidade, Imperatriz.

Por conta da sobrecarga de informações, os Z’s procuram, de maneira corriqueira, momentos de diversão e formas de fazer mais rápido, melhor e de maneira mais divertida, as tarefas, na sua vida social, no local de trabalho ou mesmo nas suas compras. Valorizam experiências incríveis e significativas na sua vida (SILVA, 2017). Em entrevista para o Globo Esporte, após a conquista da prata nas Olimpíadas, Rayssa disse que “eu só me diverti, é o que eu mais sei fazer”.

A medalha de prata na ginástica artística geral (feminino individual), Rebeca Andrade, também da geração Z, ao falar carinhosamente sobre Simone Biles, torcia para que a ginasta voltasse a se divertir nas competições.

Por fim, sabemos que todas as gerações são compostas por suas luzes e sombras, logo, podemos aprender muitas coisas com todas. Atuando em times, considere representar cada uma delas, principalmente com a Geração Z, tão criticada nos últimos meses pelas gerações anteriores.

Que nós, das gerações baby boomer, X e Y, possamos aprender com a geração Z a saber dizer não ao que não faz parte de nosso propósito e verdade, não termos medo de pontuar o que é certo e errado para nossas vidas; que levemos em consideração trabalharmos com maior cooperação e menor competição. Também acho incrível a visão de mundo desses jovens, sua tolerância ao diferente, aceitação e maior engajamento e sensibilidade com as causas sociais e ambientais. Que possamos aprender com eles a levar a vida de uma maneira mais leve, não nos esquecendo de trazer e priorizar a diversão (sempre que possível) nos diversos âmbitos de nossa vida.

* Por Mariana Munis –  professora de Marketing e Comportamento do Consumidor da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

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