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China leva para o espaço o seu desafio global aos Estados Unidos

Pequim lançou hoje o primeiro de três módulos para sua futura estação espacial, mais um passo na “construção de um país socialista moderno”, disse o presidente Xi Jinping.

China leva para o espaço o seu desafio global aos Estados Unidos
A China está decidida a desafiar os Estados Unidos pela hegemonia global até no espaço (Crédito: Getty Images)

 

A China está decidida a desafiar os Estados Unidos pela hegemonia global em todas as áreas, inclusive no espaço, para onde lançou na quinta-feira (29) o primeiro dos três módulos que constituirão sua futura estação espacial, que se somará àquela que a NASA tem em órbita desde 1998.

Haverá chineses permanentemente no espaço em breve? Pequim já deu o primeiro passo com o lançamento do primeiro dos três elementos da sua estação espacial “CSS”, cuja montagem será realizada ao longo de dez missões e terminará no final de 2022, no que será, nas palavras do Presidente Xi Jinping, uma grande contribuição “para a construção de um país socialista moderno de forma integral”.

O módulo central Tianhe (“Harmonia Celestial”), o lugar onde os astronautas viverão, foi impulsionado por um foguete Longa Marcha 5B do centro de lançamento de Wenchang, na ilha tropical de Hainan, no sul do país, e transmitido ao vivo pela emissora pública CCTV.

Em uma mensagem aos responsáveis ​​pelo lançamento, o presidente Xi enfatizou que a construção de uma estação espacial e um laboratório espacial nacional “são objetivos importantes da estratégia de três etapas do programa espacial tripulado da China e um importante projeto de vanguarda para o fortalecimento das capacidades do país em ciência e tecnologia, bem como no espaço”.

A estação é chamada em inglês CSS (para Estação Espacial Chinesa) e em chinês Tiangong (“Palácio Celestial”). Operará em órbita terrestre baixa (entre 340 e 450 km de altitude) e será semelhante à antiga estação russa “Mir” (1986-2001). Sua vida útil é estimada entre 10 e 15 anos.

A estação “será um grande avanço para a capacidade chinesa de voos tripulados”, afirmou Jonathan McDowell, astrônomo do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, nos Estados Unidos. “Isso deve permitir que eles tenham uma presença humana permanente no espaço e, portanto, aumentem significativamente a experiência de seus astronautas”.

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“Servirá de base para operações em maior escala: missões tripuladas à Lua, turismo espacial, ciência espacial ou mesmo aplicações concretas para seres humanos”, indicou por sua vez Chen Lan, analista do site GoTaikonauts.com, especializado no programa espacial chinês.

Uma vez concluída, estima-se que pese quase 100 toneladas. Para efeito de comparação, será cerca de três vezes menor do que a Estação Espacial Internacional (ISS) da NASA.

Competência

Medindo 16,6 metros de comprimento e 4,2 metros de diâmetro, o módulo Tianhe lançado hoje também será a peça central da futura estação e o posto de controle. Para terminar a construção da CSS, a China terá de lançar uma dezena de missões até ao final de 2022, algumas delas tripuladas, para transportar e montar os outros dois módulos. Não há calendário divulgado. Mas sabe-se que planeja lançar uma nave de carga Tianzhou-2 em maio, e em junho a missão tripulada “Shenzhou12”, que transportará astronautas a bordo dessa CSS em construção.

Com a CSS chinesa e a ISS chefiada pela agência espacial dos EUA (NASA), haverá então duas estações em órbita ao redor da Terra. “Politicamente, isso simboliza o fortalecimento da competição entre os Estados Unidos e a China”, opina Chen Lan.

Mas devido ao seu tamanho e à cooperação internacional limitada no momento, a estação chinesa não tem meios para competir com a ISS, “que geralmente é mais madura e eficiente”, estima Jonathan McDowell.

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Pequim se declara aberta a colaborações com o exterior. Cientistas chineses e da ONU já selecionaram experimentos de pesquisadores estrangeiros, que serão realizados na futura CSS.

Patricio Giusto, diretor do Observatório Sino-Argentino e professor universitário (UCA e Zhejiang University), considera que “claramente a China está disputando a carreira aeroespacial em pé de igualdade com os Estados Unidos: recentes explorações da Lua, estação aeroespacial, projeto a Marte, cooperação em matéria de satélites com vários países, inclusive a Argentina.”

O especialista alerta que Pequim não vê essa corrida em termos de disputa “mas sim de conquista de espaços ainda inexplorados, desde uma abordagem multilateral e envolvendo outros países”. Em todo caso, ele enfatiza que o desenvolvimento do programa espacial chinês “está intimamente ligado ao militar, já que depende do Ministério da Defesa”.

Lua e Marte

“Esses visitantes farão experimentos, mas serão mais turistas do que parceiros na operação da estação, à diferença, por exemplo, do papel mais ativo que os astronautas japoneses e europeus têm na ISS”, explica McDowell.

“A Rússia e o Paquistão serão provavelmente os primeiros parceiros e poderão ser seguidos pela Agência Espacial Europeia (ESA)”, mas esta última colaboração é “muito incerta” porque “o clima político mudou muito”, disse Chen, referindo-se às tensões em torno da região chinesa de Xinjiang, onde vive a minoria muçulmana de uigures, e de Hong Kong.

Uma lei proíbe à NASA qualquer colaboração com cientistas chineses

Os astronautas estrangeiros entrarão algum dia na CSS? Talvez, mas eles não serão americanos, já que uma lei proíbe, desde 2011, ligações da NASA com a China. Há décadas que a China vem investindo bilhões em seu programa espacial para alcançar os europeus, russos e americanos. O gigante asiático enviou o seu primeiro astronauta ao espaço em 2003.

Uma sonda chinesa pousou do lado escuro da Lua em 2019, um feito mundialmente inédito. No ano passado ela trouxe amostras. Pequim planeja pousar um pequeno robô com rodas em Marte em maio. Além disso, a agência espacial chinesa anunciou a sua intenção de construir uma base lunar com a Rússia.

Por Santiago A. Farrell

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina