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A esquecida América Latina

A UE sabe muito bem que, quando se trata de expandir a sua influência dentro de um país ou região, a China pensa no longo prazo. Mas ela também sabe identificar oportunidades de como conseguir um progresso rápido, e a crescente crise na América Latina representa uma de ouro

A esquecida América Latina
Uma vista aérea de uma grande área comercial durante um bloqueio que teve como objetivo impedir a propagação da pandemia do coronavírus em 24 de março de 2020 no Rio de Janeiro, Brasil (Crédito: Buda Mendes/Getty Images)

Milhares de cubanos saíram às ruas nestes dias para protestar contra a escassez de alimentos e remédios; foi a maior demonstração de dissenso vista no país em décadas. E os cubanos não estão sozinhos: as crises sociais, políticas e econômicas se agravam na América Latina inteira, com sérias consequências. A União Europeia deve começar a prestar atenção.

Em toda a região, e há muito tempo, vem ocorrendo um processo de fragilização econômica e de ascensão do populismo. Mas a crise da Covid mergulhou a América Latina na pior recessão econômica do século. A pandemia dizimou a classe média e, consequentemente, aumentou a desigualdade em uma região que já liderava mundialmente nesse quesito: um terço dos latino-americanos passou a viver na pobreza extrema (com US$ 1,90 ou menos por dia, conforme definido pelo Banco Mundial).

Pode parecer inapropriado, mesmo desonesto, falar da América Latina como uma realidade uniforme, dada a enorme diversidade socioeconômica da região. Mas são chamativas as coincidências em termos dos desafios enfrentados.

Do Chile e o Equador à Venezuela e o Peru, o grande desafio gira em torno das identidades nacionais. Em um contexto de corrupção generalizada e captura do Estado, os latino-americanos desconfiam das suas instituições, uma tendência que tem contribuído para o colapso dos partidos políticos tradicionais e uma onda de candidatos populistas antissistema. Abundam o desencanto e o recuo da democracia.

Para reverter essas tendências, a região precisa de profundas mudanças estruturais. E a comunidade internacional (especialmente os Estados Unidos e a UE) tem que ajudar.

Durante a Guerra Fria, a América Latina foi frequentemente descrita como um mero peão no tabuleiro do xadrez geopolítico global. E em grande medida isso ainda acontece, embora agora seja a China e não a União Soviética que esteja competindo com os Estados Unidos pela influência. De fato, nos últimos anos, a China aumentou sua participação no comércio da região em detrimento dos Estados Unidos, e está a caminho de se tornar o principal parceiro comercial da América Latina até 2035.

Apesar dessa situação de objetificação por parte das grandes potências, a América Latina tem se destacado como um ator global influente por direito próprio. A região, que enviou quase metade das delegações presentes na Conferência de Bretton Woods (1944), desempenhou um papel importante na definição das bases da ordem mundial liberal.

Mais recentemente, a América Latina tem sido uma força motriz para a adoção de acordos internacionais marcantes, que vão desde a Agenda de Desenvolvimento Sustentável 2030 até o Acordo de Paris sobre o clima. E a região abriga muitas economias elogiadas até pouco tempo atrás por seu potencial de crescimento.

Essas constatações conclamam a comunidade internacional, e particularmente as ricas democracias ocidentais, a unirem forças para ajudar a região a superar a enxurrada de desafios que enfrenta. Mas elas não o têm feito; e a negligência do Ocidente é particularmente evidente no caso da UE.

A política do bloco europeu para a América Latina tem sido basicamente um remendo na sua projeção externa. Foi necessário esperar até a entrada da Espanha e do Portugal em 1986 para que surgisse algo semelhante a uma política regional definida. Mas, 35 anos depois, essa política ainda é embrionária. A Comissão Europeia proclama com orgulho que a UE é o principal parceiro da América Latina para o desenvolvimento. Mas esta afirmação é mais declarativa do que qualquer outra coisa.

Lembre-se do destino do Acordo de Livre Comércio entre a UE e o Mercosul (bloco formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai). O pacto, assinado em 2019 como parte de um Acordo de Associação mais amplo entre as duas regiões, gerou grandes esperanças na época. Esperava-se uma redução de mais de 90% nas barreiras tarifárias ao longo de uma década.

O triste é que, até hoje, ainda não foi homologado: está suspenso por questões ambientais (em particular, a destruição da Amazônia no Brasil). A política comercial da UE incorporou rígidas regulamentações ambientais e trabalhistas que, somadas à nova estratégia do bloco para financiar a transição para uma economia sustentável, dificultam a concretização do pacto se não forem acrescentadas novas cláusulas e condições.

É verdade que há uma boa razão para isso: uma gestão sensata dos recursos naturais é essencial para a prosperidade a longo prazo. Mas a Europa não pode se dar ao luxo de ignorar a importância estratégica da América Latina, ou tomar como certo o interesse do Mercosul no acordo, cuja negociação levou vinte anos; particularmente à vista do esforço que a China está fazendo para consolidar a sua presença na região. Afinal, a China não permitirá que questões ambientais a atrapalhem.

O último relatório das Conclusões do Conselho da UE dá conta da necessidade de que a Europa fortaleça os seus laços com o mundo. O documento intitula-se Uma Europa ligada à escala global e “convida” a Comissão e o Alto Representante para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Josep Borrell, a “definir e executar um conjunto de projetos e ações de grande impacto e projeção pública em escala global”. Mas, embora seja feita menção explícita a vários países asiáticos, a América Latina aparece apenas de forma marginal.

As Conclusões também não fazem menção à China. Mas não é por descuido, já que contrabalançar a China é a principal motivação para as recomendações do documento. O mesmo pode ser dito da Estratégia da UE para a Cooperação na Região do Indo-Pacífico, que também evita fazer menção explícita à China, embora a sua presença permeie todo o documento. Escrito nas entrelinhas.

*Por Ana Palacio – Ex-chanceler espanhola; professora visitante na Georgetown University.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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