Opinião

China a caminho de ser um dos centros financeiros globais

*Por Lu Xia – Economista, cientista político e empresário chinês residente na Argentina.

China a caminho de ser um dos centros financeiros globais
Bandeira da China (Crédito: Kevin Frayer/Getty Images)

Os bancos europeus, especialmente os suíços, e os dos Estados Unidos sempre gozaram de prestígio para os poupadores internacionais, por motivos óbvios. Eles eram confiáveis, seguros, tinham moedas estáveis ​​e garantiam a disponibilidade gratuita de fundos a qualquer momento. Mas a guerra na Ucrânia mudou as coisas dramaticamente. O governo e os bancos suíços se alinharam com a OTAN e decidiram congelar os depósitos dos empresários russos e as reservas internacionais de Moscou. Independentemente do que pensamos de Putin e da guerra, a Suíça cometeu o pior erro de toda a sua história como centro financeiro e de poupança mundial. Perdeu a credibilidade como garante do sigilo e da livre disponibilidade do dinheiro que entra em seus bancos.

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A confiança no sistema bancário suíço nunca se recuperará totalmente, porque o que foi quebrado uma vez pode ser quebrado novamente. E o mesmo vale para os bancos dos aliados da América e suas respectivas moedas fortes – a libra, o euro, o iene. A aliança com a Casa Branca, que ontem dava confiança, hoje se tornou insegura. Nenhum banco americano, suíço, britânico ou japonês está mais a salvo de uma ordem do presidente Biden, enquanto Trump tem uma conta bancária na China.

Ao mesmo tempo, esta situação melhorou a posição da China no mundo financeiro. O estereótipo diz que fazer depósitos bancários no país era complicado, difícil e inseguro devido à distância geográfica e cultural, e até mesmo ao idioma. E um investidor quer que todos os procedimentos relativos ao seu dinheiro sejam claros e seguros. Mas é um estereótipo que perdeu relevância. Hoje o sistema bancário chinês é o mais seguro do mundo e o que facilita a vida de seus clientes.

Para começar, a China é um país totalmente confiável quando se trata de sigilo bancário. Esse é um recurso que não é novo, porque os bancos chineses têm sistemas de computadores muito seguros há décadas, não compartilham seus dados com ninguém, nem são obrigados a fazê-lo por nenhuma lei. Tampouco monitoram os movimentos do dinheiro tanto quanto no Ocidente – exceto no caso de transferências grandes e muito frequentes – nem perguntam sobre sua origem: essa não é sua função. E hoje, a já tradicional confiabilidade do banco chinês foi reforçada pela questão geopolítica: como Pequim está distante dos Estados Unidos e da Europa em termos políticos, não há risco de entregar os dados de seus clientes a políticos ocidentais, nem intervir seus depósitos. O Ocidente entra cada vez mais na privacidade dos bancos, verifica todos os dados, obriga seus poupadores a assinar dezenas de papéis e até congela suas contas. Os bancos chineses não fazem nada disso.

Além disso, a guerra trouxe inflação em dólares, mas não em yuans, e essa é outra vantagem do sistema bancário chinês. Lá é muito fácil abrir contas bimonetárias -em yuans e dólares- e você pode mudar de uma moeda para outra em um segundo. E como o yuan é mais forte que o dólar hoje, é uma fonte de reserva. Se alguém mantiver seu dinheiro em yuan e receber uma taxa anual por isso, terá ainda mais dólares quando decidir mudar seus fundos para a moeda americana.

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Outra questão, que muitos aforradores valorizam, é que os bancos chineses são muito orientados para a satisfação do cliente. Muito mais do que bancos ocidentais. Por exemplo, na China, as filiais estão abertas ao público todos os dias – sim, de segunda a segunda – do início da manhã ao início da noite. É comum quem trabalha o dia todo e tem que realizar um procedimento no banco – onde vai cada vez menos, devido à digitalização – o faça nos finais de semana ou dias de folga, para não ter que descuidar do escritório ou da fábrica. Os chineses que visitam a Argentina ficam muito surpresos ao saber que os bancos aqui estão abertos apenas de segunda a sexta das 10h às 15h: exatamente quando os clientes precisam estar em outro lugar!

Além disso, os bancos chineses quase não têm custos de manutenção – cerca de 10 dólares por ano – ou custos de transação, pois competem com outros bancos – dentro e fora da China – para atrair poupadores. O governo chinês não tributa os bancos para movimentações de dinheiro (a propósito: os chineses que vêm aqui não entendem por que os cheques são tributados).

Por fim, ter uma conta em um banco chinês torna as coisas mais simples para todos que mantêm relações econômicas com aquele país. Que são mais a cada dia. Para quem gosta de comprar produtos chineses – roupas, tecnologia, etc. – e recebê-los pelo correio em qualquer lugar do mundo, ter uma conta bancária chinesa facilita tudo. E o mesmo para os empresários do ramo ou da indústria que fazem negócios com a China: com uma dessas contas eles podem pagar fornecedores, receber suas vendas e tudo pelo home banking, assim como fazem os empresários europeus e americanos.

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Os bancos chineses oferecem mais benefícios, são mais baratos, têm uma moeda cada vez mais forte e protegem o sigilo bancário mais do que qualquer outro. Por tudo isso, a China caminha para se tornar um dos principais centros financeiros globais.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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