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Para Gianfranco Pasquino a democracia não é só política, é sociedade e cultura

Discípulo de Norberto Bobbio e Giovanni Sartori, o cientista político considera que Itália e Argentina são países que compartilham uma certa desordem institucional que ora funciona melhor ora pior. Mas a Argentina oferece uma característica única no mundo: o peronismo

Para Gianfranco Pasquino a democracia não é só política, é sociedade e cultura
(Crédito: Reprodução/ Instagram)

Gianfranco Pasquino, antes mesmo da derrota de Donald Trump e das expectativas negativas para Jair Bolsonaro devido à sua má gestão da crise do coronavírus, já em 2019 você se dizia otimista quanto ao futuro da democracia. Os últimos resultados confirmam essa ideia?

Continuo bastante otimista quanto ao futuro da democracia. A democracia nos Estados Unidos é muito melhor hoje do que quando Trump era presidente. Joe Biden implementará várias transformações e vamos aguardar as reações da sua sociedade. Os Estados Unidos nunca tiveram a democracia mais importante do mundo. Haverá mudanças positivas. Jair Bolsonaro tem uma democracia de qualidade limitada. É uma possibilidade real que possa perder as eleições.

O bom desempenho do Vox, o avanço geral da direita nas eleições na Espanha e em parte da Europa vão no sentido oposto?

Vox realmente tem um desempenho medíocre. Não é realmente importante. Os populistas na Europa não venceram; em vez disso, eles perderam. Eles não têm poder no Parlamento Europeu. Eles têm algumas cadeiras, mas não têm poder. Os soberanistas não têm poder suficiente para desafiar os europeístas. A sua situação é bastante ruim.

O discurso de Joe Biden nos primeiros cem dias no cargo foi julgado por alguns analistas como uma das agendas mais progressistas que já teve um presidente americano. O senador republicano Tim Scott qualificou a proposta como uma lista de desejos liberais para justificar grandes gastos do governo. Estamos diante de um retorno do Estado de bem-estar?

Os Estados Unidos nunca tiveram um estado de bem-estar. Ainda devem construí-lo. O problema da saúde é muito importante. Obama movimentou-se nesse sentido, mas os republicanos têm tentado destruir o Obamacare. O discurso de Biden foi verdadeiramente progressista, mas ele tem uma maioria pequena no Senado. Será uma situação problemática. Embora eu acredite que é uma direção importante de mudanças, não só políticas, mas também sociais e, espero, culturais. A democracia não é apenas política, é sociedade e cultura.

Biden disse: “Eu herdei uma nação em crise. A pior pandemia em um século. A pior crise econômica desde a Grande Depressão”. Haverá um salto qualitativo?

A pandemia revelou elementos negativos de todos os sistemas políticos e sociais. Há reações dos cidadãos democráticos em muitíssimos países. É possível derrotar a pandemia e introduzir mudanças que terão impactos agora e no futuro.

O coronavírus constrói um contexto para uma predomínio do coletivo sobre o individual?

Se for o caso, não será automático. A pandemia construiu outro elemento bastante negativo. A desigualdade cresceu. Se queremos construir uma sociedade melhor, devemos reduzir as desigualdades. É possível, mas é bastante difícil.

Nesta mesma série de entrevistas, o economista especialista em desigualdade Branko Milanovic apontou que existe o risco para a humanidade de uma nova plutocracia. Você se referiu em seu livro às seis promessas não cumpridas da democracia, levantadas por Norberto Bobbio, e uma delas tinha a ver com a questão das elites e a distribuição da riqueza. A democracia é capaz de reduzir a desigualdade?

O poder do dinheiro é um problema real. Milanovic tem razão. Devemos tentar controlá-lo. Com poder, os ricos podem comprar decisões políticas. Não vai melhorar a vida do resto das pessoas. Na América, a riqueza vale muito na política. A desigualdade do poder político, por exemplo, na China, os membros do Partido Comunista têm muito poder e há muitos homens e mulheres na China que não têm nenhum poder. A plutocracia é um risco que a democracia pode controlar, pode limitar, através da organização ou das organizações e através dos partidos. O problema dos Estados Unidos é que os republicanos têm muito dinheiro. Mas vimos que os homens, isto é, os eleitores, podem derrotar o poder do dinheiro.

Você cita Norberto Bobbio: “O critério mais frequente adotado para distinguir a direita da esquerda é a atitude diferente assumida pelos homens que vivem em sociedade em relação ao ideal de igualdade. A direita considera que um certo grau de desigualdade é socialmente útil para aumentar a geração de riqueza por meio do incentivo à competição”. A riqueza pode ser distribuída sem gerá-la previamente?

Em alguns momentos da história podem existir desigualdades que produzem transformações positivas graças à competição. Mas se as desigualdades são enormes e persistem, o efeito será o oposto: um governo de poucos. O predomínio dos oligarcas sobre a maioria. A esquerda deve tentar reduzir as desigualdades não produtivas.

Você disse que “o inimigo da esquerda é seu senso de superioridade”. Em outra entrevista desta mesma série, uma deputada historiadora conservadora hispano-argentina, Cayetana Álvarez de Toledo, disse que o debate do seu espaço político, a direita, era com a superioridade moral das esquerdas.

A esquerda acredita que é superior primeiro porque existe um compromisso com a transformação e com o futuro. E também são homens e mulheres que sabem como funciona a política. Estudam, compreendem e fazem política, e valorizam o papel de exercê-la. A direita tem comportamentos antipolíticos. Os políticos de esquerda muitas vezes pensam que estão agindo no interesse geral. Tendem a acreditar que os políticos de direita respondem a um interesse particular. E não é assim. É assim que se produz uma reação de direita. Homens e mulheres comuns não apreciam o fato de haver pessoas que se consideram superiores. Não é um elemento positivo da propaganda eleitoral e da cultura política de esquerda.

“A democracia dos Estados Unidos é muito melhor hoje do que quando Trump era presidente.”

As direitas atuais crescem porque são menos solenes que as do passado?

A direita atual está crescendo porque há elementos de reação contra os governos de esquerda que não resolveram os problemas. Portanto, se a esquerda não tiver sucesso, ela expande o espaço político da direita. No caso de Madrid, não podemos esquecer que a direita sempre venceu. A dimensão da vitória do Partido Popular pode surpreender. Mas todas as pesquisas diziam que a direita venceria.

Qual é a sua visão pessoal sobre as políticas identitárias? Existe uma relação entre o nacionalismo catalão, por exemplo, o feminismo ou as manifestações antirracistas nos Estados Unidos?

Não é uma boa ideia fazer política identitária. Devemos fazer política com o cérebro e não com outras partes do corpo, como diz Max Weber. Somos homens e mulheres racionais. Devemos discutir sobre o que queremos fazer, não sobre a nossa identidade. Nossa identidade é importante psicologicamente, mas não politicamente. A política identitária produz choques e não progresso. O problema nos Estados Unidos é que existem muitos grupos que agem segundo políticas identitárias. Também na Espanha. Na Itália, a Lega Nord acredita na política identitária de quem vive no norte do país.

Sobre o presidente argentino, Alberto Fernández, você disse: “Seu estilo é como o dos seus predecessores peronistas, Cristina inclusive: um tanto autoritária. Em geral, os líderes peronistas sempre pensam que sabem muito mais do que a oposição, do que a opinião pública, do que os intelectuais e os jornalistas”. Qual seria a taxonomia correta dos líderes peronistas na sua perspectiva?

Na maioria das vezes pensam que interpretam os desejos, as expectativas, as emoções do povo. Acontece com os populistas. Há uma estreita relação entre o peronismo e o populismo. Juan Domingo Perón foi um grande populista. E muitos dos atuais líderes de sua força têm algo ou muito de populistas. Fernández tem; mas, por exemplo, Carlos Menem tinha muito mais. A forma como Cristina fala tem componentes populistas muito visíveis. Embora deva esclarecer que não sou um especialista em questões argentinas.

Alberto Fernández se autopercebeu como social-democrata e se disse, literalmente: “Mais perto da filosofia hippie do que da tradição cultural do peronismo”. A social-democracia pode coexistir com o populismo de esquerda?

O populismo pode ser de esquerda. Em toda democracia existem elementos populistas. A democracia é o poder do povo. Não podemos tirar o povo da democracia. A social-democracia não é populista porque organiza a política. Não há um líder, como referência, que estabeleça uma relação especial com o povo. Executa-se um programa e tenta-se convencer o povo de que esse plano é o certo. É possível que o líder social-democrata seja querido pelo povo, mas os social-democratas nunca são populistas.

O populismo e o peronismo sempre tiveram que governar nos períodos em que havia riqueza para distribuir. Eles podem ganhar as eleições em um contexto de declínio econômico?

Isso precisa de uma análise comparativa. Há situações em que a esquerda pode ganhar eleições quando há uma crise profunda. É o caso de Franklin Delano Roosevelt, em 1932. Os Estados Unidos viviam uma profunda crise econômica. Roosevelt venceu e transformou o país. Também na Grã-Bretanha, em 1945, a reconstrução do país ficou nas mãos do Trabalhismo. A Frente Popular na França, em 1936, tinha uma situação econômica bastante difícil, mas venceu as eleições. Depende da política. A política pode ser guia de importantes mudanças socioeconômicas. Os líderes e as organizações podem convencer a maioria dos setores.

“Os empresários em geral, com poucas exceções, não sabem governar.”

Em “A Razão Populista”, Ernesto Laclau resgata as ideias de Antonio Gramsci. Diz ele, por exemplo: “O movimento incipiente que encontramos em Gramsci das classes às vontades coletivas deve ser completado”. Qual é o lugar atual de Gramsci no pensamento político italiano?

Gramsci nunca foi um populista. Ele foi um homem de partido. Acreditava na potencialidade e na capacidade do Partido Comunista Italiano para derrotar o fascismo e construir uma nova sociedade de uma forma menos autoritária ou totalitária do que Vladimir Lenin e Josef Stalin. Não pode ser usado em tal estrutura teórica. Não devemos esquecer que Gramsci pensou no contexto do fascismo no poder. Ele não é inteiramente um teórico da democracia; é um teórico da proteção e promoção dos interesses das classes populares, do proletariado. A hegemonia não consiste apenas em poder e violência. É também a capacidade de convencer, de transformar as ideias, as opiniões. Não é um processo apenas político, mas também cultural. Que deve ser guiado, liderado, por um partido político organizado, de massas.

Uma das inspirações de Mauricio Macri foi a figura de Silvio Berlusconi. Como você analisaria as ideias e a gestão de Mauricio Macri?

Imitar Berlusconi foi uma boa ideia para chegar ao poder. Ele se tornou presidente. Mas os empresários não sabem governar. A política é diferente da empresa. Na empresa há alguém que decide e outros que agem, que produzem as mudanças. A política nunca é uma questão apenas de decisão. É um problema de colaboração, de produção de consensos. É preciso aprender, aceitar que há decisões que precisam ser mudadas. É uma atividade muito mais complicada do que a dos empresários. Macri não teve sucesso. Se um presidente não for reeleito, a sanção eleitoral é clara.

“Recomendo que os políticos leiam, que se eduquem e estudem.”

Você escreveu: “Bobbio não foi um intelectual tradicional”. A quem dirigia a fala?

Os intelectuais orgânicos têm uma posição dentro de um partido. Gramsci os identificou muito claramente: eles pensam que o partido é o meio da transformação social. Mas também existem os intelectuais públicos. Norberto Bobbio, como Giovanni Sartori, foi um intelectual público. Houve outros intelectuais públicos na Europa. George Orwell na Inglaterra e Jürgen Habermas na Alemanha foram. Eles falam ao público, aceitam a responsabilidade pelo que dizem. Não fazem política diretamente, embora tenham uma ética política.

Você endossa a frase de Sartori “O intelectual não deve ser indiferente, mas deve permanecer independente”?

Um intelectual deve saber ver todos os elementos problemáticos de uma situação. Deve procurar entender o que os homens e as mulheres pensam, sofrem, o que podem fazer, mas também deve saber produzir decisões após a avaliação. Que sejam produto do seu pensamento, seu conhecimento, sua experiência. O intelectual público é um tanto solitário. O que não quer dizer que seja triste.

“Se queremos construir uma sociedade melhor, devemos reduzir as desigualdades.”

No livro sobre eles, “Bobbio y Sartori”, você diz que “ambos são clássicos; uma característica decisiva dos clássicos consiste em saber falar às diferentes gerações”. Qual é a lição para os políticos e cientistas sociais de hoje desses dois intelectuais italianos?

Bobbio se referia assim a Max Weber. Weber é um clássico. O que ele escreveu continua plenamente válido. Seu pensamento é contemporâneo. A minha sugestão aos políticos é que eles leiam, aprendam, estudem. A política tem uma história. Existem muitos ensinamentos em Aristóteles, em Péricles, nos clássicos latinos. É preciso entender Maquiavel. É necessário saber sobre análise econômica. Karl Marx é um clássico. Ele errou em muitas coisas, mas seu método de análise é importante. Joseph Schumpeter é um clássico. Eles não são apenas autores do passado. Eles são contemporâneos.

“O problema dos Estados Unidos é que os republicanos têm muito dinheiro.”

O que Bobbio e Sartori pensariam da polarização atual?

Polarização nunca é boa, Bobbio e Sartori a criticaram, cada um a seu modo. No caso italiano também. Porque o Partido Comunista e o Partido Neofascista estavam tentando polarizar um pouco a política. Os neofascistas mais do que os comunistas. Bobbio tentou conversar com os comunistas, convencê-los de mudanças indispensáveis. Sartori foi mais crítico dos comunistas. Ele os considera parte dos antissistema. A polarização pior que vejo hoje é a que os republicanos produziram nos Estados Unidos. Eles se deslocaram para a extrema direita.

Tive a oportunidade de moderar algumas reuniões entre o procurador da Mani Pulite, Antonio Di Pietro, e o juiz da Lava Jato no Brasil, Sérgio Moro. Uma das críticas feitas a Moro, em relação à Mani Pulite da Itália, foi que, em vez de uma mudança no sistema político, o que resultou foi algo pior, com Jair Bolsonaro. O que deve ser feito em relação à corrupção? O que você opina do conceito de lawfare?

A corrupção é um mal. Ela corrompe, e não apenas os políticos, mas toda a sociedade e toda a política. Deve ser sempre combatida. A política italiana não estava mais estruturada quando o Mani Pulite atuou contra a corrupção. Criou-se o espaço pelo qual Berlusconi entrou na política. Se os partidos políticos estivessem organizados, não haveria tido espaço. As situações da Argentina e do Brasil me parecem diferentes. Mas a luta contra a corrupção deve ser contínua, constante e incessante. O problema também é o sistema judicial. É necessário um sistema judicial incorruptível, com juízes que não tentem fazer política ou entrar na política. Acho que Di Pietro não foi um bom exemplo. E acho que Moro também não.

“Há uma relação estreita entre o peronismo e o populismo.”

Existe uma diferença entre ciência política e filosofia política? Marx era um filósofo político?

Uma frase histórica do marxismo é que os filósofos estudaram o mundo. Agora devemos mudá-lo. Mas Marx era um filósofo, ele continuou a estudar o mundo. Mas ele não tinha as ferramentas para mudá-lo. Os cientistas políticos têm as ferramentas. É algo que aprendi com Sartori. A ciência política não é como a astronomia. Ela tenta mudar as situações. Sabemos como construir um partido político, como escrever uma Constituição, como controlar o poder. Sabemos que deve haver freios e contrapesos, sabemos que a desigualdade em uma democracia deve ser limitada. A diferença é que a filosofia política pode inventar um mundo novo; a ciência política pode construí-lo.

Bobbio, ao contrário de Sartori, convocou os membros do Partido Comunista em 1964 para se filiarem a um grande Partido Socialista, enquanto para Sartori eram antissistema. Jean-Luc Nancy fala sobre o comum; Gianni Vattimo, do comunismo hermenêutico. O conceito renasceu?

O comunismo existe. Ele existe na China, Coreia do Norte, Vietnã. Parece que o Vietnã derrotou o vírus, em um regime comunista de partido único. São sociedades sem qualquer competição entre partidos. O comunismo existe e pode funcionar como uma técnica de desenvolvimento econômico. O comunismo nunca produz democracia, porque democracia é competição, seria o fim do Partido Comunista. Na Europa não existe mais. Existem apenas pequenos grupos que não são comunistas. É uma esquerda radical, extrema. Há elementos populistas, mas eles não ganham eleições. Quando têm racionalidade, participam de coalizões de esquerda. É o que acontece em Portugal.

“As redes sociais não podem gerar uma verdadeira opinião pública.”

Por que é importante conceber a democracia como isonomia, igualdade perante a lei? Na democracia, a forma é o fundo?

Não totalmente. A forma é muito importante, importantíssima. Mas há outros elementos, não apenas a forma, as regras e o processo. Devemos também avaliar os efeitos. Por exemplo, Bobbio sempre foi considerado o teórico da democracia formal, mas Bobbio pensava, por exemplo, que a democracia deve saber como educar os cidadãos, deve saber introduzir a transparência, deve derrotar os poderes secretos, que vocês na América Latina chamam fáticos. Deve ser capaz de reduzir as desigualdades. A democracia meramente formal é algo estéril; deve ter um conteúdo substancial. Uma democracia substancial não é possível sem uma democracia formal. A democracia formal é o pré-requisito para uma democracia substancial.

Você escreveu sobre o livro “Homo videns”, de Giovanni Sartori, que a opinião pública é feita por cidadãos cujas informações básicas são induzidas ao erro e manipuladas pela exposição massiva à televisão. As redes sociais modificam essa perspectiva?

Sartori considerava muito importante o processo de formação da opinião pública. Deve ser produto de um diálogo, de uma conversa pública. As redes sociais, Twitter, TikTok, Instagram, não produzem tal conversa. Elas podem gerar polarização, a visibilidade de alguns influenciadores. Mas não produzem uma verdadeira opinião pública. E se não há uma verdadeira opinião pública, a democracia tem problemas.

As redes sociais são uma espécie de Babel moderna que produz um grande número de linguagens que não se entendem entre si e que dificulta o debate?

Sim, possivelmente. A situação de Babel é interessante. O caos é aceitável quando ninguém pode impor a ordem. O caos pode ser criativo; Babel pode ser criativa. Mas homens e mulheres precisam de alguma expectativa de ordem. A ordem política é necessária porque reduz as preocupações. Permite programar atividades e futuro. Babel pode funcionar bem, mas só por um certo período de tempo, não para sempre, porque há quem irá impor a ordem política. Um mecanismo normalmente autoritário.

Na Argentina, a democracia atual costuma ser analisada como um movimento que foi passando do bipartidarismo ao “bicoalizionismo”. É uma condição do sistema presidencialista?

A competência bipolar é importante. Pode ser útil. O bipartidarismo não pode ser constituído artificialmente. É um produto histórico de longo prazo, como o da Inglaterra, da Austrália ou dos Estados Unidos. Não se constitui por meio de algumas regras, não basta mudar a lei eleitoral. É um produto histórico. O bipolarismo pode ser construído. Coalizões com alguns partidos, partidos que podem se unir na coalizão A ou na coalizão B. A presença de coalizões é importante. Obriga quem as constitui à responsabilidade. Há uma palavra em inglês que é “accountability”. Prestar contas. Isso é o que chamo de virtude democrática. E se houver duas coalizões, ambas devem prestar contas aos eleitores. Se houver um magma de muitos partidos, o “accountability” não funciona.

Em outro de seus livros sobre a democracia italiana, você escreveu, e eu vou ler textualmente: “Os cidadãos merecem o governo que recebem. Essa famosa frase pode ser interpretada de várias maneiras, embora a maioria dos italianos sempre tenha pensado que merece um governo melhor e há boas razões para acreditar que os governos italianos são, e sempre foram, não apenas o produto genuíno de uma sociedade que tem muitas desvantagens, mas também efetivamente representativos das preferências e dos sentimentos dos cidadãos”. Posso dizer que essa mesma frase poderia ser aplicada à risca à Argentina. Como a política argentina se assemelha à política italiana?

Na desorganização, mas a política argentina tem um elemento muito diferente: a presença do peronismo. O peronismo é um fator único na América Latina, no mundo. Não há movimento semelhante. Os elementos comuns são a desorganização da política, a instabilidade, a insatisfação do eleitorado. O comportamento eleitoral muda, mas isso produziu instabilidade política e não produziu lideranças de alto nível.

O compromisso da Itália civil contra o fascismo é comparável ao seu equivalente na Argentina contra a ditadura?

De certa forma, sim. É uma comparação possível. É um elemento importante e às vezes positivo. Mas alguns elementos deteriorados do fascismo na Itália e da ditadura militar na Argentina continuam existindo. É algo que devemos resolver.

A polarização é um estágio anterior de um processo que tende ao centro político?

Não, o centro não é nunca um lugar que possa estabelecer uma democracia viável. O centro é um lugar onde não há decisões. Não há alternativas. O centro é um lugar de compromisso. Eu acredito que as democracias precisam de concorrência. Elas precisam de alternância ou rotação no governo. Os eleitores devem escolher entre alternativas bastante claras. A polarização é pior do que o governo de centro, mas o centro é um lugar do qual eu não gosto.

Sobre a velha discussão de que a política é uma arte e não uma ciência, e aquela frase de Benedetto Croce de que a história sempre precisa de um nariz de Cleópatra, o quanto essa arte pode ser ensinada? É possível ensinar empatia?

É possível aprender muito, muitíssimo. Compartilho o que Maquiavel escreveu há mais de 500 anos. Podemos aprender com a história dos sistemas políticos. Maquiavel aprendeu muito com a história romana, com os grandes escritores da política romana. Podemos aprender muito com a nossa participação na política como cidadãos, como professores, como jornalistas. Podemos nos surpreender com os elementos que influenciam a política. Podemos aprender e tornar a política interessante. Uma coisa é fazer política e outra estudá-la. Se estudarmos bem a política, podemos fazer uma política melhor.

Há algo performático na sua relação com o sobrenome, com a estátua do Pasquino, onde começaram a ser divulgados textos críticos à autoridade em forma de cartazes?

É uma pergunta muito pessoal. Existem três explicações para meu sobrenome. Pode ser um soldado francês de Napoleão. O sobrenome Pasquin existe na França. Pode ser alguém que veio de Roma e que, como romano, foi nomeado pasquino por referência à estátua de Roma. E pode ser outra coisa que considero importante. Havia um italiano que morava em Piemonte ou Torino, onde nasci, que tinha aquele senso de humor anticlerical. Alguém com sarcasmo, mas capaz de analisar as situações e conversar com outros interlocutores.

“Alfonsín quis introduzir elementos parlamentares no presidencialismo argentino.”

Você escreveu que a república de Sartori é uma democracia parlamentar, liberal e constitucional, na qual os governos são formados no Parlamento. O que define um sistema para que seja republicano?

Se o presidente da república for eleito como poder executivo, é uma república presidencialista, como a Argentina. A eleição popular direta do chefe de governo muda a forma parlamentar de democracia. Sartori considera isso uma boa ideia. Sabemos que existem diferentes tipos de democracias parlamentares, como a democracia parlamentar alemã, que é o poder do chanceler. Existe a democracia parlamentar da Inglaterra com um sistema bipartidário. Além disso, a democracia parlamentar na Itália, que não funciona muito bem, mas é uma democracia. É uma democracia com instabilidade, em alguns casos não muito eficaz ou decisiva, mas tem momentos melhores e momentos piores. Agora está um pouco melhor do que há dez anos.

Raúl Alfonsín teve interesse em transformar o sistema presidencialista em semipresidencialista e semiparlamentarista. Quais vantagens têm esses sistemas?

Conheci Alfonsín pessoalmente, um homem muito elegante, interessante, uma pessoa amável. Discutimos sobre Maquiavel em uma pequena conferência, quando ele já havia deixado o cargo. A França tem uma forma de governo semipresidencialista, que funciona melhor do que o presidencialismo dos Estados Unidos. Outro sistema é possível. Alfonsín queria introduzir elementos parlamentares no presidencialismo argentino. Isso é mais complicado, mais difícil e não sabemos exatamente como fazer isso. Não sei se é possível.

“O início da pandemia na China foi um desastre total.”

É possível um Green New Deal exportável à Europa?

Sim. Além disso, é importante. Finalmente, os europeus entenderam que precisam disso. Se não houver um Green Deal, se não houver uma transformação da economia na direção verde, não será possível viver uma vida adequada e interessante. A contribuição da Europa neste momento é global. A conferência sobre o meio ambiente foi muito importante. É desejável que os países não democráticos aceitem algumas das conclusões e implementem as medidas necessárias. Se a China não cooperar, teremos um grande problema.

Qual será o papel da China no pós-pandemia, após uma gestão bem-sucedida no controle das infecções?

O controle deu certo, mas o começo foi um desastre total. Os regimes totalitários não sabem como informar e não estão interessados na transparência. A resposta chinesa veio, mas dois ou três meses após o início da pandemia. Isso complicou as respostas de todos os outros países. Devemos tentar obter mais transparência não só nos processos de tomada de decisão, mas também na comunicação política, social e cultural. Isso é algo que o partido único da China não quer construir. Nem permite isso.

Ao longo da história da humanidade, sempre que havia um poder ascendente e um poder consolidado, a supremacia foi resolvida pela guerra. Acho que os casos mostram que houve 16 oportunidades ao longo da história em que isso ocorreu. Essa hegemonia global proposta por Joe Biden poderia acabar sendo resolvida em algum momento por meio de um conflito armado?

A teoria da armadilha de Tucídides é fascinante (N. da R.: refere-se àquela formulada pelo cientista político Graham T. Allison). Mas homens e mulheres aprendem com a história. Biden e os chineses conhecem essas ideias. Eles sabem que existe competição entre a China e os Estados Unidos, mas não apenas entre os dois. Os acordos são necessários nos contextos. E isso fará com que a situação persista. Se houver uma guerra, será uma guerra de destruição, não apenas para a China e os Estados Unidos, mas para o mundo inteiro. Aprende-se com as experiências.

Produção – Pablo Helman e Debora Waizbrot.

*Por Jorge Fontevecchia – Co-fundador da Editorial Perfil – CEO da Perfil Network

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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