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Papa Francisco e a sagrada cruzada anticomunista

Tiveram que passar 173 anos para que algo inesperado acontecesse: um novo Papa ameaça mudar as regras

Papa Francisco e a sagrada cruzada anticomunista
Papa Francisco (Crédito: Maree Williams/Getty Images)

“Um fantasma assombra a Europa: o fantasma do comunismo. Todas as forças da velha Europa se juntaram em uma cruzada sagrada anticomunismo para caçar esse fantasma: o Papa e o Czar, Metternich e Guizot, os radicais franceses e os policiais alemães”. Karl Marx e Frederick Engels usaram as primeiras linhas de seu famoso Manifesto do Partido Comunista para apontar os seus principais inimigos, liderados pelo chefe da Igreja Católica.

Tiveram que passar 173 anos para que algo inesperado acontecesse: um novo Papa ameaça mudar as regras. Desde 13 de março de 2013, o argentino Jorge Bergoglio se tornou o 266º chefe de Estado do Vaticano, o capitalismo deixou de ser uma palavra sagrada na Santa Sé. Pelo menos, na retórica.

Parte disso ficou evidenciado na semana passada, quando Francisco aproveitou o convite para abrir a 109ª Conferência Internacional do Trabalho e enviou um vídeo com uma mensagem dirigida ao diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Guy Ryder.

Francisco aproveitou a situação para instar a uma “reforma profunda da economia”, já que a pandemia oferece um “momento crucial na história social”, em que é necessária “a proteção dos trabalhadores, especialmente dos mais vulneráveis”.

O jesuíta Bergoglio seduziu o a seleta audiência, conformada por líderes sindicais e representantes de organizações de trabalhadores, quando enfiou o dedo na ferida do capitalismo: “A propriedade privada é um direito secundário, que depende do direito primário, que é a destinação universal dos bens”.

Desde então, a preocupação com o “guevarismo” de Francisco provocou críticas de amplos setores da opinião pública argentina: de líderes das câmaras empresariais a netas de apresentadoras da televisão, de ex-candidatos presidenciais libertários a deputados “tuiteiros” da oposição.

“Com Bergoglio no Vaticano, o anticapitalismo deixou de ser uma heresia.”

Tiveram muita mais repercussão na imprensa, é preciso dizer, as palavras de Bergoglio sobre o capitalismo do que seu silêncio sobre as denúncias de abuso sexual na Igreja Católica. Acontece que esta semana expirou o prazo para que o Vaticano respondesse ao pedido de informações levantado pela ONU em fevereiro passado, em que foram detalhadas centenas de denúncias de pedofilia contra representantes católicos do mundo inteiro, entre as quais se destaca o escândalo produzido no Instituto Próvolo de Mendoza. Não houve resposta da Igreja às Nações Unidas.

Mas o “terror vermelho” personificado pelo Papa gerou mais inquietação na Argentina. A ameaça a uma suposta expropriação divina foi desmedida e a confusão fazia esquecer que as críticas ao capitalismo já haviam sido antecipadas por Bergoglio em várias ocasiões.

No Laudato Si, o Papa já tinha aventado: “O princípio da subordinação da propriedade privada à destinação universal dos bens e, portanto, o direito universal ao seu uso, é uma ‘regra de ouro’ do comportamento social e o ‘primeiro princípio de toda a ordem ético-social’”.

A encíclica de 2014 traz uma seção intitulada “Destino comum dos bens”, na qual Francisco afirma: “A tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada e sublinhou a função social de qualquer forma de propriedade privada”.

Trata-se de uma tese que também foi defendida em 2020, quando Francisco publicou Fratelli Tutti. “O mercado sozinho não resolve tudo, embora novamente queiram que acreditemos neste dogma da fé neoliberal. É um pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas diante de qualquer desafio que surja”.

E para que não haja dúvidas, na encíclica que se tornou o seu documento mais político, Bergoglio destacou: “A fragilidade dos sistemas mundiais diante da pandemia mostrou que nem tudo se resolve com a liberdade de mercado”.

“O medo do “guevarismo” de Francisco ocultou o fato de que era uma posição conhecida.”

“A religião é o suspiro da criatura oprimida, o sentimento de um mundo sem coração, assim como o espírito de uma situação sem alma. É o ópio do povo”, argumentou Marx na Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Marxistas e católicos não comungam. No entanto, com o seu novo paradigma, Francisco rompe com uma tradição histórica pró-mercado e capitalista que está no Vaticano há vários séculos.

Em A Luta da Igreja contra o Comunismo, o cientista político mexicano Joseph Ferraro relembra a longa lista de confrontos que a Santa Sé teve contra a doutrina marxista.

A guerra travada pelos chefes do Vaticano começou em 1846, quando Pio IX publicou a encíclica Quipluribus, na qual condenava o comunismo. O mesmo fez Leão XIII, que em 1891 qualificou o socialismo como “um câncer que pretendia destruir os próprios fundamentos da sociedade moderna”.

Depois, Pio X e Bento XV lideraram o enfrentamento contra o socialismo real porque nas primeiras décadas do século XX testemunharam desde a Santa Sé o nascimento dos bolcheviques e o subsequente triunfo da Revolução Russa sob Lenin.

Pio XI fez o mesmo em 1937, quando afirmou que o objetivo do comunismo é destruir a religião e a civilização. Posteriormente, Pio XII confirmou essa lógica e João XXIII a aprofundou, traçando as orientações do Concílio Vaticano II (1962-1965) com o objetivo de conter o comunismo. Enquanto Paulo VI estabeleceu novas diretrizes anticomunistas e as expôs em sua encíclica Ecclesiam Suam de 1964.

Após o breve papado de João Paulo I, seu sucessor João Paulo II foi talvez o maior expoente anticomunista. Nascido em uma Polônia subordinada ao Kremlin, ele fez da luta contra a URSS um de seus pilares. Na encíclica Centesimus Annus, publicada em 1991 após a queda do Muro de Berlim, perguntava: “Pode-se dizer, talvez, que depois do fracasso do comunismo, o sistema vitorioso seja o capitalismo, e que serão dirigidos a ele os esforços dos países que tentam reconstruir as suas economias e sociedades? Será esse talvez o modelo que deve ser proposto aos países do Terceiro Mundo, que buscam o caminho do progresso econômico e civil?”.

Depois da desintegração do bloco soviético, foi a vez do alemão Bento XVI, que vivia em um país dividido pela Guerra Fria e em sua encíclica Deus Caritas Est anunciava: “O que é preciso não é um Estado que regule e domine tudo, mas um que reconheça e apoie generosamente, segundo o princípio da subsidiariedade, as iniciativas que surgem das várias forças sociais que unem a espontaneidade à proximidade com os homens que precisam de ajuda”.

“Com esta postura, o Papa rompe com uma tradição anticomunista histórica.”

Gianni Vattimo é um dos principais autores da filosofia pós-moderna que, desde uma corrente de esquerda, aparenta estar especialmente interessado pela religião. Trata-se de uma inclinação muito presente em sua obra, que se reflete em escritos como Depois do Cristandade: por um Cristianismo não Religioso, Depois da Morte de Deus: Conversas sobre Religião e Cultura Política, e Deus, a Possibilidade do Bem: Um Colóquio entre o Limiar da Filosofia e da Teologia (N. da R.: estes últimos ainda não publicados em português).

Vattimo teve seu primeiro contato pessoal com Bergoglio há três anos. O Papa queria agradecer-lhe o livro que o autor enviou ao Vaticano. A obra Arredores do ser reúne uma série de ensaios filosóficos que perpassam o pensamento de Vattimo, por meio de reflexões agudas sobre religião, capitalismo, democracia, arte ou globalização.

Depois desse encontro, o jesuíta argentino e o intelectual italiano estabeleceram uma relação fecunda que continua até hoje.

Hoje, Vattimo recorre à ironia para anunciar que, se ocorrer uma revolução socialista, ela deve ser liderada por Francisco. Curiosamente, também é a ironia a que permite a Francisco mostrar que já nada resta no Vaticano daquela “santa cruzada” denunciada por Marx.

*Por Rodrigo Lloret – Cientista político; Doutor em Ciências Sociais; Diretor de Perfil Educação.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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