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Choque entre China e EUA marcou abertura da cúpula do G7

Enquanto Joe Biden se reunia com seus aliados, os quais ele quer do seu lado na disputa global com a China, os dois países voltaram a trocar acusações em um diálogo direto

Choque entre China e EUA marcou abertura da cúpula do G7
Cúpula do G7 (Crédito: Jack Hill - WPA Pool / Getty Images)

Um novo choque entre a China e os EUA marcou ontem o início da cúpula do G7 na Grã-Bretanha, na estreia internacional do presidente Joe Biden, que tem colocado a disputa hegemônica com Pequim, à qual busca somar os seus aliados, como eixo de sua política externa.

À margem do encontro das sete maiores economias do mundo com regimes democráticos, o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, teve uma dura conversa telefônica com o mais alto representante diplomático da China, Yang Jiechi, o primeiro diálogo bilateral desde março, quando teve lugar um encontro presencial entre delegações dos dois países no Alasca.

Questões em disputa

Durante a conversa, Blinken apontou três questões com as quais Washington busca pressionar a China: as dúvidas sobre a origem da Covid-19, a questão de Taiwan e a situação dos direitos humanos, todas respondidas com firmeza por Yang.

O secretário de Estado, de acordo com a versão de Washington, destacou ao governante chinês “a importância da cooperação e da transparência quanto à origem do vírus” e renovou o seu pedido a Pequim de permitir que especialistas da Organização Mundial de Saúde voltem à China.

Yang respondeu, de acordo com a agência Xinhua, pedindo aos Estados Unidos “que respeitem os fatos e a ciência, se abstenham de politizar o rastreamento da origem da Covid-19 e se concentrem na cooperação internacional contra a pandemia”.

No final de maio, o presidente Biden pediu à inteligência americana – que está dividida entre a tese de uma origem animal do vírus e a de um vazamento de um laboratório chinês em Wuhan – que “redobre os esforços” para explicar a origem da Covid-19, e que apresente um relatório dentro de 90 dias.

Por outro lado, Blinken também pediu em sua conversa com Yang que Pequim “acabe com sua campanha de pressão contra Taiwan” e que “resolva de forma pacífica” as questões relacionadas à ilha, outro pedido que foi rejeitado frontalmente pelo diplomata chinês, que instou Washington a “aderir ao princípio de uma só China e tomar medidas concretas para manter a situação geral das relações sino-americanas, bem como a paz e a estabilidade de ambos lados do Estreito de Taiwan”.

Os Estados Unidos, acrescentou Yang, devem tratar das questões relacionadas a Taiwan “de maneira prudente e adequada”.

Nos últimos dias, os Estados Unidos concordaram em reabrir as negociações comerciais com Taiwan e autorizaram que um avião militar transporte uma delegação de senadores com vacinas anti-covid.

Por último, o Secretário de Estado comunicou a Yang a “preocupação” da administração Biden com “o genocídio e os crimes contra a humanidade atualmente em curso” contra os muçulmanos uigures de Xinjiang e com “a deterioração das normas democráticas em Hong Kong”.

Segundo com a agência Xinhua, o responsável pela diplomacia chinesa respondeu aconselhando o governo dos Estados Unidos a “corrigir as graves violações dos direitos humanos em seu próprio território, em vez de interferir deliberadamente nos assuntos internos de outros países usando como pretexto os chamados direitos humanos”.

De acordo com o Departamento de Estado, Blinken e Yang também trataram de outros assuntos em que têm “interesses comuns”, como a Coreia do Norte e “a necessidade de os Estados Unidos e a República Popular da China trabalharem juntos para desnuclearizar a península coreana”, bem como questões relacionadas ao Irã, à Birmânia e à crise climática, onde há espaço para cooperação.

Multilateralismo

Em uma referência óbvia à defesa do multilateralismo que Biden fez junto com os seus parceiros do G7, Yang advertiu que “o multilateralismo genuíno não é um pseudo-multilateralismo baseado nos interesses de pequenos círculos”.

Yang respondeu assim a uma mensagem sobre o “retorno” dos Estados Unidos ao multilateralismo, que o presidente dos Estados Unidos publicou no Twitter pouco antes do início da cúpula. “Estou ansioso para trabalhar com nossos aliados e parceiros para construir uma economia mundial mais justa e inclusiva. Vamos trabalhar”, afirmou Biden.

Um dos objetivos de Biden em sua viagem pela Europa é convencer os líderes europeus de que os tempos do “America First” de Donald Trump, com as suas decisões unilaterais e a sua dureza com os aliados históricos de Washington, acabaram de vez.

A chanceler alemã Angela Merkel, cuja relação com Trump foi tudo menos harmoniosa, disse ao chegar na reunião que Biden “apresenta e representa o multilateralismo, que afinal nos faltou nos últimos anos”.

O G7, continuou Merkel, que deixará este ano o posto que ocupa ininterruptamente desde 2005, fará “uma forte aposta em favor do multilateralismo e também do multilateralismo baseado em valores”, o que “certamente levará a um confronto com a Rússia, mas também em alguns aspectos com a China”, reconheceu. No entanto, Merkel também enfatizou: “por outro lado, precisamos de todos no mundo”.

Vacinas

Depois de quase dois anos sem se reunir, os líderes da Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido começaram ontem uma cúpula apresentada como uma “enorme oportunidade” para colocar em marcha a recuperação global após a pandemia, a começar pela distribuição de um bilhão de doses de vacinas contra a Covid-19.

Além da cúpula, até amanhã haverá encontros bilaterais, uma recepção com a Rainha Elizabeth II e um churrasco na praia. As sete maiores economias serão acompanhadas por altos funcionários europeus e de quatro países convidados: Índia, Coréia do Sul, Austrália e África do Sul.

No centro das conversas estará uma distribuição mais justa das vacinas contra a Covid-19. Diante dos crescentes apelos à solidariedade, os líderes concordarão em fornecer “pelo menos um bilhão de doses” e aumentar a capacidade de produção, com o objetivo de “acabar com a pandemia em 2022”.

Os Estados Unidos já se comprometeram a doar 500 milhões de doses da Pfizer/BioNTech, e o Reino Unido 100 milhões de vacinas excedentes, cifras insuficientes segundo a ONG Oxfam, que lembrou que são necessárias pelo menos 11 bilhões de doses para erradicar uma pandemia que já matou 3,7 milhões de pessoas.

Um quarto das 2,3 bilhões de doses administradas no mundo foram administradas nos países do G7, que abrigam 10% da população mundial. Os países de baixa renda representam atualmente apenas 0,3% das doses injetadas.

Por Santiago A. Farrell – Editor de Internacionales, El Observador e Ideas do Diario Perfil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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