entrevista

Henrique Meirelles: “Se Bolsonaro perder a eleição, continuará sendo um político relevante”

O economista brasileiro, presidente do Banco Central do Brasil no governo Lula e ministro da Fazenda no governo Michel Temer, faz uma análise das próximas eleições presidenciais e sobre os desafios desta disputa à presidência.

Henrique Meirelles Se Bolsonaro perder a eleição, continuará sendo um político relevante
Ex-ministro compartilhou suas esperanças para o Brasil em 2023. (Créditos: Reprodução/Perfil.com)

O economista e ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, concedeu entrevista para o portal Perfil.com, sediado na Argentina. Entrevistado pelo jornalista Jorge Fontevecchia, o economista respondeu perguntas sobre o futuro político do Brasil e as ameaças de Jair Bolsonaro (PL) à democracia nesta eleição.

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-Recentemente foi publicada a “Carta aos brasileiros”, assinada por empresários, economistas e juristas, intelectuais e artistas. Você acredita que a democracia está em Brasil? E o que pensa sobre essa carta?

—A “Carta a aos brasileiros” de certo foi uma carta importante, relevante, na medida em que coloca muito claramente o pulso da eleição. A maioria da classe empresarial, de analistas, de líderes de associações, de pessoas que têm representação na sociedade, disseram claramente que a democracia é fundamental para o país. Não apenas para o crescimento, para o liberalismo e para a realidade econômica, para a criação de empregos e geração de renda, mas também como um valor. Inclusive, fiz minha própria declaração, entre outras coisas, em defensa da democracia, citei uma frase de Winston Churchill que tem várias versões, mas uma dela eu gosto muito porque é bem enfática e diz mais diretamente o que quero dizer, representa, estritamente falando, em português, que a democracia é o pior de todos os regimes, com exceção de todos os demais. Porque os regimes autoritários são mais programáticos, mais definidos. Portanto, a carta é muito importante nesse sentido. O fato dela ter sido necessária diz, de certa forma, que há pessoas relevantes, atores políticos que defendem isso, e houve até um grupo de empresários que discutiu isso em uma troca de mensagens eletrônicas, pessoas e empresários que apoiam o presidente, defendiam abertamente que, caso o presidente perdesse as eleições, deveria haver um golpe para estabelecer um regime antidemocrático. Isso gerou muita polêmica, pois o Supremo Tribunal Federal, por meio de um dos ministros, está conduzindo o processo, no qual o vice-procurador-geral da Justiça está presente, investigando até que ponto essas pessoas realmente conspiraram ou não contra a democracia. Agora, não há dúvida de que não foi apenas controvérsia. Os partidários do presidente Bolsonaro costumam colocar essa, digamos, ‘aliança’ entre os poderes e atacam muito o processo eleitoral, que vem se fortalecendo muito no Brasil desde a Constituição de 1988. E há, de fato, o estabelecimento do voto eletrônico auditado urnas não só para controlar, mas o próprio presidente questionou. A sociedade se manifestou, e o presidente disse que respeitará qualquer resultado das urnas, seja ele qual for, o que é muito importante. Então a carta é importante em um momento em que há um grupo grande de pessoas que julgou que a democracia estava em algum risco e é muito importante que a sociedade, por meio da maioria de seus representantes, tenha deixado isso bem claro.

-Como analisa o fato de que a Fiesp, a corporação empresarial mais importante de América Latina, assinou a Carta e retirou seu apoio para a reeleição de Jair Bolsonaro?

-Há duas coisas aí. Primeiro, houve uma mudança de direção no lado da indústria. Antes disso, em 2018, Paulo Skaf apoiou fortemente o presidente, ele é bolsonarista convicto, chegou ao fim do mandato e foi substituído por um empresário muito forte, muito bem sucedido aqui no Brasil, que era filho do vice-presidente em o governo de Lula de 2003 a 2011, que é José Alencar. Então foi uma mudança importante de posicionamento porque uma parte foi influenciada pela mudança de direção política da Federação das Indústrias e outra parte foi muito importante para a democracia e etc. O que tornou necessário que a Federação das Indústrias se posicionasse, mesmo com um número muito grande de associações empresariais também fazendo isso. Então, foi uma posição forte, que eu acho importante, talvez decisiva, no processo de tornar o país melhor.

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-Se Jair Bolsonaro mantiver seu discurso sobre o sistema de voto eletrônico e não reconhecer o resultado das eleições caso as perca, você acredita que há uma ameaça para a democracia brasileira?

-Eu entendo que sim, porque ele tem questionado muito o resultado das urnas eletrônicas, tentando voltar atrás, querendo fazer uma cédula impressa, que é uma coisa que não existe mais no Brasil, que foi superada há muito tempo. Foi feito, inclusive, a criação de uma comissão, de fato, pelo Tribunal Superior Eleitoral, que tem a função de fiscalizar as eleições. E essa comissão tem várias outras instituições ali presentes, inclusive as Forças Armadas. Então o que não se sabe é até que ponto o presidente fez essa avaliação, se de fato ele está pensando em fazer algo com essa eleição, ou, foi um movimento, digamos, de pressão, de promoção política, de mobilização, de sua base eleitoral, que é muito fanática, muito unida em torno dele. Uma das coisas que ele faz é justamente mobilizar sua base política. Já estou numa fase da minha vida, onde não me dedico muito neste momento a julgar o que se passa na cabeça dos outros, qual é a intenção. Eu não julgo, eu olho exatamente o que ele queria com isso, se ele realmente pretendia tentar ou não, ou se ele estava apenas mobilizando sua base. Então eu não sei. Acho que é um pouco de perda de tempo tentar julgar. O importante é que já começam a mostrar que aceitaram os resultados das eleições e isso é muito importante, apesar de manterem um tom muito belicoso.

-Uma das coisas que mais se criticam em relação ao Jair Bolsonaro é o seu manejo da pandemia. Você acha que, se não tivesse pandemia, Bolsonaro estaria em melhores condições para disputar o segundo mandato?

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-Acho que sim. Ele assumiu uma posição que não era a única aqui no Brasil. Acompanhei vários países da Europa e até dos Estados Unidos, com muita gente e movimentos de negacionismo, isso aconteceu e acontece em outros lugares, pessoas que se recusam a se vacinar. Se o presidente Jair Bolsonaro foi vacinado ou não, não saberemos, porque isso foi declarado pelo governo como um documento que não pode ser publicado por cem anos, é segredo, não se saberá. O fato concreto é que ele argumentou no início da pandemia, por meio de um vídeo, quando a pandemia crescia muito e a economia caía, e defendeu que as vacinas não deveriam ser tomadas medidas para proteger a população contra a pandemia. Principalmente na questão das restrições de funcionamento, por exemplo, áreas de grande congestionamento de pessoas, empresas que também geram grande movimentação de pessoas. E ele próprio fez uma marcha muito lotada. Naquela época eu estava convencido de que era politicamente positivo, porque a população também estava muito preocupada com desemprego e renda. Ele mesmo já disse isso várias vezes em declarações à imprensa, responsabilizou a economia paulista que, aliás, se saiu muito bem naquele ano em relação ao Brasil, setores da economia brasileira, como um todo, caíram 4,1 %. São Paulo, que representa quase 40% da produção da economia brasileira, cresceu 0,3%, uma das poucas regiões do mundo que cresceu, e este ano caiu para três e meio. Porque São Paulo cresceu. Agora, o que está causando a crise econômica não são as restrições, nem o posicionamento das empresas, nem a proteção da população. O que está causando a crise econômica é a pandemia e a crise sanitária, que faz com que as empresas tomem medidas por conta própria. As pessoas vivem com medo, um grande número de pessoas morreu. Então tudo isso é algo que temos que levar em conta. E eu disse claramente, que o problema é a pandemia, é o que está causando a crise econômica, não as medidas de proteção. O governo de São Paulo foi uma das poucas regiões do mundo que cresceu porque adotou medidas de proteção muito específicas, mas depois firmou protocolos operacionais com setores empresariais, das regiões, para a abertura gradual, mas segura, isso é bom. Por exemplo, certas regiões ou determinados segmentos, caso dos shoppings que abriram inicialmente, foi firmado um protocolo entre o setor de compras e o governo paulista, depois foi estendido para outros estados, onde foi definido o número de pessoas por metro praça, quais eram os procedimentos de entrada, distribuição de álcool gel, o uso da máscara e tudo isso naquela época, que era fundamental. Isso permitiu uma recuperação muito forte, muito positiva da economia, e aquela atitude de promover aglomeração, de mercados, acho que realmente, no final do processo, provocou eleitoralmente, sim, obviamente aquela base dele o apoia em qualquer circunstância , mas o fato é que isso do ponto de vista eleitoral, ao final do processo, principalmente pela clara manifestação de algumas regiões do Brasil, e daqueles setores que levavam a sério a proteção da população, não só evitou muitas mortes e infecções, mas no final cresceram mais e isso gerou mais empregos, mais renda. Então é muito importante, eu acho.

-Se Bolsonaro perde as eleições em outubro, seguirá existindo um, “bolsonarismo”? A figura de Bolsonaro sobreviverá mais que o único mandato?

-Acho que sim. Ele tem uma base de apoio forte e minoritária, mas muito enraizada, onde mantém uma ação muito focada nessa base eleitoral. E não há dúvida que, se ele perder a eleição, continuará sendo um político relevante no país, com grande influência. Um exemplo disso é o próprio Donald Trump nos Estados Unidos, ele continua sendo um fator muito importante. Tanto que hoje é muito difícil até mesmo visualizar o tão tradicional Partido Republicano, que sempre teve uma presença forte e equilibrada na política americana. Agora, ficou um pouco complicado lá por causa dessa questão, que ele levou documentos do governo para sua casa em Mar-a-Lago, onde segundo o FBI ele teria documentos que ele não deveria ter tirado da Casa Branca, eles são documentos confidenciais que comprometem a segurança americana. Agora, isso ainda não está claro. Houve um mandado de busca e todos os documentos estão agora sendo investigados por agências norte-americanas. Acho que ele ficará chocado e enfraquecido, por isso acho um fenômeno psicológico interessante, porque não é muito preciso o que Donald Trump queria ganhar com isso, mantendo os documentos de segurança dos EUA. Acho que foi até uma resistência psicológica para deixar de ser presidente do país. Só um psicólogo poderia tentar entender isso. Agora, o fato concreto, se for confirmado que ele pretende agir e produzir algum tipo de ameaça à segurança, me parece que são resistências emocionais, deixando de ser o presidente americano, tendo aquela sensação de poder. Enfim, a coisa do Trump é uma situação específica para ele, que está enfraquecendo, aparentemente um pouco. No início, sua base mais radical apoiou e lutou contra a entrada do FBI na casa de Trump. Vamos esperar e ver. Mas se olharmos para a política americana até agora, mesmo que haja essa história, não há dúvida de que Trump continuou sendo um fator muito importante, ele é o líder indiscutível do Partido Republicano. O equilíbrio aqui no Brasil é diferente, temos um sistema político diferente, não é um sistema bipartidário. Então o fato é que essa situação não será tão polarizada como era lá. Mas, enfim, do ponto de vista dos partidos, a base não é um sistema dual, apesar de estar aqui polarizado do ponto de vista dos dois principais candidatos. Mas o fato é que ele vai continuar de qualquer forma, na minha opinião, sendo um político relevante e influente no país.

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-Henrique, o que pensa sobre a aliança entre Lula e Alckmin, histórico nome da centro-direita brasileira conservadora? Acredita que há uma alquimia entre eles dois, que a fórmula dos dois se somam?

-Acho que na verdade foi uma atitude politicamente inteligente por parte de Lula. Alckmin foi governador de São Paulo mais de uma vez e é o lugar onde Lula perdeu. O PT perdeu as eleições. O próprio Lula nunca foi muito forte, mesmo quando ganhou, enquanto do seu ponto de vista foi uma atitude politicamente inteligente e do ponto de vista do objetivo também porque lhe permite ter uma posição relevante. Agora, o que isso realmente significará em termos de política econômica do governo Lula? Não sabemos. Essa é outra história. Não sei até que ponto Geraldo Alckmin vai influenciar a política econômica de Lula, isso não está claro, porque não se sabe.

-Fernando Henrique Cardoso já admitiu apoiar Lula ao invés de Bolsonaro. Você vê isto como um gesto pela democracia?

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-Primeiro, sim para a democracia e também porque houve uma evolução natural, um retorno ao ciclo da história. Ou seja, quando o PSDB e o PT foram fundados, eram partidos ideologicamente muito próximos, tinham proximidade ideológica e doutrinária por vários anos, em sua fase formativa. Então as eleições de 1994, 1998, depois de 2002, distanciaram-se principalmente pela forma agressiva como Lula se posicionou, quando, depois de ter perdido a eleição para presidente da república três vezes, 89, 94, 98 e depois de perder a eleição em 2002, chegou a apoiar todos aqueles que lhe haviam deixado a herança maldita. E aqui houve um grande desconforto, não só do povo Lula, mas também dos partidos PSDB e PT. Mas o fato é que agora acho que acabou, faz parte da história. Por isso acho importante dar um apoio inquestionável à candidatura de Lula.

-Existe uma polarização da política onde o que está em jogo é o sucesso ou do antipetismo, ou do antibolsonarismo e todo mundo vota contra?

-Na verdade ela existe e é o que o país em que a gente vive hoje. Participei do governo, boa parte do processo de governo do PT. O primeiro governo, o primeiro mandato do presidente Lula foi muito bem sucedido, o segundo mandato também. Na minha opinião, não tão bem conduzido quanto o primeiro, mas acabou bem. O fato concreto é que o crescimento médio do Brasil no governo Lula foi em torno de quatro por cento, gerou empregos e cerca de 30 a 40 milhões de brasileiros saíram da pobreza, foi um bom governo e eu fui presidente do Banco Central do Brasil por período, agindo de forma independente, mantendo a inflação aberta, aumentou consideravelmente o crédito. Mas o fato é que só quando houve, digamos, o terceiro governo do PT, o candidato escolhido pelo povo, a presidente Dilma, começou a ir muito mal. Ele acreditava e acredita muito no gasto público descontrolado, na promoção do desenvolvimento por meio do gasto público, e também foi muito intervencionista na economia. Todos esses fatores foram o que fez seu governo cair gradativamente, aumentando o desemprego. Os efeitos ainda não foram perceptíveis porque veio com a inércia dos governos Lula, mas já em 2014, o Brasil entrou em uma recessão muito forte. Eu, por exemplo, fui convidado pelo ex-presidente Michel Temer. Quando assumiu a presidência, ele era vice-presidente da Dilma, depois do impeachment quando Michel Temer assumiu, ele me convidou para ocupar o Ministério da Fazenda. Eu aceitei e a situação era realmente impressionante. De junho de 2015 a maio de 2016, quando tomei posse, nesse período de 12 meses, a economia brasileira caiu 5,2%. Quando voltou a crescer e houve crescimento médio, 2016 foi negativo em 3,6 pontos. Agora o Brasil caiu muito só por questões fiscais, exclusivamente, tanto que ainda não conseguimos recuperar. Isso é parte da questão, a outra parte da questão que eu acho que teve ainda mais impacto, foi o Petrolão. Era toda a questão do desvio de recursos da Petrobras.

Houve uma situação de grande opinião pública, inclusive judicial, quando a Justiça do país realizou a chamada Operação Lava Jato, que ficou muito famosa e manteve a mim e a muitos acordados, mesmo com grande custo para os empresários que foram condenados, detidos e confessaram em um processo chamado Delação Awarded, onde muitas outras pessoas denunciaram e confessaram, porque depois isso traz algum alívio à sua sentença. E isso criou todo esse forte sentimento anti-PT, que era muito favorável ao Bolsonaro, que e que ele foi esfaqueado, acabou em um hospital da vítima, impossibilitado de assistir a maioria dos debates, e com isso conseguiu capitalizar para ele próprio grande parte desse sentimento de revolta e boa ação contra o PT, não só pela questão da recessão, desemprego, etc. Tudo isso, junto com essa coisa toda, é a razão de sua existência. Agora, depois de quase quatro anos de governo de Bolsonaro, também há sentimento anti-Bolsonaro. Então temos sentimentos anti-Lula e anti-Bolsonaro. Todo ele, sua posição em relação à pandemia, e também uma série de outras coisas, a questão do combate às urnas eletrônicas, o combate às instituições. Então, o que está acontecendo hoje é uma situação muito polarizada, um sentimento anti-Bolsonaro surgiu do PT. Por outro lado, há um sentimento pró-PT e pró-Bolsonaro, pró-Lula. Ambos têm o voto contra, mas eu também voto a favor de quem ainda curte o assunto. Há muitos que gostam do estilo de atuação e das glórias de Lula, e de seu apoio incondicional. Portanto, não há dúvida de que a eleição é polarizada. O debate que aconteceu nos últimos dias, onde o novo fator é a candidata Simone Tebet, foi aparentemente, segundo a avaliação geral, e minha avaliação também, considerada a melhor participante do debate, melhor que Lula, melhor que Bolsonaro. Há também a outra candidata, a senadora Soraya Thronicke, que agora também se saiu muito bem. Apesar disso, acho que isso lhe dará prestígio e força política no futuro e ele pode ir para o segundo turno e derrotar Lula ou Bolsonaro. Acho que muito provavelmente teremos o segundo turno ainda polarizado entre os dois, mas é um fator novo e relevante. Fiquei muito impressionado com a irrupção, especialmente no debate que aconteceu. As pessoas estão bem informadas de uma parte da população, embora eu ache que, olhando do ponto de vista de hoje, a polarização ainda causa.

-As consultas concordam com a vitória de Lula sobre Bolsonaro nas pesquisas. Lula vencerá contra Bolsonaro?

Lula é o favorito, não há dúvida, mas acho que a escolha será difícil. Acho que a diferença vai depender muito dos institutos de pesquisa, porque as pesquisas dão resultados muito diferentes. Há várias pesquisas, há pesquisas que entrevistam pessoas na rua, há pesquisas feitas nas casas das pessoas, e há pesquisas que são feitas por telefone. Portanto, há muitas diferenças nos resultados das pesquisas eleitorais em todo o país. O fato impressionante e questionável é a diferença que está diminuindo lentamente. Mas certamente ele ainda é a favor do Lula, ele ainda é o vencedor mais provável, mas não acho que o Bolsonaro tenha perdido as eleições, não. Acho que essa eleição é disputada. Fica até claro que a liderança da campanha de Lula pelo PT vê que eles começaram a levar mais a sério a hipótese do casamento de Bolsonaro, que acredito ser distribuir dinheiro para a população do Brasil e do Auxílio Brasil para viabilizar os caminhoneiros, caminhoneiros de baixa renda. Perder tudo isso gerará um problema econômico fiscal. Mas o fato é que tem influência. As pesquisas são inconclusivas. Quanto haverá realmente de mudança ou consolidação de votos por causa disso? Há muita controvérsia. Alguns dados mostram essa diferença e acho que ainda teremos algumas semanas de muitas emoções.

-O que espera do governo que ganhar as eleições em outubro, qual é o cenário econômico que o Brasil deverá enfrentar?

Quem for eleito presidente em 2022 e tomar posse em 2023, seja Lula ou Bolsonaro, qualquer um deles, enfrentará uma situação difícil devido aos gastos altíssimos. Há também outro movimento paralelo importante no Brasil, que é a questão do fortalecimento do Congresso brasileiro. Hoje está mais forte do que em décadas passadas, do ponto de vista da dotação orçamentária, dos recursos, até o chamado orçamento secreto, em que os parlamentares alocam recursos alternadamente a cada ano, não sendo possível o monitoramento de determinados setores, são os as chamadas emendas parlamentares, e não são divulgadas, isso não é transparente, é uma novidade, é testemunho da força do Congresso, principalmente da frente libertária. Então, quem for o candidato a enfrentar essa situação, não só o esforço fiscal, é uma situação institucional com o Congresso com muito poder, isso é novo. Sempre tivemos o que foi chamado de presidencialismo de coalizão.

O Congresso pode considerá-lo. Agora, acho que o Congresso tem mais poder financeiro real. isso somado a um congresso com orçamento secreto, o aumento de gastos e toda uma série de medidas tomadas, seja pelo Congresso, seja pelas medidas tomadas pelo governo Bolsonaro, visando aumentar suas chances de reeleição, dentro da ideia que o Brasil está passando por uma crise econômica. Eu pessoalmente tenho uma ideia clara sobre isso. Acho que era preciso, sim, ajudar a população, fazendo com que não passasse fome no Brasil. Agora acredito que a solução para isso é fazer programas sociais, mas gerar recursos para financiar programas sociais para reduzir gastos. Acredito que uma reforma administrativa bem feita, como a do estado de São Paulo, pode gerar muitos recursos que podem ser destinados a programas sociais, infraestrutura, etc. Em São Paulo, por exemplo, fizemos isso. O estado, que teve problemas financeiros em 2019, quando assumiu o controle, algumas mudanças foram feitas na administração, cortando benefícios e cortando despesas, fechando empresas estatais em diversas áreas e ao mesmo tempo, cortando também benefícios. Isso justificava mais. Tudo isso gerou um fluxo de caixa do governo. Eu acredito que isso pode ser feito no Brasil, é um instrumento para o governo se comprometer com isso.

-Você está a favor da privatização da Petrobrás no Brasil. Por que acredita que seria necessário a privatização e primeiro dividi-la em pequenas empresas?

Em primeiro lugar, acho que é preciso privatizar, porque a experiência mostra não só no Brasil, mas também em vários países, que as empresas privadas são mais eficientes, mas não apenas na prestação de serviços, custo e alocação de recursos, etc. ; enquanto houver concorrência, o monopólio privado é pior que o monopólio estatal ou a empresa privada que domina o mercado. Por isso, acredito que é muito importante e absolutamente necessário que se faça uma divisão em várias empresas e depois essas empresas sejam privatizadas, como foi feito há um século nos Estados Unidos, com a Standard Oil, essas empresas para competir, não constituir um monopólio privado.

-Você é conhecido como a persona que reativou a economia brasileira, agora se enfrenta a uma alta inflação, taxas juros básica se elevando. Como vê este panorama, que medidas você aconselharia para o novo governo?

O fato é que o Brasil está em condições de enfrentar esses problemas. Fazer a reforma administrativa primeiro, como eu disse, é essencial. Segundo, fazer uma reforma tributária para simplificar o processo, não para aumentar a arrecadação, mas para simplificar os procedimentos. Um dos maiores entraves ao baixo crescimento do Brasil hoje é justamente a questão da complexidade tributária. O Brasil enfrenta uma situação de grande complexidade tributária e isso, de fato, já foi demonstrado com muita clareza pelos estudos. Portanto, uma reforma administrativa para gerar recursos para programas sociais e investimentos em infraestrutura, e uma reforma tributária para aumentar a produtividade da economia brasileira, acredito que hoje são absolutamente fundamentais e o Brasil poderá começar a crescer com segurança nos próximos anos.

-Mauro Rochlin, da Fundação Getúlio Vargas, disse: “Se o Brasil conseguir alcançar um crescimento de 1%  no PIB e uma inflação inferior à uns 10%, podemos concluir que 2022 será um ano positivo e poderá ser celebrado”. Você está de acordo com esta afirmação? Seria este o melhor cenário a esperar?

-Foram feitas fortes reduções no preço do combustível, fruto de manobras que têm a ver principalmente com os impostos, depois o Estado com o Congresso tomando decisões que impactam a arrecadação do Estado, a receita do diesel, a deflação, tudo. Mas eu acho que isso não é estrutural, o preço dos produtos em geral é muito alto, a expectativa de inflação é alta e tudo isso é um cenário difícil para o Brasil. Acho que o crescimento parece uniforme em todas as áreas, o crescimento do Brasil será um pouco mais de 1%. O ano de 2023 será mais desafiador. Estaremos lá com os efeitos da alta acentuada dos juros no Brasil, pode ser que tenha começado muito por causa da inflação alta. Podemos possivelmente ter um curso inferior a 1% em 2023. Pode não ser muito superior, aproximando-se de dois. Mas acho que é muito impulsionado por todas essas medidas fiscais. Portanto, é uma situação difícil e desafiadora para o próximo presidente, seja ele quem for, Bolsonaro ou Lula.

No início do conflito entre Ucrânia e Rússia, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse que a guerra pode gerar impactos positivos para o Brasil, principalmente nos setores de mineração e agricultura. Como você imagina que isso poderia afetar a economia brasileira no longo prazo se a guerra se espalhar?

Não há dúvida de que o preço das matérias-primas sobe, isso alivia um pouco a balança comercial brasileira, na medida em que o Brasil é um importante exportador de produtos básicos. Por outro lado, isso não beneficia totalmente o Brasil porque, devido à incerteza fiscal, ainda temos o real desvalorizado em relação ao dólar, o que fez com que o câmbio do dólar valesse um pouco mais do que 5 ou 6 anos atrás , quando Em uma situação como essa, de alta de preços de produtos básicos e do Brasil como principal exportador de matérias-primas no passado, vimos o dólar cair em relação ao real, uma valorização do real naquele momento de boom das commodities. Então o preço das matérias-primas começou a cair. Levando em conta que estamos falando de preços relativos, muito mais então do que hoje, o dólar e o real, o valor do dólar foi caindo, chegando a 1,56 no acumulado central, sobrando dólares para o Brasil. Outro fator importante para a economia brasileira. Mas o fato concreto é que as coisas estão muito melhores. Mas um aumento nos preços das commodities pode beneficiar um país exportador de commodities.

O cenário mundial para 2023 é de recessão para a maioria dos países. Como você imagina esse futuro? Como você acha que esse futuro afetará a América Latina, especialmente Brasil e Argentina?

Acho que tem um efeito global negativo, porque a demanda mundial vai cair. Já que estamos falando de produtos básicos, os preços são muito altos internacionalmente. Primeiro, devido a uma desorganização geral das cadeias produtivas globais devido à pandemia. Segundo, devido ao aumento do consumo em vários países após a pandemia, por exemplo nos Estados Unidos. Além do aumento dos juros, o Banco Central da América do Norte demorou um pouco mais para aumentá-los. Vamos trazer a possibilidade de algo para o Brasil e outros países e lutar contra os bancos centrais de forma organizada. Não há dúvidas de que os países da América Latina, no cenário mundial negativo, com juros altos, tudo isso influencia a economia de todo o mundo e até parece estacionário, fica mais caro e a demanda mundial cai. Há um cenário mundial que apresenta uma perspectiva ainda mais difícil para 2023 para o mundo, em particular para os países da América Latina.

-A última pergunta, como você vê a situação econômica na Argentina e como você acha que uma crise na Argentina ou uma recuperação na Argentina poderia afetar a economia do Brasil?

Não sou um grande especialista na economia argentina. Acompanho meus colegas quando estava no banco em Boston, tinha grande presença na Argentina, e acompanhei muito a economia argentina. Mais tarde, quando estive no Banco Central, também por uma cooperação muito boa com o Banco Central da Argentina, acompanhei de perto a crise de 2002 e a saída do dólar. Mas o problema subjacente é a questão da dívida em dólares. Todas as negociações são nessa área, o que dificulta a situação econômica interna. Então, espero que as coisas melhorem, mas é uma solução difícil, porque estamos em uma situação mundial difícil para um país endividado, principalmente com um cenário em que o Banco Central dos EUA está elevando os juros, o que pode dificultar tudo isso. Mas não acompanho o dia a dia da economia argentina, como fiz em outros períodos. Espero que tudo corra bem, que tudo melhore. Mas é uma situação desafiadora, principalmente com a questão da dívida externa.