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A fronteira EUA-México: no seu ponto mais crítico em décadas

Somente em março, mais de 18.000 menores atravessaram pelo Texas, um novo recorde de migração hispânica indocumentada para o país do Norte.

A fronteira EUA México
Presidente dos Estados Unidos e Presidente do México durante videochamada em março de 2021. (Crédito: Getty Images)

Por Clarissa Demattei*

Em 26 de março de 2021, a história da imigração hispânica nos Estados Unidos atingiu um novo marco: mais de 18 mil menores, de países como México, Honduras e Guatemala, entre outros, permaneceram detidos na fronteira do Texas pelo serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras (Customs and Border Protection) dos Estados Unidos.

Mas esse novo registro nos remete a uma história mais complexa que parece não ter fim, e os números da imigração de indocumentados comprovam isso: durante fevereiro e março deste ano, as autoridades dos EUA registraram cerca de 100.000 travessias ilegais, o maior número em anos.

Histórias

Mas, por trás desses números, há histórias particulares que, além de tornar o problema mais complexo do ponto de vista humanitário, tornam impossível chegar a uma resolução legal que não demore meses e implica que, na maioria desses casos, os migrantes devem permanecer detidos nas instalações penitenciárias instaladas na fronteira. Porque cada caso que atravessa o Rio Grande – a fronteira fluvial que divide os dois países – é diferente, e parece que cada um é mais complicado do que o outro: gestantes de sete ou oito meses cujos filhos nascerão nos centros de internação texanos, cidadãos centro-americanos que fogem das ameaças de gangues do crime organizado como a Mara 18, bebês de poucos meses nos braços de suas mães, tráfico de pessoas, crianças menores que chegam sem os seus pais à margem estadunidense em botes infláveis sob os “cuidados” de os chamados coiotes, pessoas para quem aqueles que desejam imigrar pedem ajuda em troca de somas onerosas de dinheiro que às vezes chegam a representar a totalidade das suas economias. Em alguns casos, esses coiotes entregam o serviço, mas em outros acaba sendo nada mais do que uma fraude que deixa famílias sozinhas no meio do caminho, sem dinheiro e à mercê das autoridades americanas. Muitos se perguntam se a Proteção de Fronteira conhece os coiotes e, em caso afirmativo, por que eles não os prendem. Mas aí está o problema: os coiotes nunca colocam os pés em solo norte-americano.

Descontrolado

Para o Estado dos EUA, independentemente de quem seja ou haja sido o presidente, a imigração do México indocumentada representa um problema na agenda que há décadas não consegue resolver. Os Estados Unidos, uma nação soberana, perdeu um dos elementos essenciais de sua condição de Estado: o controle de sua fronteira sul. Ao longo dos anos, os EUA desenvolveram várias estratégias para conter o fluxo incessante de imigrantes indocumentados: maior presença da patrulha de fronteira, mais vigilância, tentativas de sancionar o México e a construção do famoso muro divisório que hoje atinge uma extensão de mais de mil quilômetros.

No entanto, nada disso foi frutífero. Estima-se que, em média, 5.000 pessoas cruzam diariamente as fronteiras fluviais e terrestres que separam o México dos EUA. E esses números podem chamar a atenção, mas tornam-se alarmantes quando consideramos também que 60% de todos os indocumentados que vivem no país norte-americano não chegaram por via terrestre, mas chegaram de avião com visto de turista e nunca mais partiram. Por isso, apesar de ter dobrado nos últimos vinte anos o número de patrulhas e policiais localizados na fronteira, a imigração ilegal não para de crescer.

Alterações

Apesar da forte presença policial nas fronteiras, para muitos a estratégia de migração está mudando. Com a nova administração, o governo Biden emitiu um decreto executivo que estabelece que eles não irão mais deportar imigrantes indocumentados assim que pisem em solo norte-americano, mas que todos os que forem pegos poderão pedir para comparecer à Justiça e fazer com que um juiz analise seu caso. Na melhor das hipóteses, eles podem permanecer no país condicionalmente com audiências periódicas ou pode mesmo ser concedido o asilo aos que fogem de gangues criminosas ou são vítimas de violência armada. No entanto, pode levar meses para que a justiça seja emitida, e os centros de detenção continuam a se enchendo de novos migrantes, dia após dia, hora após hora, até chegar em situações de superlotação. Em apenas seis meses, o aumento de migrantes menores desacompanhados praticamente dobrou e, devido a essa nova medida do governo Biden, o governo dos EUA prometeu não deportar nenhum menor até que tenha analisado o seu caso particular.

No entanto, a maioria não consegue ficar. Embora Biden conceda a cada imigrante o direito de testemunhar perante um juiz, contar a sua história e aguardar a ordem judicial, a realidade mostra que grande parte dos pedidos de residência são rejeitados e acabam sendo deportados para seus países de origem de avião o andando novamente para terras mexicanas.

Para os republicanos, a responsabilidade por essa crise de imigração sem precedentes é exclusivamente do presidente Biden, argumentando que as suas promessas de campanha de modificar o sistema migratório aumentaram as esperanças dos imigrantes centro-americanos que querem ir para os Estados Unidos. Para os democratas, pelo contrário, este desastre jurídico é consequência das más políticas do ex-presidente Trump e da recusa de levar a sério o assunto e elaborar uma política pública à altura da crise migratória. E, finalmente, para vários ex-presidentes dos EUA, o México tem grande parte da responsabilidade, porque não estabeleceu políticas restritivas para impedir a emigração de seus cidadãos. Vários autores duvidam da possibilidade de que o México tente bloquear a saída de seus habitantes quando as remessas dos EUA ao México por mexicanos que emigraram para o norte representam o segundo maior fluxo de divisas ao país depois do petróleo.

Hispânicos

Segundo estimativas do Escritório do Censo (Census Bureau), em 2020 os hispânicos nos Estados Unidos alcançaram os 60,6 milhões, constituindo 18,5% da população do país. No entanto, desses mais de 60 milhões, cerca de 10 milhões são indocumentados. Isso implica que 3% dos habitantes dos Estados Unidos vivem sem serem registrados pela lupa do Estado. Eles são invisíveis e o governo não sabe quem eles são. Mas essa situação está longe de ser resolvida. Inclusive, como consequência do enorme número de pessoas que chegaram ao país nas últimas décadas, tanto legal quanto ilegalmente, e favorecidas pela alta taxa de fecundidade, estima-se que até o ano 2100 os hispânicos serão a maioria da população dos Estados Unidos. Podemos imaginar um Estados Unidos latino no futuro? Para isso teremos que esperar. Mas, sem dúvida, o problema da imigração é uma enorme dívida pendente do Estado. Para alguns, é necessário reformar o sistema do zero e abolir a polícia de imigração (Immigration and Customs Enforcement, ou ICE, em inglês). Para outros, os Estados Unidos não podem resolver a situação sem a cooperação do México e de outros países da América Central. Para a maioria, é um problema que nunca terá fim.

* Graduada em Ciência Política (UCA), pesquisadora do Centro de Estudos Internacionais (CEI-UCA).

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina