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O peso das eleições depois da pandemia

O vírus não está sob controle. O avanço da ciência conseguiu desenvolver em pouco tempo algumas vacinas, mas vivemos em uma fase de experimentação permanente. O tempo todo aparecem mutações na Índia, Manaus ou em qualquer lugar do mundo; sem importar a origem, a interconexão as espalha de forma vertiginosa e não é possível saber como essa tragédia vai acabar. Países que pareciam ter avançado de forma substancial retrocedem diante das novas circunstâncias

O peso das eleições depois da pandemia
(Crédito: Amilcar Orfali/Getty Images)

Será que os políticos serão capazes de se preocupar com as pessoas e deixar de lado manobras insensatas para obter votos arriscando a vida dos outros apenas pelas eleições depois da pandemia? Além de ser eticamente correto, seria mais eficiente para o seu trabalho político. Não manipular, ser transparentes; não buscar tanto protagonismo, trabalhar em equipe.

É um erro brutal tentar ganhar as eleições, assumindo a responsabilidade por uma tragédia tão grande quanto a Covid. Em breve chegaremos a 100.000 mortos, limite que Alberto Fernández apontou meses atrás como uma desgraça insuportável. O número pode crescer repentinamente e ele poderá entrar para a história como o presidente da tragédia.

Mesmo se a campanha de vacinação tivesse sido perfeita, nesta época não serviu para manipular os eleitores. Isso é demonstrado pelo caso do ex-primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que perdeu seu posto depois de organizar a vacinação de maior sucesso no mundo. Os vacinados sentem que têm o direito à proteção da sua saúde e não agradecem. Estamos na sociedade horizontal da terceira revolução industrial.

As comunicações enfatizam o trágico, não o positivo. Mil aviões que pousam em Ezeiza não são notícia, cai apenas um e ocupa as primeiras páginas. Do jeito que as coisas vão, este presidente não vai ficar para a história porque conseguiu vacinar doze milhões de argentinos, mas porque 200.000 morreram.

“As pessoas querem que os líderes desistam da mesquinhez e façam o que devem”

Vírus

Há mais de um ano, quando chegaram as primeiras notícias sobre a Covid, conversei com os diretores de PERFIL, políticos e personalidades de Buenos Aires, alertando sobre o perigo que parecia vir. Então me refugiei, tomando todas as precauções possíveis para proteger minha vida. Na época, o ministro da Saúde zombou da doença, alegando que era menos perigosa que a gripe.

Minha formação em ciências da saúde é pobre e só tenho uma ideia depois de ler por um ano e meio revistas especializadas sobre a peste. A minha preocupação vinha originalmente da leitura do livro alucinante de Jared Diamond “Armas, Germes e Aço”, sobre o papel das pragas na história dos últimos treze mil anos e outros artigos sobre a gripe espanhola. Alguns acadêmicos ligados à história, principalmente da Universidade de Harvard, disseram que essa praga pode acabar com a nossa espécie, analisando o problema não tanto do ponto de vista médico, mas partindo do contexto social e histórico em que ocorre, em plena terceira revolução industrial.

O vírus não está sob controle

O avanço da ciência conseguiu desenvolver em pouco tempo algumas vacinas, mas vivemos em uma fase de experimentação permanente. O tempo todo aparecem mutações na Índia, Manaus ou em qualquer lugar do mundo; sem importar a origem, a interconexão as espalha de forma vertiginosa e não é possível saber como essa tragédia vai acabar. Os países que pareciam ter avançado de forma substancial retrocedem diante das novas circunstâncias.

Terceira onda

Nessas semanas está se desenvolvendo uma terceira onda, ligada à mutação delta, que irá matar dezenas de milhares de pessoas no mundo. Quem sabe mais sobre o assunto diz que é impossível isolar o país. A cepa chegará em breve. É um problema sério demais para que alguns o continuem utilizando como truque eleitoral. Além de sofrer uma derrota esmagadora, eles vão matar muita gente. Dizer que vacinação é questão de militância é irresponsável e terá custos.

A Argentina é o único país do mundo que enviou mais de doze aviões a Moscou para que tragam vacinas. Ao recebê-los no aeroporto, o presidente comemora a aplicação de milhões de primeiras doses da Sputnik. Não sabe o que dizer quando as segundas doses não aparecem.

O governo, com a sua mentalidade clientelista, distribui as doses em locais partidários, torna épica a defesa da vacina soviética contra as vacinas imperialistas. Como se o triunfo da Sputnik sobre a Pfizer pudesse mudar a sorte da Guerra Fria. Não internalizam que a União Soviética desapareceu e que as vacinas não seguem cursos de doutrinação. Precisam ler um pouco de história.

A luta contra a Covid é liderada por advogados, economistas, políticos, que querem obter votos. Não sabem lidar com a peste, impõem caprichos, seus preconceitos ideológicos somente trazem problemas. O país é classificado como um dos que pior administrou a Covid no mundo.

Eleições

Com tudo isso, o governo marcha para uma tragédia eleitoral. Quando Alberto tratou o assunto em coordenação com Rodríguez Larreta e Kicillof, os três alcançaram o auge da sua popularidade. Parecia que eles se importavam com a vida dos outros. As pessoas estão interessadas em que dialoguem sobre seus problemas, não em que lutem por interesses individuais.

Depois, Alberto passou a trabalhar como porta-voz de uma presidente dedicada a resolver seus problemas com a justiça e perseguir os outros. Seria antinatural que ele mantivesse a sua popularidade em meio a essa tragédia.

A população, desesperada por tantos problemas que não a deixam dormir, quer que os líderes deixem de lado suas mesquinharias e façam o que devem. Quer saúde, emprego, está angustiada porque a economia real do país está desmoronando. Não se preocupa com a Bolsa de Valores de Nova York, mas com a bolsa que leva para a loja.

Se o governo tivesse alguma grandeza, Alberto teria convocado os médicos mais preparados do país, formado uma comissão com todos os ex-presidentes, todas as forças políticas e sociais, para que coordenassem o combate à pandemia e assumissem uma responsabilidade coletiva. Ideias inteligentes teriam surgido nessas reuniões. Quando pessoas preparadas conversam, algo bom sai. Assim é a meritocracia.

Os efeitos de tudo isso na imagem de Alberto e do seu governo teriam sido muito positivos. Fernández teria alcançado uma liderança nacional sólida, teria a imagem de um estadista e não a de um pitoresco porta-voz de Cristina.

Ainda não é tarde demais para fazer isso, mas é pouco provável. Estou mais preocupado com a vida dos argentinos do que com as consequências políticas, de algo que favoreceria o governo, mas é improvável que aconteça, pois exigiria grandeza dos governantes e isso é raro em muitos países. Eles tendem a se cercar de bajuladores que aplaudem seus erros e suas brigas irrisórias. Há que voltar sempre à leitura de Owen.

Improviso e preparação

Nos últimos anos, cresceu a tensão entre aqueles que promovem a preparação intelectual e aqueles que temem o surgimento de uma nova forma de discriminação que relega os menos preparados. As áreas do mundo onde está ocorrendo a terceira revolução são um viveiro de instituições e pessoas que produzem conhecimento e desencadeiam iniciativas de todos os tipos, o reino da meritocracia. Nas regiões mais atrasadas, reinam a ignorância e a superstição.

No norte da Nigéria, opera o grupo terrorista Boko Haram, cujo nome significa “a educação é pecado”. Seus militantes assassinam ou sequestram jovens que querem estudar na escola. Eles seguem as ideias do califa Omar quando este ordenou a queima da biblioteca de Alexandria: se os livros que estão ali contradizem o Alcorão, são prejudiciais e devem ser destruídos. Se seu conteúdo está no livro sagrado, eles são inúteis.

“Hoje os estadistas precisam do apoio de equipes capacitadas em diversas áreas”

A terceira revolução industrial é a revolução da inteligência. Trata-se de descobrir, criar, aprender, ninguém pode presumir que domina todos os conhecimentos parciais ou globais. Fui professor toda a minha vida, há dez anos leciono a mesma cadeira de Estratégia Política, dedico quase todo o meu tempo aos estudos, mas meus amigos sabem que às quartas-feiras na primavera boreal me desconecto de tudo. Dedico o dia a preparar as aulas, pois a cada ano muitas coisas são descobertas e as experiências me permitem dizer algo novo. Nunca vou pensar que não preciso estudar. Há alguns anos fiz amizade com Jorge Fontevecchia, um dos intelectuais mais sofisticados do país. Meu respeito por ele cresceu quando soube que ele estava cursando uma carreira na universidade. Quem sabe que precisa aprender revela sabedoria.

Complexidade

O conhecimento que os estadistas manejam tornou-se tão complexo e diversificado que é necessário o apoio de equipes de pessoas capacitadas em diversas áreas.

Quando Barack e Michelle Obama estiveram em Buenos Aires, deram palestras e tiveram atitudes pelas quais muitos se apaixonaram. Os detalhes que mencionaram sobre a vida cotidiana de Buenos Aires haviam sido preparados antes. Nos Estados Unidos, existe a carreira de redator de discursos e o que dizem os dirigentes é elaborado por profissionais. O presidente está ali para representar seu país, para comunicar, não para memorizar todos os dados de todos os lugares que visita. Se ele tentasse, acabaria escorregando. Os estudados discursos de Obama são melhores do que as improvisações do Terceiro Mundo.

Na América Latina, há uma tendência ao personalismo superficial. Alguns querem mostrar aos seus parentes que são muito espertos. Lembro-me de um candidato que anunciou que não precisava se preparar para o debate porque já sabia tudo. O medo do que originalmente chamaram de coaching os leva à improvisação.

Então, citam erroneamente um ganhador do Prêmio Nobel, provocam um incidente continental ao falar depreciativamente dos índios, quando muitos latino-americanos das províncias collas até a Colômbia sentimos que viemos das culturas andinas, do oriente boliviano, ao noroeste argentino e ao Paraguai se sentem guaranis, e os mexicanos, astecas.

A mesma leveza da palavra serve então para tratar de questões como saúde ou economia. Só que nesse caso, a superficialidade custa vidas.

*Por Jaime Duran Barba – Professor da GWU; membro do Club Político Argentino.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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